O que o ensaísta Christopher Hitchens diz a respeito
de Lord Byron também pode ser aplicado ao filósofo
alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche(1844-1900),isto é,"a
carreira do poeta é mais como um cometa do que como o
meteoro com o qual costuma ser comparada:ela retorna repetidas
vezes para ser revista e revisitada".E o filósofo
inglês Bertrand Russell define Nietzsche e sua filosofia
em poucas palavras na sua "História da filosofia
ocidental": "Apesar de Nietzsche criticar os românticos,
a sua atitude é fortemente determinada por eles; é
o ponto de vista do anarquismo aristocrático que Byron
também representara, de modo que não é
surpreendente que Nietzsche seja um grande admirador de Byron.
Ele tenta unir duas categorias de valores que dificilmente se
relacionam: por um lado ele ama a crueldade, a guerra e o orgulho
aristocrático e, por outro, a filosofia, a literatura,
arte e antes de tudo a música".Entretanto,a definição
está longe de esgotar o tema.Nietzsche foge a toda tentativa
de classificação,talvez pelo fato de haver sido
tão bom filósofo quanto poeta__o que é
raro num mesmo indivíduo.Foi um aventureiro no mundo
do espírito.Tão rigoroso e incisivo em suas críticas
quanto convidativo,estimulador do pensamento livre de qualquer
peia,de qualquer compromisso a não ser com a verdade
de cada um.Além do mais,não se pode e não
se deve desconhecer um indivíduo que influenciou muitos
outros filósofos,sociólogos,poetas,psicólogos,grandes
romancistas,pintores do séc.XX.
Muito já se escreveu sobre Nietzsche,filmes já
foram feitos sobre ele,o compositor Richard Strauss compôs
uma sinfonia sobre um de seus livros,o "Assim falou Zaratustra",que
por sinal é a música de abertura da obra-prima
de Kubrick sobre um argumento de Arthur Clarke,"2001-Uma
Odisséia no Espaço";quadros já foram
pintados retratando seu rosto desafiador,com a vasta bigodeira
polaca ou prussiana feito cascata.Pode-se dizer com segurança,então,que
Nietzsche é o filósofo mais carismático
da história da filosofia__feito só igualado por
Sócrates,acho eu.Em minha juventude,visitando pensões
de estudantes universitários,não era incomum ver
nas paredes reproduções de retratos do filósofo
junto com a foto do guerrilheiro Ernesto Che Guevara,um dos
ícones dos anos 70.Claro que ambos só tinham dois
pontos em comum:o carisma e o inconformismo exacerbado.As idéias
do filósofo,no entanto,eram conhecidas de um modo muito
superficial,quando muito um aforismo ou dois.Bastava saber que
ele contestara toda a cultura ocidental e terminara seus dias
num hospício,vítima de “paralisia progressiva”
de origem sifilítica, ou de câncer cerebral,como
querem alguns médicos atuais.Parece-me,porém,que
ninguém ainda havia escrito a sua vida em forma de romance,pelo
menos não com tanto sucesso na vendagem de livros.Essa
proeza pode ser creditado ao norte-americano Irvin Yalom.Antes
de prosseguir,gostaria de fazer uma correção e
uma advertência:o livro trata de apenas algumas semanas
da vida do filósofo e é uma mistura de ficção
com personagens históricos.Tem estado entre os livros
mais vendidos no Brasil há vários meses,tendo
sido lançado pela Editora Ediouro,com o título
de "Quando Nietzsche chorou",em tradução
de Ivo Korytowski.
Assim,repito,todos os nomes que citarei doravante correspondem
a personagens históricos,mas muitas das situações
são fictícias.
O livro começa com o dr Breuer,com quem Freud colaborou
durante vários anos,de férias em Veneza,tomando
café numa praça,enquanto aguarda fräulein
Lou Salomé,que lhe escrevera uma carta marcando o encontro.Ao
vê-la,o dr Breuer fica impressionado com a sua beleza
física,com suas maneiras decididas e com sua inteligência(
apenas 21 anos).É claro que esse encontro nunca se deu,na
realidade.Lou Salomé vai logo dizendo,após sentar-se:"Tenho
um amigo em desespero.Temo que venha a se matar num futuro muito
próximo.(...)A morte desse homem teria conseqüências
imensas para o senhor,para a cultura européia,para todos
nós".À pergunta do dr Breuer sobre quem se
tratava,ela diz que ele ainda é pouco conhecido.Esperta,Lou,
conhecedora da grande admiração do dr Breuer pelo
compositor alemão Richard Wagner,passa-lhe uma carta
deste último dirigida a Nietzsche,pois os dois são
amigos.Dr Breuer morde a isca e passa a se interessar mais pelo
caso.Quer detalhes de sua doença.Lou faz um apanhado
delas(os sintomas são reais):"(...)Dores de cabeça
lancinantes.E surtos constantes de náusea.E uma ameaça
de cegueira.Problemas estomacais:às vezes,não
consegue comer durante dias.E insônia:nenhum remédio
consegue fazê-lo dormir,de modo que toma doses perigosas
de morfina".Mais adiante lhe diz:"Nietzsche exauriu
os recursos médicos da Alemanha,Suíça e
Itália.Nenhum médico conseguiu compreender sua
doença ou aliviar seus sintomas.Nos últimos 24
meses,segundo me contou,consultou-se com 24 dos melhores médicos
da Europa.Ele abriu mão de seu lar,abandonou seus amigos,renunciou
à sua cátedra na universidade.Ele se tornou um
andarilho em busca de um clima tolerável,à procura
de um ou dois dias de alívio de sua dor.Ele está
desesperado mas não com suas dores físicas".Diante
disso,o dr Breuer lhe diz que será apenas o vigésimo
quinto médico a fracassar e que ele não tinha
meios de curar um desespero existencial.Entretanto,Lou acredita
que o dr Breuer poderá prestar uma grande ajuda a Nietzsche
e lhe afiança que procurará por todos os meios
fazer com que ele vá a seu consultório em Viena.
Esclareçamos que Lou Salomé e Nietzsche tiveram
um caso.Lou era dessas mulheres de grande beleza física
e notável inteligência,como já disse.Mulheres
assim exercem uma atração poderosa sobre os homens,algumas
vezes apenas os colecionando,outras,metaforicamente matando-os
como a viúva negra faz com o macho,depois de ser fertilizada
por ele.Não me refiro,evidentemente,aos homens mais grosseiros.Estes
não vão além de uma Carla Perez.Por que
o caso entre os dois não foi adiante?Acho que ninguém
sabe dizer.Terá aquela cascata de bigodão polonês
de Nietzsche assustado Salomé?
__afinal, que mulher acordaria sem susto,tendo na nuca aquela
vassoura a lhe fazer cafuné?Será que Nietzsche
era impotente sexual e Salomé uma aficionada do valente
esporte bretão?Ou Nietzsche era inseguro e temia perder
a mulher para outro,já que ela era bastante independente
para sua época?Ou Salomé não queria maior
envolvimento com um pobretão que vivia de sua parca pensão
por invalidez de professor universitário?Ou Nietzsche
nunca conseguiu se libertar da prisão de seu próprio
Eu?O que é certo é que ela se casou com o dr Paul
Rée,amigo de Nietzsche,aprofundou-se no estudo da psicanálise,escreveu
livros sobre o assunto(tenho um comigo__estilo nebuloso,cheio
de nuances,quase que um temor de definir seja o que for),manteve
correspondência epistolar com Freud,separou-se de Rée
e teve um caso com o poeta alemão Rilke.Quanto a Nietzsche,nunca
mais se envolveu com mulher,não freqüentava bordéis
nem mantinha amante__viveu obsessivamente para a sua obra até
enlouquecer numa cidade italiana.
O amor de Salomé poderia ter salvo Nietzsche?Não
precisava ele,mais do que ninguém,de uma mulher que fosse
"o descanso do guerreiro",ele,que sozinho resolvera
guerrear os ídolos mais caros da humanidade?
Com efeito,ao retornar a Viena,ao retomar sua rotina diária
de médico de extraordinário renome,dr Breuer recebe
certo dia em seu consultório um indivíduo que
se diz chamar Nietzsche.
Teresópolis,10 de setembro 2006.
Carlos Rezende