Recordações da UFV - Viçosa/MG
Lá
na longínqua Viçosa mineira, num sábado
típico da estação do inverno lá
daquelas bandas, já no finalzinho da tarde, olhávamos,
da janela do nosso alojamento, para aquele lago da entrada do
campus da universidade, o qual refletia o céu cinzento
que cobria toda a região. Vô segurava o seu caneco
de porcelana branca, cheio até quase a borda, de um legítimo
vinho tinto popular, daqueles que eram extraídos de dentro
de garrafões de 5 litros, cujo recipiente era envolvido
por uma trama de palha muito bem confeccionada, e da qual saía
uma alça, também de palha, para facilitar o derrame
do precioso líquido.
Nosso
alojamento na UFV era conhecido como Pós-Graduado. Antes
de se tornar alojamento de estudante, foi um prédio residencial
para alunos da pós-graduação da universidade.
Daí a origem do nome do alojamento: Pós-Graduado.
O prédio foi construído encravado na encosta de
um morro, na entrada do campus universitário. Além
da bela vista do lago, dos jardins e dos gramados do campus,
tinha-se, também, a visão de uma grande extensão
da rodovia que cortava o campus, até quase a altura do
lindo prédio branco da Reitoria. De nosso alojamento
avistávamos, também, o Belvedere do campus e parte
do alojamento feminino, que ficava próximo a um dos muitos
campos de futebol existentes na UFV.
O
prédio do alojamento era muito bem localizado e de fácil
acesso, tanto para quem chegava ao campus, vindo da cidade de
Viçosa, quanto para quem, vindo das cidades de Rio Branco,
Ubá, etc, cortava o campus no sentido contrário.
Talvez devido ao lago, localizado bem à frente, a tranqüilidade
e o sossego reinavam absolutos, exceto, claro, às sextas-feiras,
após as 17:00h, quando todos os estudantes eram atraídos
para os botecos da cidade. Bem, às vezes, também,
éramos atacados por uma comichão para bagunçar
o coreto, principalmente quando a kombi do DCE cismava de parar
bem “embaixo” do prédio, anunciando os eventos
programados. Era a senha para iniciar a guerra de sacos d’água.
Fora essas exceções, o lugar era realmente sossegado.
Nos
domingos, quase invariavelmente na parte da tarde, saíamos
para uma pelada no campo localizado na Fazendinha. Na realidade
era mais um encontro de calçadenses ( naquele tempo,
se falasse que era encontro de broinhas, estava fora da pelada
). Era nesse campo que nós fingíamos que jogávamos
futebol e a bola, coitada, rolava, resignada, entre um gol e
outro, sempre na esperança de que, em algum momento,
alguém lhe trataria com mais carinho e menos formalidade.
Havia certa incompatibilidade entre nosso raciocínio
lógico-pseudo-acadêmico e a simplicidade esférica
da bola; nós a tratávamos com toda pompa e reverência,
e muito de nós, eu inclusive, dispensávamos a
ela o tratamento de vossa excelência quando nos encontrávamos
dentro dos limites das quatro linhas. Ela, por sua vez, na sua
simplicidade, tratava a todos por você. Mas, apesar dessa
incompatibilidade toda, nós nos divertíamos. O
mesmo não posso dizer da bola!
Pois
bem, José Raimundo ou, simplesmente Vô, cursava
agronomia na UFV e morava no mesmo apartamento que o nosso,
no terceiro e último andar do Pós-Graduado. O
apartamento era grande, com dois quartos enormes, guarda-roupas
embutidos, beliches e mesas de estudo nos quartos, cozinha e
um quarto menor, de fundos. Dividíamos o apartamento
com outros estudantes, todos mineiros de Paracatu. No nosso
quarto ficávamos em número de quatro: Edson Tatagiba
( Leitinho ), que cursava Administração; José
Antônio Medina ( Maiô ), que cursava Engenharia
Agrícola, Renato Castro ( Abusado ) e eu, que cursávamos
Engenharia Florestal. Mais tarde, com a saída do Edson
Leitinho, Vô assumiu a vaga num dos beliches do nosso
quarto.
Vô
era uma figura muito engraçada. Baiano, de Ipiaú,
era um pouco mais velho que nós - não mais que
5 anos -, tinha os cabelos aloirados e encaracolados, bigode
rarefeito, apesar dele achar que era um bigodão. Parecia
muito com um personagem do Chico Anísio chamado “Popó”.
Aos sábados, lá pelas 19 horas, ele ligava o rádio
e sintonizava na rádio Mocóca FM de Viçosa,
que tinha um programa musical chamado Beatles Forever, que,
evidentemente, só tocava música dos Beatles. Enquanto
durava o programa musical, Vô cumpria um ritual para beber
seu vinho tinto de garrafão. Primeiro desarrolhava o
garrafão e deixava a rolha sobre a mesa, tomando o cuidado
de deixar o lado da cortiça, que ficava em contato com
o vinho, virado para cima. Em seguida pegava o caneco de porcelana
e deixava-o junto ao garrafão. Segurava o garrafão
pela alça e inclinava-o de maneira bem suave na direção
do caneco, até que o vinho deslizasse macio pelo gargalo,
enchendo até quase à borda do caneco, sem deixar
cair nenhum respingo para fora. Depois recolocava o garrafão
na mesa, arrolhava-o, pegava o caneco de porcelana e sorvia
uma primeira talagada. Lambia os beiços e, em seguida,
alisava o bigode. Caminhava até a janela, olhava a paisagem
e dizia alguma frase ou fato que lhe vinha à memória,
lá dos tempos que vivia em Ipiaú, sempre iniciando
uma frase dizendo “mas, sim...”.
Entre
uma esvaziada e outra do caneco de vinho, abria uma sacola contendo
rolos de tapioca que a mãe lhe mandava todo mês,
e saboreava cada tapioca como se fosse a melhor iguaria do mundo.
Invariavelmente, após encher o caneco de vinho, seguia
até a janela do quarto, olhava para a paisagem do lago,
soltava um suspiro e perguntava: “Mas, sim, vocês
não sentem saudades de Calçados, não? Sinto
uma saudade da porra de Ipiaú. Ahh Ipiaú!!!”
Às
vezes Vô participava das peladas com o pessoal de Calçado,
mas como era avesso a esforço físico, no dia seguinte
às peladas ele ficava um bagaço. Gostava de futebol
e torcia, moderadamente, pelo Esporte Clube Bahia, mas nunca
foi na Fonte Nova, não. Só de ver aqueles jogadores
correndo atrás da bola já ficava cansado. Se fosse
obrigado a praticar esporte, escolheria entre jogo de dama,
baralho ou xadrez. Tinha certa simpatia pelo invento do senhor
Alejandro Campos Ramirez ou Alejandro “Finisterre”,
um espanhol que inventou o Pebolim, jogo que para nós
do sudeste, norte e nordeste do Brasil, é mais conhecido
como Totó. Muito lhe aprazia a idéia do jogador
não precisar correr atrás da bola mas, sim, a
bola chegar até ele, que ficava instalado num mecanismo
que fazia todo o esforço. Segundo o Vô, a duração
de um jogo de futebol na Bahia, quando transmitido via rádio,
era de 210 minutos. E havia quem reclamasse do tempo curto do
intervalo!
Depois
de junho/79, quando saí de Viçosa, nunca mais
estive com o Vô. Sei que saiu da Universidade Federal
de Viçosa formado em Engenharia Agronômica, e que
andou trabalhando lá no norte do país, quando,
numa oportunidade, encontrou com o Renato Castro ( Abusado ).
Nada mais sei.
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE