Parte II– Primeira Comunhão
Graças
ao Papa Pio X, foi restabelecido um antigo costume da igreja
católica para com as crianças, qual seja, permitir-lhes
fazer a Primeira Comunhão aos sete anos de idade. Assim,
para as crianças que chegavam à idade da reflexão
e, portanto, ao uso da razão, era conveniente aprender
os primeiros elementos fundamentais da fé cristã.
E
lá foram as crianças católicas freqüentar
o Catecismo, o primeiro curso extra-curricular do futuro de
suas vidas. Sim, para fazer a Primeira Comunhão as crianças
precisavam, antes, fazer o curso de Catecismo. Lá em
Calçado, na minha idade da reflexão, o curso de
Catecismo era realizado na matriz da igreja católica,
e ministrado pela catequista Maria Augusta, entre outras, se
não estou muito enganado.
Não
me lembro de ter faltado a nenhuma aula de Catecismo, mas no
dia da minha Primeira Comunhão, na hora de receber a
hóstia, duas palavras pronunciadas pelo Padre Amando
me deixaram atônito. Encontrava-me ajoelhado junto à
balaustrada, em frente ao altar, no fim da fila. Observava que
todos os meninos e meninas faziam os mesmos gestos, ou seja,
de mãos juntas, como se estivessem rezando, abriam a
boca, punham a língua para fora e o padre depositava
a hóstia por sobre a língua. Em seguida todos
recolhiam a língua, fechavam a boca, faziam o sinal da
cruz e se encaminhavam para os lugares demarcados nos bancos
da igreja.
Na
minha vez, fiz direitinho o gestual que todos tinham feito,
e só então descobri que havia algo mais. Eu me
encontrava de boca aberta e de língua para fora, pronto
para receber a hóstia, quando o padre Amando, retirando
a hóstia de um cálice, pronunciou as seguintes
palavras, em tom muito baixo e meio enrolado pelo sotaque: “Corpo
de Cristo”. Eu continuei de boa aberta e de língua
para fora. Então o padre repetiu as palavras: “Corpo
de Cristo”. Continuei na mesma posição,
mas senti que havia algo errado, pois o padre já estava
perdendo a paciência com o meu silêncio e olhava
para a catequista com o olhar de quem diz: esse ainda não
está preparado. Fui salvo por um sussurro de uma boa
alma, que soprava a resposta para eu responder “Amém”.
Captei a mensagem e disse Amém. Padre Amando fez uma
cara de poucos amigos, depositou a hóstia na minha língua
e subiu em direção ao altar. Fiz o sinal da cruz
e fui rapinho para meu lugar no banco da igreja.
Sentei
no banco e veio à memória alguns lembretes ministrados
no Catecismo. Entre esses lembretes, o que fazia referência
à hóstia não saia da minha cabeça.
A hóstia representava o corpo de Cristo e por essa e
outras questões, não devia ser mastigada. Lembrei
da história de um menino, contada pela catequista, que,
duvidando de que a hóstia era o corpo de Cristo, mastigou-a
e imediatamente jorrou sangue de sua boca. Fiquei sentado no
banco por um bom tempo com essas lembranças.
De
vez em quando olhava para os colegas que estavam próximos
e percebia que alguns já apresentavam a expressão
facial mais aliviada. Pensei: para esses a hóstia já
dissolveu. Passado mais alguns minutos, olhava de novo ao redor
e via que a quantidade de colegas com o rosto aliviado só
ia aumentando. Minha aflição aumentava no mesmo
ritmo, já que a minha hóstia não dava sinal
de que estava dissolvendo.
Não
sei se o problema da demora na dissolução da hóstia
estava relacionado com os pecados cometidos e não confessados
quando, concluído o curso de Catecismo, nos dirigimos
ao confessionário e confessamos os pecados confessáveis.
Mas como confessar o inconfessável? Quem teria coragem
de dizer que, de dentro de casa, escondido por detrás
da janela de bambinela, gritava pela dona “Cascuda”
quando esta passava na rua em frente ? Quem teria coragem de
confessar que matara um tiziu que, inadvertidamente, entrara
no alçapão que estava preparado para aprisionar
um coleiro gravatinha? Não tem jeito, esses pequenos
pecados são inconfessáveis diante de um padre.
A
hipótese da hóstia não estar dissolvendo
por causa de pecados não confessados foi a primeira a
ser descartada, pois, pelas confabulações após
a confissão, recebemos as mesmas obrigações,
ou seja, rezar tantas Ave-Marias e tantos Pais-Nossos em iguais
números de vezes. Não era possível que
os colegas tinham confessado ter matado tiziu e xingado a Cascuda
e, mesmo assim, tivessem recebido as mesmas quantidades de obrigações
de rezas que foram atribuídas a mim.
Depois
de muito matutar, conclui que o problema estava relacionado
com o jejum. Eu sempre fui e ainda sou bom de garfo, e aquele
negócio de ficar em jejum por doze horas mexeu com o
meu emocional. Quando chegou a minha vez de receber a hóstia,
meu estômago já “roncava” e minha boca
estava seca. O padre Amando, nervoso (para não dizer
irritado ) com o meu lapso de memória na hora de responder
“Amém”, depositou a hóstia na parte
posterior da minha língua. Recolhida para dentro da boca,
a língua grudou a hóstia no céu da minha
boca e por lá a deixou grudada.
Com
medo de cutucar a hóstia com a ponta da língua,
para não correr o risco de quebrá-la, mantive
a língua colada ao céu da boca. Com isso a hóstia
não dissolvia, pois não havia o contato com a
saliva. Com a fome aumentando, pensei no café da manhã
especial que estava posto à mesa, lá em casa,
aguardando o fim da missa. Só de pensar, a salivação
aumentou e a boca foi enchendo “d’água”.
Percebi que aquele excesso de saliva estava atuando na hóstia
e a dissolvendo. Para apressar o trabalho, pensei também
no almoço, que também seria especial, e que estava
sendo preparado pela Izefa ( Josefa ). Unnhn!!!, agora minha
boca estava transbordando de saliva, que por sua vez dissolvia
a hóstia rapidamente.
Que
alívio! Que fome! Acabou a missa e sai despencado, ladeira
abaixo, direto para a casa. O café da manhã, como
tinha imaginado, estava delicioso, muito mais que nos outros
dias. O almoço eu não vou nem comentar, pois da
nossa Primeira Comunhão, como nos lembra a moderna propaganda,
o almoço a gente nunca esquece.
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br