Nietzsche no divã de Irvin D.Yalom -final


A trama fora urdida por Josef Breuer e seu pupilo e amigo Sigmund Freud. Nietzsche é orgulhoso,não admite ser objeto da piedade de ninguém,desconfia sempre que nota a menor ameaça de que o queiram dominar.Com uma pessoa assim,pensa Breuer,só invertendo os papéis.Para fazer com que ele se submeta a um tratamento mais demorado e numa clínica, Breuer lhe propõe uma troca de papéis.Ele confessa a Nietzsche que sofre de desespero,que a vida havia perdido todo o sentido para ele,que está a ponto de se matar;e que espera que Nietzsche,com a sua notável argúcia psicológica,descubra a causa de tanta aflição.Em troca,será monitorado na tal clínica,suas enxaquecas terríveis, que o incapacitam de trabalhar em seus livros na maior parte do tempo,serão esmiuçadas,estudadas e talvez abortadas pelos novos remédios descobertos.

Após as mais ardilosas táticas elaboradas por dois gênios da análise psicológica,Breuer e Freud,Nietzsche deixa-se convencer,transfere-se para a confortável Clínica Lauzon,com direito a um quarto privativo,e aí tem início o duplo tratamento:dois indivíduos são ao mesmo tempo médico e paciente um do outro.Mas a relação que nos interessa aqui é a de Breuer-médico/Nietzsche-paciente.

Tem início os mais longos debates entre o filósofo e Breuer,mas para o que temos em mente,basta a conversa final entre os dois.

Nietzsche diz que teve um sonho.Sonhara que estava na Clínica Lauzon.Estava frio e escuro e todos já se tinham ido para suas casas.Ele acende um lampião e vai até uma sala de estar onde encontra uma bonita fogueira com oito pedras altas aprumadas ao seu redor, que parecem estar se aquecendo nela.

Breuer medita sobre o sonho e por fim diz:”Na hospedaria de Herr Schlegel você me disse que não havia nenhum nicho.(...)Penso,Friedrich,que você anseia por um lar mas teme seu desejo!As 7 pedras de seu sonho,creio que representam meus 5 filhos,minha esposa e eu.Quem sabe você era a oitava pedra?Talvez o sonho exprima o desejo de minha amizade e de meu lar.Nesse caso,seja bem-vindo.Venha comigo para minha casa,Friedrich.(...)Estou convencido de que lhe fará bem.Tenho um quarto vazio mais ou menos do tamanho deste.E uma biblioteca onde você poderia escrever”.

Nietzsche recusa a oferta de Breuer mas lhe pergunta se permite que ele se desabafe,se Breuer pode ouvir a confissão que tem a lhe fazer.E então lhe diz com a voz trêmula que meses atrás conhecera uma mulher chamada Lou Salomé e que a amou como jamais tinha amado outra mulher,que era como se fosse a sua alma gêmea,nela pensava todo dia,quase toda hora.Lembrava-se sobretudo de um passeio que haviam feito ao Lago Orta e pouco depois ao topo do Sacro Monte para contemplarem um pôr-do-sol.Enquanto viam duas nuvens se fundindo se beijaram:”o único momento sagrado que jamais conheci”.

Aqui,Breuer acha que é seu dever contar a Nietzsche o que ouvira das conversas que tivera com Lou Salomé.Acha estranho que ele mencione esse passeio,uma vez que a jovem fora minuciosa em suas narrativas.Não omitira nada.Contara sobre Lucerna,Leipzig,Roma,Tauntenberg,mas que sobre Orta—“eu lhe juro!”—falara apenas de passagem,e lhe pareceu que nenhuma impressão do passeio lhe ficara,que ela nem mesmo se lembrava se alguma vez o tinha beijado.
Nietzsche mantém-se em silêncio.Seus olhos estão inundados de lágrimas.Por fim fala:” Sabia que nenhuma outra mulher jamais me tocou? Não ser amado ou tocado... a vida toda! Viver uma vida totalmente anônima... sabe o que é isso ? Às vezes, passo dias sem falar uma palavra com ninguém, exceto um "Bom dia” ou "Boa noite" ao dono da hospedaria. Sim, Josef,você teve razão em sua interpretação de “nenhum nicho”.Não pertenço a nenhum lugar. Não tenho nenhum lar, nenhum círculo de amigos com quem conversar todos os dias, nenhum armário cheio de pertences, nenhuma família em torno da lareira. Sequer tenho uma pátria, pois abri mão de minha cidadania alemã e nunca permaneço em um lugar o tempo suficiente para obter um passaporte suíço(...)Amiúde,em meu isolamento mais profundo,falo comigo mesmo.Porém não muito alto,pois temo meu próprio eco oco.A pessoa,a única pessoa que preencheu esse vazio foi Lou Salomé.E agora,graças a você,sei que Lou foi meramente ilusão.Que pílula amarga,doutor!”.

