A musica sertaneja de Guimarães Rosa*



Esta obra já traz em seu título um lirismo contundente: A música sertaneja de Guimarães Rosa. A lira é um instrumento musical dedilhável em cuja suavidade viajamos pelo mundo quase indecifrável da imaginação. E o universo rosiano, conforme afirma o autor, “possui leis próprias, devido ao seu caráter absolutamente inédito e inovador, cuja compreensão depende de aceitarmos ângulos que escapam ao rigor cientificista de literatura e de música”.

Aristides Teixeira de Almeida – professor, escritor, cantador e sensível artista –, com este ensaio, apresenta um estudo de alto nível, que permite ao leitor compreender com mais propriedade “que tanto Sagarana quanto Grande Sertão: Veredas apresentam estruturas e procedimentos narrativos muito semelhantes entre si e às cantigas e toadas caipiras, amplamente difundidas em gravações ou em programas de rádio e televisão”. Esta é a matéria-prima deste livro: analisar, com a delicadeza de um solfejo, duas primorosas obras de Guimarães Rosa, que resistem ao tempo por sua inesgotabilidade de assunto para análise. Por conseguinte, acreditamos que a obra literária se torna imortal, quando não é linear e, sim, quando explora a tese e antítese a fim de chegar à síntese, com qualidades capazes de despertar interesse permanente.

O não-dito das duas obras supracitadas é muito bem pesquisado por Aristides Teixeira de Almeida, quando esmiúça aquilo que o significante tenta esconder do significado, para mostrar-nos a íntima ligação dos “causos” com as toadas sertanejas. É uma viagem melódica dentro de outras viagens, que refletem os imensos dramas metafísicos e existenciais da humanidade.

A partir dos elementos estruturais da narrativa – ação, espaço e tempo –, vai o autor descortinando a paisagem sertaneja em que a ação ocorre dentro da atemporalidade dos grandes textos literários: “Todas as localidades e acidentes geográficos que servem de palco para a ação dos personagens são, com raríssimas exceções, localizáveis no mapa”. Entretanto, este espaço vai além da região sertaneja, a exemplo do que diz o personagem-narrador de Grande Sertão: Veredas, Riobaldo: “O sertão está em toda parte”.

O tempo é, aqui, criteriosamente analisado em vários contos de Sagarana: “O Burrinho Pedrês”, “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, “A Volta do Marido Pródigo” etc., em que ressalta a atemporalidade da narrativa ou chama a atenção para o tempo cronológico, destacando a circularidade espaço-temporal reproduzida na maioria das estórias. Há, inclusive, um capítulo dedicado ao “Tempo Cinematográfico”, no qual nos esclarece: “Guimarães Rosa usa explicitamente técnicas do roteiro cinematográfico no conto ‘Cara de Bronze’ de Corpo de Baile”.

Finalmente, o autor entra no universo da “Música Sertaneja e Literatura”, trazendo à baila os recursos utilizados por Guimarães Rosa, tanto da música popular, quanto da música erudita “para impregnar ainda os seus textos de uma atmosfera eminentemente metafísica”. Vai discorrendo sobre o assunto e já de início elege “O Burrinho Pedrês” “o mais musical dos contos de Sagarana, graças à utilização inteligente e oportuna dos sons da língua, conseguindo imprimir ritmo e musicalidade”. E é esta musicalidade que Aristides Teixeira de Almeida consegue detectar na viagem da boiada, quando faz a apreciação dos recursos da expressão poética, tais como ritmo, rima, aliterações etc. E não pára por aí: afirma “que a maior parte da narrativa de Grande Sertão: Veredas se estrutura como uma gigantesca rapsódia, forma musical livre...”

Para concluir o seu minucioso e fecundo trabalho de pesquisa, Aristides Teixeira de Almeida, como bom capixaba, filho de São José do Calçado-ES, num gesto ufanista de exaltação à terra natal, analisa a toada “O último carro de boi” do compositor espírito-santense Hércules Dutra, inspirada no conto homônimo do calçadense Pedro Teixeira – mais um beletrista da casta dos Teixeira de Almeida.

Aristides Teixeira de Almeida, com seu talento e sensibilidade, nos oferece um pequeno tratado que vai além de suas reais pretensões, porquanto é um meticuloso estudo, sobre duas magistrais criações literárias de Guimarães Rosa, e nos seduz pelo seu estilo e atributo. Este livro deveria ser leitura obrigatória para quem já leu ou tenciona ler Guimarães Rosa. Assim é “A música sertaneja de Guimarães Rosa”.

Edosno Lobo Teixeira


* Resenha do livro do professor calçadense Aristides Teixeira de Almeida, em fase de edição final e que será lançado em data a ser marcada.

 



 

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