QUERO SER ATOR


Quando se casa o nosso olhar está sobre o outro com toda ternura, com todo amor e dedicação. Com o decorrer do tempo, esse personagem, no caso o marido, se torna tão íntimo para nós mulheres, que a sua história passa a fazer parte também, de nossa história de vida. Quantas e quantas vezes, fico encolhida no sofá escutando o Antonio Carlos contar sobre a sua infância e por isso mesmo, me sinto apta a discorrer sobre o tema, claro com o seu consentimento.

Uma de suas paixões, era o teatro contou-me ele. Desejava um dia ser um grande ator, reconhecido internacionalmente, quem sabe. Muitas vezes tivera a oportunidade de representar as encenações bíblicas em sua pequena igreja, por isso a seu ver possuía talento suficiente para ser um dia, um grande astro dos palcos.

Uma vez foi escolhido pela professora de português para participar de uma encenação chamada, “Antes do P e B só

se escreve-se “M”, faria o personagem do vilão, “N”, o que positivamente não o agradou, pois não abraçaria nem o “P” e o “B”, papéis dados as duas meninas a seu ver, mais bonitas da sala, pois ele, o “N”, não poderia jamais ficar ao lado de tais letras. Lia tudo que podia sobre o assunto “teatro”, conhecia os mais renomados do meio artístico. Sonhava constantemente em viajar com algum grupo de atores pelas capitais mais importantes do mundo, as quais já conhecidas por ele, através das fotos vistas em seu livro de geografia. Um dia seria famoso, sim senhor! Como seria delicioso conseguir usufruir o seu trabalho realizado no teatro! Seus pais teriam uma casa confortável e um belo carro na garagem, sua pequena irmã lindos brinquedos e belos vestidos. Quem sabe, poderia namorar e casar com aquela menina de sua classe de que gostava tanto na época e com certeza, ambos poderiam morar em uma linda mansão, ao lado do grupo escolar, com brinquedos espalhados pelos jardins, piscina e claro um parque para brincarem com as outras crianças.

Pois bem naquela época, tinha ele onze anos. Um belo dia chega a Calçado um circo vindo de Campos para se apresentar por um mês mais ou menos na cidade. Conforme me relatou, estava estudando na mesa da cozinha quando de repente ouviu um som que se destacava do burburinho normal da rua, vindo lá de cima, provavelmente de um megafone. A estupenda notícia era a seguinte: _Senhoooras e senhoooores – a voz enfatizava bem os erres – finalmente chegamos a essa bela cidaaaade para apreseeeentar a este poooovo maravilhooooso e hospitaleiiiiro o nosso grandiosooooso Gran Cirrrrco internciooooonal da Famíliiiia Estevanoooovick! Estará conosco a graaaande estrêeeeela, atriiiiz e bailariiiina Mary Stevanovickv! Os nossos espetáculoooos serão apreseeeentados diariamente as viiiinte horas precisameeeente. Contamos com a presença de todos cidadãos deste locaaaal!

Antonio Carlos, fechou os cadernos e livros e apressadamente guardou-os em uma gaveta. Mais tarde retornaria aos estudos, concluiu. Pulou a grade da varanda e saiu em galope atrás do anunciante do espetáculo - Há se eu pudesse, fugiria com o pessoal do circo! Pensou. Quem sabe, havia chegado a oportunidade e o momento de ser o grande ator que tanto sonhara! Quem sabe! Quem sabe conseguiria realizar este grande sonho! Pensava, saltitando pra lá e pra cá, feliz da vida atrás dos palhaços engraçados.

Motivado, trabalhou duro durante toda semana para obter o dinheiro necessário para o ingresso. Ajudou nos afazeres da casa, fez compras para os pais desceu e subiu as ladeiras inúmeras vezes fazendo pequenos serviços para os outros. Portanto com isso pôde ganhar pequenas gorjetas o que muito o agradava. Todo o dia guardava suas economias no cofrinho de latinha que ganhara da tia e o escondia por trás da cômoda em seu quarto.

Na mesma semana em um dia ensolarado, a pedido da mãe foi passear pela rua com a irmã para que pudesse tomar o costumeiro banho de sol. A garota fora acomodada em um pequeno carrinho de madeira feito com rodinhas de rolimã e forrado com aconchegantes almofadas, com o fim de acomodá-la melhor. O irmão sentia o maior prazer nessa tarefa, pois amava a garotinha profundamente. Em um dado momento, aconteceu algo inesperado.

Estava tão distraído, que não percebeu um vira lata qualquer bem atrás a observá-los sorrateiramente, fora segundo ele, atraído pelo som que as rodinhas faziam pela rua afora. Estava literalmente com o rabo entre as pernas, rosnou primeiramente baixo, depois gradativamente o som aumentou até que por fim, saiu de sua garganta um latido estridente e enfurecido e passou então a persegui-los loucamente. O susto foi tão grande, tão grande, que o Antonio Carlos disparou morro abaixo puxando o carrinho em direção à sua casa e ao mesmo tempo, gritando por socorro para quem pudesse ouvir. De repente percebeu que o carrinho ficara mais leve. Estava puxando-o com mais facilidade. O que houve? Alguma coisa estava errada! Olhou para trás e... cadê sua irmã? Sumiu! Na verdade a menina caíra do veículo devido aos solavancos sofrido pela correria do momento! Desesperado, Antonio Carlos chegou à conclusão que o cachorro comera literalmente, sua irmã. Voltou correndo, freneticamente, à procura da suposta vítima. Diga-se de passagem que o animal já havia sido tocado pelos vizinhos para bem longe dali.

-Ai,ai, os meus pais vão me matar. Sua fértil imaginação já o mostrava morto em um caixão roxo, sendo enterrado com a garota pelos parentes no cemitério de Calçado. Mas não, ufa! A fofinha estava ali mais atrás sentadinha no chão e olhando para o nada como todos bebês o fazem, esperando calmamente ser colocada de volta ao carrinho, totalmente alienada ao fato ocorrido.

Passado o susto, entrou em casa com a irmã colocou-a no berço e foi dizer à mãe que já chegara do passeio com a menina. Contou-me que recebeu os últimos trocados após o ocorrido, os quais foram suficientes para assistir ao circo em sua grande estréia.

Finalmente chegou o grande dia! Todo o povo calçadence estava ali com o fim de prestigiar o espetáculo, era a grande novidade do momento. Antonio Carlos entrou comendo uma deliciosa pipoca comprada à porta do circo e foi se acomodar nas arquibancadas bem ao lado do palco, pois também o dinheiro não dava para adquirir o ingresso para as cadeiras ao lado do picadeiro. Não tinha a menor importância, pois queria mesmo era estar o mais perto possível de todos os “grandes astros e da “beldade”, Mary Stevanovivk. Encantou-se com o retrato da moça, quando o conseguiu comprá-lo do palhaço do circo. Mary estava tão linda como as estrelas de cinemas da época. Fora fotografada de maneira graciosa, sua cabeça estava levemente inclinada, seus cabelos eram encaracolados e loiros debruçando em seus ombros, suas mãos repousavam delicadamente sob o queixo delicado. Disse-me que apaixonou imediatamente por ela, mas em seguida distraiu-se com os números da turma do circo.

Riu a valer dos palhaços, aplaudiu o mágico, torceu pelos equilibristas que esforçavam para não caírem da corda bamba, e dos malabaristas para que não deixassem desabar os pratos de louças equilibrados em cima de pequenas varas de bambus. Vibrou com os números dos animais tais como os cavalos, macacos e cachorros. Seu coração disparou várias vezes ao perceber o perigo que os trapezistas Mary e seus irmãos enfrentavam lá em cima. Ainda bem que havia uma rede embaixo ao fazerem o salto triplo, isso o acalmava. Finalmente, foi anunciado como ato final uma peça em que Mary e os demais atuariam como verdadeiras estrelas. Aplaudiu entusiasticamente quando entraram no palco. Estava ansioso! Chegara enfim o grande “momento”, a história parecia ser de uma mulher sofrida e maltratada por um marido “beberrão”.

As falas foram mais ou menos, essas, imitava-os para mim, com um gestual exagerado: _Querida hoje vou sair com amigos, você vem... vem... vem... (repetiu baixinho olhando para um determinado local). - Oh! o ator esqueceu a fala! concluiu. Após isso, ouviu-se uma voz baixinha vindo por baixo do palco: - comigo meu amor? E o ator repetiu: - Comigo meu amor? Mary fala: - Hoje não querido, eu vou encontrar-me... encontrar-me... (novamente a tal voz vem em socorro de Mary), com minhas amigas! Com minhas amigas! -repetiu.

Nesse exato momento, Antonio Carlos abaixou a cabeça e pôde ouvir e ver um homenzinho gorducho e suado, pois o calor era intenso naquele dia, sentado em um banquinho bem abaixo do palco, ajudando os atores completarem suas falas.

Que decepção. Essa não! Tanto esforço para assistir aquilo! A peça perdeu a graça. Que grande droga, pensava, trabalhara tanto durante a semana só para ver aquele atores, os quais eram incapazes de decorar seus textos. Mais tarde soube por sua mãe, que “aquilo”, era um ponto cuja função era exatamente o de ajudar os atores a discorrerem o texto, caso o esquecessem. Porém de alguma forma algo se quebrou dentro dele. Ficou ali olhando absolutamente desinteressado para o resto da encenação. A carreira de ator não o interessava mais. Saiu do circo um pouco triste, vira Mary e os outros tropeçarem no texto várias vezes. Seu encanto por ela terminara tão rápido quanto começara. Desatou a rir de tudo, de suas fantasias, da louca história do cachorro e do seu amor por Mary Stevanovick. Se seus pais soubessem o aperto que passara só para conseguir aquele dinheiro para ir ao circo! “Cruz credo”! Teria sido melhor aplicá-lo na compra das figurinhas do último álbum de futebol. Com isso disse ele, dei por encerrado minha pretensa carreira de ator. Continuou sim, representando as peças de teatro, na igreja e na escola. Contudo hoje, ele afirma, que olhando para trás tais lembranças estão guardadas em seu coração para sempre e no meu por direito, de tanto ouvi-las durante todo o percurso de nossa vida em comum. Porém agora, também transmito a vocês com muito prazer, todas essas lembranças do meu marido, se quiserem, podem ler.

Vanda Maria Quintão de Souza

08/09/2006




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