PARA LEMBRAR II

E relevante escrever a historia da gente. A minha, a sua, enfim, a historia de cada um de nós, senão o tempo passa e apaga vidas, feito castelos de areia consumidos pelas ondas do mar. Cada vida que vai, leva junto um pedaço da gente. Como eu acredito na ressurreição, fica muito claro que a morte não é o fim. No entanto esta certeza não me impede de morrer um pouco quando, pessoas com a qual convivo se vão.

Na cronologia de minha saudade, o desaparecimento vem em forma de capítulos tristes. São aqueles momentos de dor que duram uma eternidade, deixando o coração da gente fragilizado e vazio. Neste vácuo, a tristeza se apodera da alma, caracterizando nossa grandiosa e amarga impotência.

Não dá para esquecer, na verdade é para lembrar, que conto a historia ou menciono nomes de algumas pessoas, que, com maior ou menor intensidade levaram um pedaço de mim e deixaram uma grande saudade.

-Tia Amélia, nasceu e cresceu menina - virou santa... Era daquelas pessoas que vêem ao mundo somente para servir. Tratava a todos com carinho, respeito e fraternidade. Do seu grande coração só afeto, de sua boca somente palavras de amor, traduzidas em gestos sublimes. Mesmo com o corpo fragilizado pela enfermidade que a acompanhou desde seus quinze anos, jamais, deixou que esta fatalidade, servisse como desculpa para maldizer - fazer ou desejar o mal a quem quer que seja. Religiosa convicta pertencia com orgulho a Congregação das Filhas de Maria, participando de todas as atividades religiosas. Lembro-me claramente de sua vestimenta: Freqüentava os encontros religiosos com um véu negro sobre a cabeça, saia comprida, abaixo dos joelhos e uma fita azul em forma de colar, adornado com uma bela imagem de Nossa Senhora e uma bonita faixa também azul na cintura. Indumentária que caracterizava esta congregação. Morreu jovem, aos 33 anos.

- Mãe Velha e Pai Velho. Era assim que chamávamos meus avos por parte de mãe. Foram exemplos de dignidade. Apesar das diferenças, eram iguais na bondade e na perseverança e se entendiam numa harmonia musical. Criou oito filhos, ela nos afazeres domésticos da roca, que não eram poucos e, ele como carreiro de boi. Ela muito enérgica e sem “topar brinquedo”- ele bonachão, contador de “causos”, conciliador e político em tempo integral. Discípulo do Dr.Aristides. Dizia: Se o Dr. Aristides, apoiar um poste - voto no poste. Ela morreu aos 86 anos, ele aos 96, porem são lembranças vivas dentro de mim.

- Jose Fortunato Ribeiro, Tio Zé, um capitulo a parte. Fomos grandes amigos, apesar de nossas diferenças - Era vários anos mais novos que ele. Ele torcia pelo Motorista e Vasco, eu para o Americano e Flamengo. Na política sempre estivemos em lados oposto. No entanto, no dia dia, estas diferenças eram irrelevantes. Vivíamos a mais harmoniosa relação de amizade e respeito, conversava-mos sobre tudo, sem, no entanto, aprofundar ou questionar sobre nossas diferenças. Ele com mais idade e experiência e, na condição de Tio, nunca tentou mudar meu ponto de vista e nem impor sua opinião sobre a minha. Foi uma longa e prazerosa convivência. Em várias ferias escolar ia para sua casa no Bandeira, onde gastava vários dias.. Quando se mudou para rua, vivia em sua casa. Era seu motorista em suas andanças pelo interior, pois ele ao volante era uma negação. Quando Tio Zé assumia a direção, vivíamos perigosamente, e ele na maior tranqüilidade, aliás, nada o fazia esquentar a cabeça. Arrancava com a Pic Up , colocava a segunda e saíamos derrubando porteiras, caindo nos bueiros, etc. Certa vez capotamos na estrada da Alegoria, próximo da casa de um antigo curandeiro,o Sr. Álvaro Verdiano, foram vários tombos. Felizmente saímos ilesos e estou aqui para contar esta historia. Ele se foi, sereno e tranqüilo, com o semblante do dever cumprido.

- Oswaldo Ribeiro, grande responsável pela minha formação profissional. Um professor em tempo integral. Era destes mestres, que utilizava métodos pouco ortodoxos, mas que funcionavam muito bem, ainda mais para mim que, naquele momento enxergava que o meu futuro tinha que começar por ali. Minha admiração por ele não havia medida, ultrapassava todos os parâmetros e se encaixava na visão clara de seus preciosos ensinamentos. A convivência não era fácil, era trabalho, trabalho e trabalho, no entanto no fim sempre éramos muito bem recompensados. Na Empresa não tinha moleza, por sermos parente, éramos sempre o primeiro a chegar e o ultimo a sair , e as cobranças por produtividade eram constante, ultrapassava sempre o portão da fabrica. Ele se foi muito cedo, mas o exemplo que deixou carrego comigo. Sou muito grato a ele.


Deixaram também marcas profundas. Vó Eliza, com seu jeito aventureiro., Tio Meu Filho, sinônimo de bondade, Geraldo do Vitorino um grande amigo. Quando este ia visitar os pais, passávamos horas conversando e cantando músicas do Nelson Gonçalves. Zé Maria e Paulo da Tia Julieta, Marquinhos da Tia Maria e Tio Geraldo, Meu Sogro Jurandir, grande figura. Carregava dentro do peito um coração sem tamanho. Tia Izinha, minha aliada de última hora, uma segunda mãe para minha esposa Jânia. (Ou será primeira). Sr. Luiz Diretor da Salibras, Nelsinho e Waldir representante do Sal Globo em Belo Horizonte e São Paulo respectivamente, Joaquim, anjo dos cabelos de ouro e um coração idem, filho da Dona Ivonilde e Fesso Epaminondas, Pedro Ederaldo amigo do futebol. César Goiaba, Alceu Cravinho, que a estupidez e a intolerância levaram tão cedo. E tantos outros que partiram e deixaram uma grande saudade.

 

Domingos Fernando Ribeiro de Rezende
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