O TREM E O MAR


Na infância, meus horizontes limitavam-se às montanhas que a vista alcançava e aos sonhos que povoava meus pensamentos. Minhas grandes viagens era embarcar nos velhos ônibus da Viação Cordeiro rumo a Bom Jesus e Apiacá.

Meu encontro com o Rio de Janeiro aconteceu depois de uma grande aventura que empreendemos – Eu, Meu pai, Ricardo meu irmão e Carlinhos primo, numa velha e fascinante Maria-Fumaça, numa viagem que durou quase quatorze horas.

Para convencer nossa mãe, foi um processo difícil, afinal naquele tempo uma viagem desta magnitude demandava preparação e muita reza. Rio de Janeiro que para muitos era o paraíso, para ela, o fim do mundo.
Vencida a etapa do consentimento, preparamos nossa bagagem, e passamos a contar os dias, tamanha era a ansiedade.

Vinte dois de agosto de 1974. Chegou o grande dia. Acordamos por volta das cinco horas, acordamos é o modo de dizer. Como acordamos, se passamos a noite de véspera em claro - aja ansiedade. Bem, descemos a ladeira e embarcamos no ônibus que nos levou até Ponte do Itabapoana. Quarenta minutos depois, quatro matutos aflitos contemplavam a linha férrea, cujas paralelas se encontravam no fim de interminável reta. De repente um alvoroço, é o Trem! Antes de vermos a máquina, presentimos sua presença devido ao barulho ensurdecedor do apito e da fumaça que surgia por trás das montanhas próximas a estação.

Meus olhos, num misto de alegria e apreensão admiravam aquele monstro de ferro puxando incontáveis vagões.
O desembarque dos que chegava e o nosso embarque demoraram uma eternidade, aliás, numa viagem de “trem”, tudo é muito lento. A partida, as intermináveis paradas nas estações perdidas entre montanhas e vales, serviam para entediar ainda mais os viajantes contumazes, no entanto, para nós que fazia primeira viagem, tudo eram novidade e motivo de alegria. Os vendedores ambulantes, o cheiro de peixe frito, os gritos da meninada, dava o tom de festa. O “trem” era vida do lugar.

Logo que partimos, iniciamos uma expedição pelos vagões, burlávamos a segurança e percorríamos todas as classes. Passamos grande parte da viagem na plataforma do ultimo vagão, admirando as paisagens passando. Olhando no horizonte, os trilhos paralelos se encontravam formando uma só linha que ia ficando para trás.

Cansados da viagem, pois já estávamos a mais de sete horas sacolejando dentro dos desconfortáveis vagões, e nada de ver o mar. A cada curva, a cada depressão, a cada montanha, a cada transposição de rio, a cada minuto, ficávamos perguntando pelo mar. De repente alguém grita: Em fim o mar! No município de Macaé, a estrada caprichosamente subia uma montanha, e da parte mais alta, avistamos o que imaginamos ser um imenso lago azul. Será o mar? Quando aproximamos, percebemos que as águas se movimentavam, formando ondas gigantes. Água, sal, brumas e areia se misturavam com a nossa emoção em avistar o mar, algo até então inatingível, visto somente por fotografias. De repente, aquele gigante e misterioso mundo d’agua, que liga continentes e integra civilizações a milhares de anos, estava diante de nossos olhos. Êxtase e deslumbramento e total.

Passado a emoção de conhecer o mar, recomeça a contagem regressiva em avistar nosso objetivo maior: Rio de Janeiro. Passavam das nove horas da noite (21:00) quando avistamos milhares de luzes. O Rio de Janeiro finalmente aos nossos pés. Descemos na última estação de minha vida, cuspindo tijolo e com o corpo todo moído e, fomos de encontro a um novo mundo, onde milhares de pessoas se acotovelando nas ruas, no entanto, não se ouvia nenhuma saudação. Era a mais completa solidão entre um mundo de gente.
Viagem de “Trem”, nunca mais, é trauma para toda uma vida, quanto ao mar, fiquei dependente. Ao Rio de Janeiro voltei varias vez, tanto a passeio quanto a trabalho - continua lindo, mas a violência esta atingindo níveis insuportáveis e sinceramente não tenho mais vontade em visitá-lo.

 

Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
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