PARTO DA ALMA


Ligaram-me avisando que ele havia acabado de nascer. Saí desconjuntado, com a ansiedade agradável das boas notícias, peguei o carro e parti para o hospital. Era lindo o meu afilhado. Tomei-o nos braços, leve como um ramalhete e cheiroso como alguém já familiar; com os mesmos receios dos pais desengonçados, acolhi o meu mais novo paroquiano não simplesmente como uma alma a mais para o meu rebanho, mas sobretudo como um sentido a mais para estar vivo. Sim, o nascimento de uma criança será sempre imbatível na arte de arrancar sorriso entre lágrimas.

É incrível como ficamos bobos diante de um recém-nascido. O que não passa da careta diante da luminosidade interpretamos como o esboço de um sorriso; é inevitável afirmar como ele se parece com o pai ou com a mãe, mesmo considerando que nada é tão igual quando um bando de bebês; nem sequer entendemos que seu idioma é o choro e já queremos descobrir dor de barriga ou de ouvido.

Ao assistir ao cult “Janela da Alma”, emocionei-me à beça na última cena, já no minuto final: um parto normal. Talvez seja a única coisa que tenha conseguido ativar ao mesmo tempo meu estômago, minhas glândulas sudoríparas, meu cerebelo e meu batimento cardíaco, não como um desarranjo, mas como uma sinfonia que a natureza orquestra em meu corpo para celebrar a vida. Interessante que, quando eu aluguei este filme para assistir novamente, estranhei o fato de esta cena ser completamente muda: no cinema me parecia ter havido uma música de fundo; era, na verdade, a reação do meu organismo, da minha sensibilidade ao choque daquela profundeza imagética.

Tirei muitas fotos, de todos os ângulos do quarto. Eu quis guardar cuidadosamente para, mais tarde, mostrar ao meu afilhado, com detalhes, como eram nossas caras diante da sua estarrecedora chegada ao mundo. Será bom vê-lo perceber, pelo minúsculo ensaio fotográfico do meu amadorismo, que seu nascimento tornou o nosso dia mais leve e cheio de esperança. Não mudou a ordem do mundo como o nascimento de Alexandre Magno ou de Jesus Cristo, mas encheu a nossa vida de sentido e de razão de ser.

Padre significa pai no português arcaico. Em inglês, por exemplo, chamam-se os sacerdotes de “father”, literalmente pai, sem qualquer trocadilho. Nestes meus cinco meses de sacerdócio, essa – e não uma missa ou o atendimento de uma confissão – foi a experiência que mais me ajudou a sentir-me “padre”, no sentido mais denso do termo.

Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com






 

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