UM PADRE FELIZ


Faltam alguns poucos dias para que eu seja ordenado sacerdote e nunca me senti tão próximo daquilo que uns poetas chamaram felicidade, daquilo que eu mesmo ouso apenas considerar simplesmente como o sentir-me realizado na resposta que dei. Digo isso porque existe uma crise em torno da imagem do padre nos dias de hoje. Os padres que acabam "representando" a Igreja Católica na grande mídia e servindo de molde para as inevitáveis caricaturas geralmente são, na verdade, as extremidades problemáticas de um conjunto muito mais "normal" do que parece.

Vez por outra aparece um padre para jogar o estilo de vida sacerdotal na sarjeta, como se o fracasso de um elucidasse a falência do todo. A sustentação má intencionada do já famoso Padre Pinto, de Salvador, nos principais noticiários do país com seus chiliques e pseudo-verdades é apenas uma amostra do como querem, no fundo, desacreditar o presbitério, colocar a figura do padre eternamente naquele lugar que a telenovela brasileira sempre lhe reservou: ou o reprimido no celibato, o fofoqueiro sem nada o que fazer, o ridículo, enfim, o ultrapassado; ou então o super-herói que, na hora h, sai do armário, diz denunciar as hipocrisias da religião e salvar a pátria, aquele que se tornou tão bonzinho que a Igreja já não tem lugar para ele... São vários os estereótipos.

Há poucos meses, uma revista de grande veiculação nacional divulgou mais uma estatística tirada de trás de suas grandes orelhas: cerca de 1.700 padres no Brasil estariam envolvidos em crimes sexuais, o que representa 10% do montante atuando no país. É bem verdade que existam absurdos sem quaisquer desculpas por parte de alguns sacerdotes, como aquele de São Luís do Maranhão recentemente envolvido em aliciamentos de menores; porém, é preciso que se saiba que a imensa maioria dos padres neste país está trabalhando incansavelmente pela evangelização, recuperação e bem-estar de milhões de pessoas, bem como pela cidadania, pela defesa dos direitos humanos e pela promoção humana.

Pessoalmente, tenho muito mais motivos para querer ser padre hoje, sustentado pelo testemunho de tantos que conheço de perto, do que receios de me ordenar, ligados a maus exemplos. Mas ainda que a proporção de delinqüentes no sacerdócio fosse tão alta como o de corruptos na política, penso que não haveria razão em desistir pois, em juízo, uma pessoa – e também uma carreira – não pode ser equiparada senão com ela mesma.

Receberei a imposição das mãos do bispo, terei minhas mãos ungidas, a Igreja fará sobre mim a prece que me consagrará para o ministério sacerdotal. A dignidade do padre estará toda ali, visível e perceptível, toda fundada no único Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, por quem me encantei perdidamente e por quem quero viver toda a minha vida. Sei da minha fraqueza e impotência; mas ainda assim, ao contrário do que o Padre Pinto manifesta, sinto-me saudável, inteiro e realizado na ousadia de viver assim.

Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com






 

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