Segue-se um diálogo sobre a importância da mulher em geral e a possível significação de Lou Salomé na vida de Nietzsche,o qual,em seu rancor,a vitupera em termos duros até ser sacudido por uma crise de choro.Breuer lhe diz gentilmente:”Friedrich,por favor,tente uma experiência comigo.Consegue imaginar que suas lágrimas tenham voz?Dê às suas lágrimas uma voz.O que elas diriam?”.Nietzsche então começou:”Se uma de minhas lágrimas tivesse consciência,diria...diria:Livre enfim!Engarrafado todos esses anos!Este homem,este fechado e seco homem,nunca me deixou fluir antes.Quis tanto escapar antes!Mas não havia saída...até que este doutor vienense abrisse o portão enferrujado”.Breuer agradece:”Um abridor de portões enferrujados:esplêndido cumprimento(...),caro amigo.E por que estas lágrimas,Friedrich?”.O filósofo enxuga os olhos com um lenço e responde:” A forma como você disse "caro amigo".Já usei muito a palavra “amigo” antes, mas pela primeira vez neste momento a palavra foi inteiramente minha. Sempre sonhei com uma amizade em que duas pessoas se unissem para atingir um ideal mais elevado. E aqui, agora, ela chegou! Você e eu nos unimos exatamente com este fito! Participamos um da auto-superação do outro. Sou teu amigo. És meu amigo. Somos amigos. Nós... nós... amigos”.Breuer então lhe diz:”Então,Friedrich,aceite meu convite de ficar comigo.Lembre-se do sonho:seu nicho está no meu lar”.Ao que o filósofo abana a cabeça numa negativa e diz:”Você conhece um de meus lemas,Josef:Amor fati:escolhe teu destino,ama teu destino”.

“Breuer ergueu-se e encarou Nietzsche, com a cadeira entre eles.Breuer circundou a cadeira. Por um momento, Nietzsche pareceu assustado,acuado.Mas, à aproximação de Breuer com braços abertos, ele também abriu os braços”.
Na tarde daquele mesmo dia,Nietzsche deixou o quarto 13 da Clínica Lauzon e partiu de trem para a Itália.

Aqui termina o livro de Irvin D. Yalom,caro leitor.

Já li livros de ficção mais profundos,de autores galardoados com o prêmio Nobel,tais como “A Montanha Mágica”,de Thomas Mann e “Santa Joana”,de Bernard Shaw,porém,nenhum deles me deixou os olhos úmidos como este que acabei de tentar recontar e que simplifiquei em demasia.Contra esse mal,contudo,há remédio:basta comprar o livro.Poucas vezes a amizade recebeu o elogio que sempre lhe é devido.

Tomei poucas liberdades com o texto,mas,essencialmente,creio não o ter modificado em nada nas suas 407 páginas.
O que a história registra é que em 1889,numa cidade italiana,ao ver um cocheiro chicotear violentamente um cavalo,Nietzsche correu e tentou proteger o animal envolvendo seu pescoço com o seu corpo estremecido por soluços incontidos.Tinha perdido a razão,e assim ficaria até a sua morte em 1900.

Teresópolis,20 de setembro de 2006.

Carlos Rezende

 



 

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