De Napoleão Lyrio Teixeira
1
Ao reler, esta manhã, o “Hamlet”, de Shakespeare,
detive-me neste ponto em que assinala haver mais coisas entre
o céu e a terra do que sonha a filosofia de Horácio.
Parti para recordar estranha história acontecida no município
espírito-santense de Calçado, perto do sítio
onde nasci. Foi algo de supranormal (digamos assim), que pos
em polvorosa uma região toda.
Há muito tempo que a história mora comigo. Pedindo
para ser contada, antes que se perca na noite do esquecimento.
Rendo-me, afinal, vou contá-la.
Isso ocorreu nos começos do século. Zona nova,
povoações tímidas tentando sobreviver onde
a mata virgem cedia, a custo, lugar para o homem e sua lavoura.
Terra dura, gente dura__lei do trabuco, faroeste verdadeiro
onde só fortes sobreviviam.
Charpinel, francês de nascimento, ali chegou, chantou
tenda, rasgou na selva bruta sua fazenda, constituiu família__ficou.Um
dia,muito tempo passado, veio dar a sua porta um viajante,pedindo
pousada.Entardecia e o risonho patriarca cercado da família,olhava,embevecido,as
belas filhas,quando o homem lhe falou.”Pois não,era
benvindo, entrasse, em breve a mesa estará posta,cama
arrumada”__ a velha hospitalidade de antanho. Ao sabor
da conversa,descobriu que o homem era francês como ele.Um
compatriota perdido naquelas brenhas.__encantou-se; le bon Dieu
tivera pena dele, agora tinha com quem falar na língua
materna, trocar recordações sobre la douce France
perdida nas brumas da distância e da saudade. Foi assim
que o vagabundo sem nada de seu, sem ter para onde ir, achou
porto seguro; ali ficou, a título de empregado, fazendo
uma coisa e outra__foi ficando.
2
Acontece
que Charpinel tinha aquelas lindesas de filhas, foi contado;e
que o jovem (era um belo moço) era francês, vivo,
ardente, galanteador.Não tardou querer assediar as moças,
namorá-las, querer conquistá-las. Tolerado, tratado
com frieza, repelido firmemente por fim; inconformado, mau-caráter,
querendo vingar-se, pôs a difamá-las nas vendas
e botequins das estradas, da vila, caluniou-as, enxovalhou-as
de lama.
Não tardou viesse Charpinel a saber. Mandou chamar o
homem, conversou com ele que, cinicamente, nada negou, e disse-lhe:
"Face ao mal que causou à reputação
da minha família, poderia mandar matá-lo como
a um cão, não o faço, entrego-o à
Justiça Divina; só uma coisa, ouça bem;
jamais o perdoarei, mesmo depois de você morto, não
o perdoarei”.
Era daquelas fazendas antigas, casa grande, escada dando para
varanda ampla sombreada de trepadeiras floridas e, na frente,
o grande terreiro com seu cruzeiro de madeira, no alto do qual
se viam o galo de lata pintado de vermelho e instrumentos da
Paixão: a escada, os cravos, o martelo.
Ouvida a maldição, o Francês (era como o
chamavam), soltou estrondosa gargalhada, pegou seus trens e
se mandou. Deu uma parada junto ao cruzeiro e, zombeteiro, bradou,
alto para que todos o ouvissem, que pouco se lhe dava tola maldição
que, para ele, valia tanto como aquele galo de lata no alto
da cruz, que a todas essas tolices tratava assim__sacou da garrucha
e com mira certeira, o alvejou. Um fragmento metálico
da espoleta, feriu-lhe a mão, ao que não deu importância
maior e partiu. Infeccionou-se o ferimento, sobreveio gangrena,
amputaram-lhe a mão, o antebraço, o braço,
não adiantou, morreu isso em lugar distante, ninguém
soube.
