Aposentei-me pela Previdência Social,caro leitor,e desde
já aceito os seus mais sinceros pêsames.Minha aposentadoria
diminui a cada ano,e só não chegará a zero
porque muito antes disso já estarei arrancando capim
pela raiz.Apesar das muitas moléstias de que sofro,tenho,portanto,
que continuar a trabalhar para a sobrevivência de minha
família.Tenho 58 anos,sofro de angina,malária,cirrose,erisipela,diabete,fimose
inoperável,tenho coração artificial financiado
pelo SUS,doença de Parkinson incipiente e gota avançada.
Estou trabalhando,no momento,para uma firma de Vitória
que tira fotos ruins e faz reportagens piores.Tenho vindo a
Calçado num helicóptero pilotado por um louco
bêbado tirar as tais fotos aéreas de propriedades
rurais.Depois tentamos vendê-las aos donos,pois bem sabemos
o quanto eles se envaidecem das reses e benfeitorias que possuem.Como
temos coberto boa parte do sul capixaba e do norte fluminense,nossos
ganhos em dinheiro têm sido satisfatórios.Talvez
tenha obtido maior lucro e proveito em conhecer tipos humanos
bem interessantes.
Quero ao menos falar sobre um deles,que mora pouco depois do
campo de futebol do Fazenda Velha,que foi onde deixamos pousado
o helicóptero e o piloto a dormir na cabine,cara inchada
de porre.
Depois de andar cerca de uns 15 minutos,ao contornar uma curva,vimos
à nossa frente,à esquerda,uma ampla construção
de um único pavimento,rodeada de velhas mangueiras e
flamboaiãs em plena florescência chamejante;ao
nos aproximarmos mais, vimos escritas, em lâmpadas néon
, as palavras Companhia de Umbanda do Pai Velho Holandês.Na
entrada,um negro muito alto e muito gordo,de fraque e luvas
brancas, tomou nosso cartão de visitante,que eu mandara
pegar no dia anterior; desapareceu pela porta que guardava,
retornando logo com um menino cabeçudo,de cabelo muito
preto e muito moreno de pele,embora de olhos muito azuis,que
nos introduziu no recinto. Dentro,dois terços do espaço
eram ocupados por fileiras de cadeiras para os freqüentadores
e visitantes, e o terço restante para os trabalhadores
da tenda de umbanda.Sobre um largo altar,parecendo observar
toda a tenda,junto à parede,via-se a reprodução
em gesso e em tamanho natural de uma bela cabocla,de longos
cabelos lustrosos que lhe chegavam à cintura,sorriso
algo sensual;por traje,uma blusa amarrada em nó nas pontas,
e uma calça de couro marrom de vaqueira e botinas escuras
de complicados atilhos.Na mão direita segurava um laço.
Batuqueiros, cantadores de pontos, "cavalos" ou "aparelhos"
(médiuns) e auxiliares diversos já se preparavam
para a longa tarde e noite que teriam pela frente.Os freqüentadores,lá
de seus lugares,tudo observavam,fofocavam,davam valentes cusparadas
encatarradas laterais,comiam broa e rapadura,esfarinhando no
colo dos vizinhos__uma meleca! E cantavam muito desafinadamente
e faziam um alarido dos diabos.Um,a quem todos chamavam de Damião
e que parecia gozar de notável popularidade, contava
casos e mais casos sucedidos numa antiga olaria onde trabalhara.Esse
Damião,dizia eu,parecia ter formiga nos fundilhos,pois
estava sempre a mudar de cadeira,embora manquejasse tanto de
uma perna,que só mesmo a pinga,com suas propriedades
medicinais de compensação do equilíbrio
postural,o mantinha numa verticalidade precária__a manqueira
a puxar para um lado e a pinga para o outro.
