Era uma vez... Não. Não começarei assim
porque não era uma vez – eram várias –
que ele voltava àquela cena esplêndida do nascer
do sol, sobre a fina camada de laje de seu barraco, à
rua projetada sem número. Ali era o repouso, ali, sob
as estrelas atrasadas e os novatos raios de sol da manhã,
era a sua vez, o instante de encontrar-se, de reunir-se para
a grande dispersão posterior. Não eram frases
nem palavras que saíam daquela boca cheirando a café,
mas era, sim, uma oração aquele momento.
Dali,
após saltar pares de degraus, chegava à rua e
tomava o caminho comum que todos percorriam até o ponto
de ônibus. Todo dia era assim; e cada dia era diferente,
porque sempre era uma nova experiência o cumprimentar,
o saudar com apertos de mão as pessoas da vizinhança;
cada dia era um o seu lugar na fila do ponto, cada dia era um
placar a ser comentado, cada dia uma nova ordem no trânsito,
cada dia as nuvens formavam desenhos únicos, com a incrível
novidade de em alguns dias não haver nuvens e de noutros
só havê-las. A rotina um dia era de uma cor, outro
dia de uma forma, outro de uma espessura, outro de um hábito
novo. As rotinas não eram monótonas para ele;
o fato de serem necessariamente repetitivas não retirava
das rotinas o caráter de inevitavelmente confortáveis.
Elas sustentavam-no, firmavam seus pés na ousadia do
passeio público, não obstante os perigos que ele
oferecia. Elas tornavam seu ar respirável, seu apetite
regulável e seu caminho cognoscível. O ônibus
era sempre o mesmo; só mudavam a cor da meia do motorista
e talvez o cheiro da goma que a cobradora mascava, ao parecer
uma vaca ruminando tédio. As marchas, passadas com afinco,
embalavam o mesmo público no mesmo ritmo da mesma inércia
diária; apenas mudava o ronco do velho motor, diretamente
proporcional ao sistema nervoso do chofer. As paisagens tinham
sempre as mesmas métricas e consistências; diferentes
eram o ritmo dos semáforos e a ordem de chegada na fila
dos desempregados.
Sua vida era uma demonstração filosófica
de que é possível viver mergulhado na rotina do
século sem se perder na melancolia das horas. É
possível viver o cotidiano sem se tornar um chato de
galochas. É possível, repito, tornar a fazer coisas,
rever e mais uma vez rever pessoas como se tudo fosse irremediavelmente
necessário e próspero, para aquém da grande
novidade embutida nas vísceras de cada um. O sorriso
amarelo, o choro contido, o suor enxugado, o cansaço
despistado, tudo está dentro do imenso caldeirão
das coisas que valem a pena ver de novo. O que pode parecer
chato, ou sê-lo deveras, é com que cor, com que
gosto, com que peso as coisas se repetem; e isso depende apenas
de nossa disposição, nossa predisposição,
nossa má disposição.
Terminara seu dia de serviço: diga-se de passagem, o
mesmo serviço, o de apertar os mesmos parafusos nas mesmas
peças com as mesmas ferramentas sob o mesmo gerente.
E jamais entrara em depressão por causa disso, pois fazia
tudo de novo. Fazer de novo significava para ele não
apenas fazer mais uma vez. Fazer de novo era fazer novamente,
fazer novo, renovar tudo o que se faz. Há uma dinâmica
em tudo isso: depois das revoluções modernas,
ou nós aprendemos a renovar as coisas com nossas próprias
mãos ou estaremos fadados ao eterno amargo dos retrógrados.
Depois
de um dia a mais de trabalho, quase igual a todos os outros
dias comuns, trocou o uniforme pela roupa batida de civil acostumado.
Mas, ao voltar para casa no mesmo ônibus de sempre, no
meio do trânsito parado, uma mulher entravava a rotina
com sua morte súbita. Fora atropelada ao tentar atravessar
com o sinal aberto. Na certa, aquela defunta não aprendera
a esperar. E essa é uma virtude que só a rotina
ensina.
Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