3
Na
fazenda do Charpinel, passou a acontecer algo de estranho. Algo
assim como um dolorido grito de agonia, alto como prolongado
silvo de locomotiva, que surgia,inesperado,nos mais diversos
lugares,nos descampados junto a caminhantes solitários;em
meio a pessoas que,amistosas,conversavam ou,juntas,na Igreja,rezavam;em
bailes,festas,velórios,enterramentos__por toda a parte
enfim,não importava onde nem quando.De vez em quando
silenciava,todos respiravam aliviados:o “ bicho do Charpinel”(ganhara
nome) fora embora.Não fora,voltava a fazer-se ouvir,
atormentando os que,apavorados, seguiam sofrendo a provação.
Vieram padres, ministros de muitas religiões, benzedores
e benzedeiras de fama__e oravam, benziam, faziam exorcismos,”trabalhos”,
com fervor e fé, para expulsar, mandar embora a "coisa"
(a essa altura ninguém mais tinha dúvidas). Em
vão: o "bicho" continuava,uivando,uivando...
Isso durou meses,mais de ano. A história varou matas,
sertões, chegou à cidade grande,de onde vieram
jornalistas,farejando o “furo”.Acabou-se,de vez,a
paz dos Charpinel.Vinha gente de longe,acampava,armava barraquinhas
onde gringos espertos,de nariz adunco e fala enroscada, aproveitavam
para "trocar" (santo não se vende, troca-se
por dinheiro... ), santos, imagens e bentinhos;e havia música,
jogos de azar, vendedores ambulantes, casais de namorados, essas
coisas todas. Aquilo virou__dir-se-ia hoje__ponto de atração
turística.
E o “bicho”, com seu uivo agoniado,dolorido,ora
aqui,ora ali—sempre presente.Quando brotava do chão,tudo
se calava,crianças gritavam de medo,mulheres desmaiavam,homens
valentes empalideciam,fazendo o sinal da cruz.
4
Doutores
ouvidos,falavam em alucinação coletiva, deitavam
sabença;todos opinavam__ninguém resolvia.Mais
tarde, homem feito,médico formado,ganhas minhas esporas
de psiquiatria,querendo investigar a verdade,entrevistei contemporâneos,testemunhas
do fato, pessoas chegadas a mim,senhoras de espírito
forte e são, algumas agnósticas, materialistas
umas,todas compos mentis et compos sui, cérebros e espíritos
equilibrados__e todas, sem exceção,opinavam com
firmeza:"fui armado de todo o meu ceticismo, disposto a
ridicularizar a farsa__e assisti, ouvi, não posso negar".
Dezenas de testemunhos idôneos, firmes, sólidos.
Alguns haviam-se reencontrado com Deus, voltaram a rezar.
5
Certa
manhã, muito longe dali, certa mulher começa a
fazer o almoço quando, de súbito, para e, sem
dizer palavra, larga tudo e sai porta afora. 0 marido, estranhando
sua atitude, quer saber onde vai. Lívida, olhar estanhado,
não responde, dirige-se para o curral, arreia um cavalo,
monta; o marido, atrás, espantado, querendo saber para
onde se manda; sempre sem resposta, monta seu cavalo, segue-a.
Jornada longa, de léguas, estrada ruim através
da mata. Horas depois, alcançam a fazenda do Charpinel
que se acha na varanda, na cadeira de balanço. A mulher
apeia, sobe correndo a escada, atira-se aos pés do fazendeiro
e, chorando, agarra-lhe os joelhos, implorando: "Charpinel,
pelo amor de Deus, me perdoa!" Espanta-se: perdoar o quê,
perdoar por quê, se nem a conhece! "É preciso
que me perdoe, estou penando demais__eu sou o Francês!"
Ao que Charpinel, fazendo-a levantar-se, muito grande do alto
da sua bondade, falou: "Pois se é por mim, não
há mais por que sofrer__está perdoado! "
A partir desse dia, dessa hora e desse instante,desapareceu
para sempre o “bicho” do Charpinel.
EXTRAÍDO DO LIVRO “PLANTANDO PARA O
AMANHÔ,DE NAPOLEÃO LYRIO TEIXEIRA,
EDIÇÃO DO AUTOR,CURITIBA,1985.
Enviado
por Carlos Rezende