Dizia eu que o garoto nos levou até a uma porta,abriu-a
e disse que aguardássemos numa sala de espera,que ia
avisar Pai Theo que havíamos chegado.Não esperamos
muito.Logo surgiu um senhor na casa dos sessenta anos.Era de
estatura mediana,ombros largos e fortes,barriga de nove meses,crânio
comprido de belos cabelos brancos naturalmente encaracolados,
balançando em torno da cabeça,cujo ápice
era totalmente calvo;o rosto era largo,barba grisalha escorrendo
pelo peito,beiços grossos,nariz grande,rombudo,cheio
de pintinhas negras de cravo por espremer e pele escarlate,esbraseada;os
olhões eram azuis;voz abaritonada,um tanto carregada
no sotaque e arrastada, como a de um estrangeiro que teimasse
em conservar sua língua materna ou,por outra,tivesse
dificuldade para aprender idiomas,não sei.Sua vestimenta,um
fino manto africano passado por um ombro e deixando o outro
descoberto,ostentava todas as cores possíveis e imagináveis.Nem
um pavão,com toda a sua esplendorosa cauda aberta para
o sol, podia competir com Pai Theo.Como se não bastasse,vários
colares,cada qual de uma cor,lhe adornavam o peito robusto.Tudo
nele era cor,som e movimento.Foi logo me abraçando como
se me conhecesse há décadas.Nunca em minha vida
fui tão apertado,tão efusivamente saudado.Pai
Theo parecia possuir uma energia inesgotável. Misturava
em sua fala os idiomas holandês,sua língua materna,
mastigava algum nagô,ia fundo no bundá e falava
uma droga de português,uma algaravia quase ininteligível.Aliás,devo
aqui confessar que ouvi de outro visitante,que nasceu e ainda
mora em Calçado,que aquele não era o único
holandês a aparecer por aquelas terras.Vou citar suas
palavras: "Esse padre,ótima pessoa por sinal,chamava-se
Amando,também não primava pela inteligível
pronunciação das palavras.Nas missas,não
sei se pela acústica da Igreja de Calçado ou se
pelo desleixo no emitir a voz,nunca consegui entender uma só
palavra que ele falava,e isso indo eu à missa todo domingo,até
o padre vir a falecer,que Deus o tenha.Se me perguntassem se
ele celebrava a missa em latim,holandês ou português,eu
não saberia dizer.Mas depois de sua morte,soube de uma
coisa que me deixou contente.Vou lhe contar.Todo mundo fica
com vontade de indagar,de mandar investigar como é a
vida sexual de um padre.Isso é natural,já que
eles levam uma vida completamente contrária à
da totalidade da comunidade sadia.Já ouvi até
alguém dizer “que a pior perversão sexual
é a completa abstinência sexual”.Não
é à toa que esses escândalos de padres com
garotinhos se sucedem.Pois não é que quando o
padre Amando morreu,espalhou-se a notícia de que ele
tinha uma propriedade rural em Minas Gerais,com cabeças
de gado e tudo?E,o principal,disseram também que ele
tinha uma mulher morando nessa tal propriedade.Confesso,repito,que
fiquei muito contente ao saber disso.Rezei até para que
fosse verdade.Não que eu quisesse que estourasse um escândalo.Eu
queria sim é que tudo aquilo que contavam dele fosse
verdade.Como era recompensador saber que o padre tinha deixado
este mundo aproveitando uma das melhores coisas que existem:o
amor de uma mulher.Não só o sexo e sim,e principalmente,o
amor de uma mulher e o sexo dela também,claro.Eu gostava
do padre realmente,simpatizava com ele,queria o bem dele.Por
isso desejava que ele tivesse tido o melhor que a terra pode
nos dar.É claro,os carolas e os hipócritas queriam
é que ele morresse virgem.Veja o Pai Theo.Ele faz o bem
a muita gente,à sua maneira estranha,é verdade,mas
faz,estou aqui de prova.Ele tem umas três mulheres,um
monte de filhos e vive em paz com todos”,concluiu o calçadense.
Pai Theo fez sinal com a grande mão peluda e vermelha,de
grossos dedos ornados de anéis e fita azul atada nos
pulsos.Ia falar para os visitantes,isto é,para mim e
outros que se tinham aproximado:
__Zenhorres,Prosit!Zamar minha nome babalorixá Theofrastus
Bombastus de Hoheinheimm;mas pode zamar eu de Pai Theo,babalorixá
Theo abenas, babá Theo,abenas.Zer prreta quirria eu zer;tenha
eu almo e corpo de prreta;gostar garnaval,gostar mulata,gostar
prreta,gostar rrede,gostar arroize com feijam maize angu,gostar
jeitinho de brasilerro,braia com zol pouca por cauzo da minha
pelame brranca,galorr,chopp muita,gostar de esquentador de boca
muita,babagaio,eu ama Brrazill,derra minha,derra de minha corrazón.Viva
eu cón trez prreta e trez mullata marritalmente em paize,cón
trrinta e oita fios,bem gomidos todos,gozando boa zaúde.Elas
qui trabáia no roçado,minha pelame zer muita brranca,non
poderr non,vicar no rrede de balança vendo elas trabaiá.Zô
prreta,zô negra,zô negão!Zé Zilva
é maize holantes quieu,eze neguinho do computadorrAlê
bundê aterê niimalaá!Ileleliá azupexê,ixe
zuquitá,ixe djalmá,ixe patrári Oskarr.Das
bode werden himmerhaulk!Bis Prosit!Zaravá!
E abraçou a todos,desculpando-se por não poder
me conceder mais atenção,pois ia iniciar os trabalhos
da noite.Pediu que ficássemos à vontade com o
José Silva. Pai Theo saiu do recinto e encaminhou-se
para sua gira,passos compassados e dignos como os de um papa
e pediu:
__Zente,dárr esquentadorr de boca parra Pai Theo,non
judiarr deu.
Imediatamente,uma negrinha de ampla saia branca e rendada,trouxe
uma garrafa de pinga para Pai Theo,que a emborcou pelo gargalo,gorgolejou
forte como quem bebia água,afastou-a da boca com um estalo
de língua e pediu,sentado num tamborete como um sultão:
__Dar vumador parra Pai Theo.
E a mesma negrinha estendeu-lhe respeitosamente,fazendo uma
mesura,um charuto.Pai Theo mordeu uma das pontas, cuspiu,tornou
a meter o charuto na boca e acendeu-o no lume que a negrinha
segurava;deu duas ou três fortes baforadas e falou alto:
__Zalve toda a povo da girra!_ao que todos repetiram:
__Salve!
De minha parte,acompanhei o José Silva.Fui conhecer o
browser Exu,de que me falara também meu patrão
de Vitória.O criador do navegador de Internet,o José
Silva,era um negro de aparência comuníssima.Se
o descrevêssemos como uma linha preta com dois rabiscos
pretos laterais,um ponto no alto e oposto a ele,na outra extremidade,
mais dois rabiscos, não estaríamos longe da realidade.O
crioulinho era órfão de pai e mãe,fora
encontrado dentro duma caixa de sapato no início da ponte
de Bom Jesus e criado até a maioridade num orfanato para
meninos abandonados.Não tinha um único parente
neste mundo.
Um dia em que não sabia o que fazer de sua vida,José
Silva foi à tenda de Pai Theo.Nesse dia,aconteceu de
a bomba que retirava água de um poço apresentar
defeito.O José tomou a iniciativa e logo pôs a
bomba para funcionar.Pai Theo,observando o zelo que punha em
tudo que fazia, interessou-se por ele e lhe deu casa e comida,em
troca de alguns favores.José Silva me conduziu para um
cômodo menor,em cuja porta estava escrito numa placa de
fundo branco e letras pretas: Projeto Exu.
Na gira,Pai Theo agora saudava todo povo trabalhador,de corpo
presente ou fora dele:
Zalve Oxalá!
Zalve a Povo da Mata!
Zalve a Povo da Costa! Zaravá todo a Povo do Marr!
Zaravá todos os Caboclos!
Zaravá todos os Prretos Velhos!
Zaravá todos os Trabalhadorrres!
E todos respondiam alegremente: Salve! E entoavam melodiosas
canções.
__Não sei se alguma vez teve a oportunidade de ver uma
brincadeira em que os participantes,sentados em torno de uma
mesa,com um copo virado no meio,esticam os braços e pousam
o dedo indicador levemente por sobre o fundo do copo.Em torno
do copo estão tiras de papel,cada uma com uma letra escrita
em cima,de A a Z.Sabe de que estou falando?
