Se o amigo levantou hoje com a macaca,sugiro que leia isto aqui,embora
eu saiba que já comecei mal ao supor que alguém
possa ter levantado da cama num estado de espírito descrito
pela engraçada expressão.No meu tempo de moleque
de rua,era assim que a gente chamava um sujeito que cuspia marimbondo
já de manhazinha logo em frente de sua calçada.Não
é que fossemos uns moleques sábios de berço.Nada
disso.Nem éramos nem somos.Apenas não tínhamos
experimentado ainda os rigores da vida e achávamos no
mínimo interessante um sujeito acordar de cabelo em pé,feito
um ouriço-cacheiro,reclamando de tudo e tentando acertar
com um pontapé o primeiro cachorro vadio que passasse
por perto.
Mas agora,que já levei uns trancos e barrancos,que já
comi o pão que o diabo amassou,na maioria das vezes sendo
eu o culpado,quando me levanto de maus bofes,sou o primeiro
a zombar de mim mesmo.Quero ter a primazia ao menos nisso.
Sinceramente,acho que não podemos levar a vida na ponta
de faca.Não estou dizendo que devamos ser uns irresponsáveis.Nada
disso!
Veja,por exemplo,a questão do amor entre homem e mulher(frisei
os gêneros,uma vez que só conheço esse tipo,embora
nada tenha contra qualquer outro).Quantos desatinos não
são cometidos por conta dessa droga mais pesada do que
cocaína!Se existe alguma coisa que deveria estar na ilegalidade,a
paixão amorosa era uma ótima escolha para encabeçar
a lista.O sujeito fica zureta quando atacado por ela,diz e faz
um monte de besteira,e,se é pessoa cultivada e dada a
escrever,rabisca coisas do arco da velha.Como o bêbado
depois da ressaca,se,passada a paixão,lhe derem a ler
o que escreveu,dirá,com certeza:”Nunca fui louco
a ponto de me expandir em termos tão absurdos!”
Pois é.
Estando no boteco Caldo de Piranha,ouvi duas confissões,em
dias não imediatamente sucessivos,que me deixaram indeciso
entre se ria ou se chorava.Na dúvida,fiquei com a minha
cara de bobo normal e ouvi dois amigos duplamente ébrios:de
amor e de álcool:
--Temos que inovar sempre em nossas declarações
de amor,percebe?Se você faz uma mixuruca,a garota vai
logo dizer:”Ah,bonitinha,mas já vi igual no filme
tal e tal.”O que fiz,então?Dei uma boa grana a
um motorista de caçamba de lixo da prefeitura e disse
a ele que lavasse o caminhão todinho e que o pusesse
brilhando.Depois fosse a uma floricultura afastada da cidade,enchesse
a caçamba de flor e despejasse tudo na calçada
em frente ao serviço de minha namorada.Um garoto contratado,então,devidamente
trajado de andorinha e com uma grande gravata borboleta nos
gorgomilos,ia ficar perto do monte de flores com um cartaz dizendo
que eu estava oferecendo aquele mimo à paixão
de minha vida,nome incluído,para ela saber que era para
ela.Outra coisa que ia me esquecendo:ia tocar uma cornetinha
até darem por ele.
--E ela gostou?—perguntei.
--Bem,ela disse que se sentiu uma idiota,quis que o chão
a tragasse para as profundas...mas que tinha valido o esforço,percebe?Claro
que não fiquei satisfeito.Ataquei de e-mail.Depois de
escrever meia página com os protestos de amor de praxe,fiz
a declaração principal,o carro-chefe,percebe?:”Que
se ela,algum dia,estivesse enjoada e com vontade de vomitar,era
só me chamar,que eu a beijaria com toda a sofreguidão
que me é peculiar e engoliria tudo que ela me desse a
honra de vomitar dentro de minha boca e pra dentro de minha
garganta.”
Desta vez não pude perguntar nada,pois eu é que
tive que fazer esforço para não vomitar na mesa
do boteco.Várias pessoas ouviram e um até aconselhou
ao dono do boteco:
--Ô Josias,vê se serve só bebida,tá,meu
filho?
E um outro maroto falou bem alto,de um ponto que não
dava para ser descoberto:
--Dá-lhe,Garganta Profunda!
Noutro dia,mesma situação,mesmo bar,só
mudando o tresvariado,que se casara há dois anos,impulsionado
por um amor arrebatador e que descobriu,sem a menor dúvida
pairando,que a mulher já o traia com outro.Muito embriagado,confessou,depois
de esmurrar a mesa com oscilante firmeza:
--Pois saiba que vou matar ela,matar o filhinho que não
sei nem de quem é e que eu achava que era meu,matar o
cachorro e,depois de torcer o pescoço do canário,arrebento
meus miolos com um tiro!Se der,ainda pego meus miolos como quem
pega um prato fundo de gelatina e esfrego tudo na parede!!
Nós,latinos,somos assim passionais!
Caí na besteira de me condoer com a sorte do canário,já
que gosto do bicho.Pra quê!O amigo cornudo me saiu com
esta:
--Como pode?!Com tanta desgraça junta e você lastima
a sorte do canário?!E a pobre da criança,onde
fica nessa história?!
--Mas é você que está matando todo mundo...Não
é melhor ir procurar outra mulher?
Felizmente,como quase todo brasileiro,tudo aquilo era mais gogó
e cachaça do que determinação séria
de executar um propósito.
O cornudo assumiu a sua cornudez e seguiu a viver com a esposa
e mais o amante dela.
Calçado,11 de junho de 2006.
Carlos Rezende
