Terreiro erótico-filosófico de meia merreca


Depois que ovo virou veneno,depois que inventaram o filé de frango,este terreiro na Fazenda Velha virou zoológico de aves__todos os seus habitantes morrem de velhice,ou quase.

0 galo branco,esbelto,elegante em sua plumagem imaculada, golpeia o chão com pernas elásticas.Todo galo é espanhol e toureiro e nunca esquece a capa,uma das asas__a espada vai-lhe nas pernas.Virilidade à máxima potência, ridícula e risível.

E tem a galinha matrona de pescoço pelado.Anda bamboleante,corre pressurosa quando o galo branco emite um pio de fingida surpresa,ao ciscar o chão.Ela sabe que ele lhe oferece uma ninharia para poder subir-lhe nas costas.Mas ela o atende,procura a dádiva no chão.Ato contínuo,o galã deixa pender aberta a asa esquerda,faz-lhe uma mesura rodeando-a,mantendo-a fascinada dentro desse círculo de acesa luxúria.E feminil à máxima potência,apóia-se ela no chão,toda entregue,rendida a esses irresistíveis encantos.E vai o galo,pisa-lhe sem cerimônia as asas tensas já distendidas na horizontal,por puro reflexo,como a formar-lhe uma plataforma.E ele bica-lhe as poucas penas do alto da cabeça e nelas se firma equilibrando o corpo;desloca seu ponto de gravidade para que ela suspenda o traseiro,e junta cauda com cauda,traseiro com traseiro,numa gangorra.Impossível não pensar em nossa espécie:”O homem quer possuir;a mulher,ser possuída”.Ainda que a mulher ocupe posições de mando na sociedade e se mostre independente,no sexo,ela sempre será,por preferência própria e natural,submissa,passiva e nós,homens,as desejamos assim.Nada há nisso de machismo.Cada qual sente prazer à sua maneira,cada qual é ridículo ou divino a seu modo.

Enquanto isso, próximo, num laguinho,um pato mal-encarado,carantonha azul-escura,patibular,de estuprador rotineiro,persegue a pata,deslizando rápido na superfície.Ele a garra,ela se debate.A água ferve.Ele a cavalga como se a quisesse espremer no fundo do laguinho,afogando-a.Ela afunda.No seu desespero por ar,levanta-se de um golpe e de um golpe salta para a terra firme do terreiro;mas o pato a agarra novamente e novamente a cavalga;anda-lhe nas costas triturando-a contra o chão sem piedade;por fim,crava-lhe seu estoque e ambos se imobilizam.A meta foi atingida.E quem pode negar que existe um pouquinho de masoquismo na mulher e outro pouquinho de sadismo no homem?Tudo é questão de grau.Uma grande pitada de sadismo e temos a conversão da mulher em mero objeto de prazer,despida de sua pessoa,de seu Eu,uma relação empobrecida para ambos.Por desgraça,é a mais comum.

Todo galo garnisé é um napoleão.Aproximo-me de um que não tem 1 palmo de altura.Todinho branco.Possui um harém de galinhas garnisés, também branquinhas,tão pequeninas e elegantes que parecem todas um arremedo de galinha.Mas não são e ficariam bravas se soubessem deste meu pensamento.O garnisé as protege como se fossem pintinhos seus.Ele as protege até de mim.Se ando em direção a elas,ele se interpõe entre mim e elas.Exibe-se em posição de ataque:ora fica de lado,desce a asa e bica no chão,sua cauda em feitio de foice balança ameaçadora;crista, barbela e carnosidades ao redor dos olhinhos cintilantes estão intumescidas de sangue;ora se põe de frente,como se fosse voar até nós e nos esporear a cara.Não quero quebrantar seus brios.Ele me diverte a bancar o valentão,o rei do pedaço__do pedacinho.Finjo que me afasto de medo.
Debaixo da figueira estão os gansos. Isolam-se das outras aves mas,lá entre eles,mantêm-se sempre unidos.Nunca se encontrará um sozinho.Pastam em bando,em bando vão longe,sempre a pastar e a grazinar uns com os outros__um tagarelar irritadiço sem fim.E a cuspir o seu excremento esverdeado,que parece sair dentro de um envelope de muco brilhante e pegajoso.Fazem tudo em grupo,como se uma única idéia unisse o bando.Já os flagrei,aos 23 indivíduos,todos com a cabeça metida na asa,em silêncio inabitual,que qualquer barulhinho de folha caindo pode perturbar.Sono levíssimo de borboleta.Tendem a formar par fixo,mas há sempre um ganso jovem a querer disputar uma fêmea compromissada.Vemos então machos que se olham de pescoço estendido,ondulantes como cobras,os bicos se abrem e deixam escapar um alto som sibilante,de ameaça.

Mas o amor dos gansos é discreto,talvez porque o casal é mais estável e o hábito aplacou os ardores.A cavalgada na água não faz o líquido ferver—só ondular levemente.

Da porta do galinheiro vejo correr para fora uma galinha no choco.Um ser atarantado e febril,de mau-humor raivoso e contínuo.Com certeza veio esticar as pernas.Mas o que faz primeiro é uma grande quantidade de fezes que acumulou durante vários dias.Depois vem catar com fome os caroços de milho que sempre ficam jogados no terreiro.Aproveito para ir ver seus ovos.Não tenho dificuldade em descobri-los dentro dum cesto forrado de capim seco.Uns dez ovos.Um já começou a ser quebrado pelo inquilino.Seu bico já se mostra por uma abertura que fez.Com a unha retiro um pedaço da casca para ver sua cara.Um olhinho semi-aberto com penugens finas e molhadas ao redor.Os esforços do pintinho para ver a luz da vida sempre me enchem de assombro e pena.Assombro pelas transformações pelas quais um ovo passa até culminar naquele último evento à minha frente,tão pasmosamente diferente de seu início gelatinoso.Pena ao pensar que tudo aquilo irá terminar no gume duma faca,mais tarde.Não ia morrer de velhice,certamente.

Durante o almoço,alguém vem me avisar que o pavão abriu o leque.Corro para ver.Quando chego,porém,já ele o tinha fechado.Deve ser um pavão modesto.Uma aberração.

À tardinha,quando o sol declinante deu o toque de recolher dos galináceos,aparece o outro galo__refiro-me aos galos grandes,não a miniaturas tipo garnisé.É um galo grande,como disse, pesadão, colorido, rabo cor de azeitona verde-oliva,o papo e as pernas carijós,franjas amareladas no dorso,a voz de registro mais grave do terreiro.Anda lentamente,joga as pernas para o lado feito caubói displicente. Ele e o branco parece que fizeram um acordo:quando todas as galinhas vêm dormir,eles fazem a farra,uma bacanal.Servem-se de todas elas sem as disputar.

Aciono o despertador para me acordar à meia-noite. Gosto de ouvir o canto dos galos.

Verdade que os garnisés são tão briguentos nesta espécie de briga por procuração,desafios de menestréis,que já emitem os primeiros cantos às dez e alguma coisa.Prefiro os da madrugada.De todas as bandas da Fazenda Velha escuto o versejar dessas aves mágicas,que cravam pedras preciosas na escuridão.Às vezes tenho a impressão de ouvir até os da cidade,de tão longe parecem vir os cantos que me ninam__e me ameninam,pois__no silêncio da noite.

Calçado,inverno de 2006



Carlos Rezende

 



 

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