__Lembro de ter visto esta brincadeira de que fala na casa de
uma prima,Sr José__respondi,atento ao que ele dizia.
E Pai Theo atacava com o ponto de Ogum:
__Zaravá Ogum
E a corroa da lei
Zaravá Ogum de Male
0 Zalve Ogum de ilagô.
Lá vem minha Zenhorr São Jorga com zua cavalarria
trazenda toda arrumada
Na porrta da Romarria
Vamo zaravá Ogum. Ô vamo zaravá Ogum na
horra da Deus minha pai
Vamo zaravá Ogum
__Saiba então que foi a partir desta simples brincadeira
que construí meu browser,continuou o José Silva.Não
há nada de surpreendente nele,no ponto em que está.Vou
lhe dizer o que ele faz.Meu browser tem um teclado virtual embutido
nele.Esse teclado é acionado pelo mouse.Basta o médium
cair em transe e pousar levemente a mão sobre o mouse
para a entidade comunicante o ir movimentando para as letras
e clicar naquelas desejadas.Meu browser tem também um
editor de texto muito simples,no qual se escreve com o mesmo
teclado virtual. Evidentemente,tem um campo de endereço,para
navegação na internet. Pretendo melhorá-lo
muito.Creio que está em meu alcance torná-lo uma
excelente ferramenta através da qual os mortos escreverão
para os vivos,e vice-versa, com extrema facilidade.
E enquanto José Silva ia nos narrando a história
do navegador Exu,escutávamos Pai Theo agora dar o sinal
para que todos os que"tinha cabeza veita parra íncorporrar
as entidades", na sua voz de barítono,forte e retumbante,que
nem mesmo de microfone precisava para ser ouvida pelo último
ocupante da última cadeira.A cada saudação
sua,a roda toda repetia e entrava em transe.
E José Silva e eu estávamos a sair do seu atelier,quando
um negro forte me agarrou e me levou para o centro da gira.Fiquei
paralisado de medo,vendo todos aqueles rostos em transe,olhos
fechados ou abertos mas virados,quando Pai Theo aproximou-se
de mim e me tranqüilizou:
__Fio,vica calmo.Vâmo incorporrar doktorr Zerbína
e operrar fimoza zua.
Quis gritar que a fimose era inoperável mas caí
num torpor inexplicável. Senti mãos fortes procurarem
meu membro e uma voz dizer:
__Macucu,pega aguela vaca enferrujada que eu capei a porrca
e traize ela parra mim.
Senti na pele próxima à virilha um frio de metal
e uma leve dor.
__Fimoza zê voi,mi fio... Ioga eza pelanca aqui parra
o cachorra, Macucu.
E assim fiquei livre de minha fimose inoperável.
E corri para o helicóptero,temendo que pudessem cortar
outra coisa de mim;e fomos sobrevoar outras fazendas: a da Paciência,de
Catadupa,de Boa Vista,das Perobas,do Córrego da Areia,Florestinha,da
Conquista,Alto Jardim,Boa Esperança,do Monjolo,de Vista
Alegre,do Sossego,do Pavão,dos Milagres,da Cachoeira
Alegre,da Providência,da Arataca,do Ouvidor,do Pontão,do
Paraíso,do Bom Futuro,do Pouso Alto,do Retiro,de São
Maurício,da Vista Alegre,da Morumbeca,Estrela,do Desengano,da
Bela Aurora,do Palmital,do Bom Sucesso,da Serrinha,do Retiro,do
Triunfo,da independência,da Barra do Ouro,do Jaspe,da
Fortaleza,da Boa Sorte,do Gurgurão,da Braçagem,da
Chácara,do Paiolinho,do Barro Branco,da Florestinha,da
Minoria,do Corguinho,da Bem Posta,do Laranjal,do Braço
Forte,da Legação,do Monte Líbano,do Alto
Sobradinho,da Cachoeira Alegre,das Palmeiras,da Perseverança,da
Botica,do Córrego do Jatobá,da Divisa,do Bom Futuro...
Teresópolis,3 de setembro de 2006.
Carlos Rezende