“Cada um de nós compõe a sua história,
cada ser em si carrega o dom
de ser capaz, de ser feliz...”
Almir Sater
Apertava
os seios com a delicadeza dos dedos, enquanto seu braço
esquerdo tocava o ombro direito, sentindo a grave responsabilidade
de ser mulher em tempos de câncer de mama. A não
ser pelos ralos treze anos de idade com que saudava o mundo
dos adultos, sua mocidade tinha ao espelho um aspecto maduro
e sereno. Todo aquele vapor causado pelo banho quente, somado
à sua respiração cada vez mais ofegante
de prazer, foi aos poucos fazendo desaparecer a imagem refletida
de seu corpo adolescente. Enfim, era hora de vestir-se para
o turno dos estudantes, férias terminadas. O corpo moreno
denunciava o verão bem aproveitado e as alegrias de se
viver a puberdade no início do século vinte e
um. Rever amigas, brotos, professores e toaletes escolares,
poder reescolher o lugar na sala de acordo com os novos tempos
e as novas relações, tudo isso tinha, de repente,
o gosto da banana split, a consistência dos sorvetes que
lambrecam.
Ela não era diferente dos milhões de garotas de
treze anos que voltavam às aulas naquele dia pelo mundo.
Apenas sentia o desenrolar do tempo com uma sensação
única. Todo adolescente alcança o máximo
da adolescência típica exatamente no momento em
que pensa ser o único adolescente da face da terra. As
crises, as depressões seguidas de súbitos júbilos,
as vontades de tocar e ser tocado, a necessidade de sentir perfumes
novos, de assistir a filmes diferentes ou de ter os quinze minutos
de fama constroem uma atmosfera paralela à dos telejornais.
O mundo parece não dar a mínima para todas aquelas
descobertas que ela e seus coetâneos fazem. Os pais continuam
na mesma correria de sempre, parecem não se darem conta
da revolução que está para estourar debaixo
de seus narizes. Todos se preocupam com números, fatos
e discussões abstratas, deixando de lado a poesia de
que as coisas se impregnam naqueles tempos tão urgentes.
O adolescente geralmente tem a sensação de que
sua vida é uma amostra da mudança de época
histórica. Talvez a puberdade de imperadores e budas
tenham realmente mudado os rumos de economias inteiras. Ela
reivindicava, ao menos, a chance de influenciar na compra do
mês: era preciso comprar alguns absorventes a mais.
Na hora do primeiro recreio do ano, enquanto descia as escadas
que davam para a cantina, ela avistou ao bebedouro aquele garoto
que conhecera um tempo atrás. Na ocasião não
quisera papo, mas agora tudo era diferente. Era o mesmo rapazinho,
mas agora ela sentia nas vísceras uma energia que ia
direto à cabeça para planejar, de imediato, um
motivo de reaproximação. Com a esperteza de uma
cobra, decidiu que o bote seria o famoso deixar cair algo no
chão. Ainda raciocinava quando empurrou sua bolsinha
de caneta escada a baixo. Parou, esperando a correspondente
discrição do cavalheiro. Qual não foi sua
raiva quando o menino deu um chute para o colega ao lado; e
começaram a fazer gol com o objeto da sedução:
faz-se necessário começar a observar em alguém
do ensino médio. A pior coisa para um adolescente é
conviver com alguém que lembra a recém-abandonada
infância e seus vícios de comportamento.
Seu horizonte queria ser algo a mais que a puberdade, apesar
de cerca de setenta por cento do tempo ser dedicado às
coisas intrigantes do danado do sexo. O adolescente é
um obcecado por medidas, crescimentos, surpresas ao contemplar
a foto de si mesmo. Mas ela queria mais; queria a audácia
de 1968, digamos, com um pouco menos de política e um
pouco mais de rock-and-roll. Queria ter em suas mãos
um beatle pós-moderno, um objeto de adoração
que tivesse muitos cd’s gravados. Queria poder chorar
por uma causa, mas sem parecer ridícula... Sim, ela é
plenamente normal.
Passou a sétima série todinha tentando se encontrar
dentro de seu corpo, tentando achar seu lugar no mundo, tentando
achar um sentido para toda aquela experiência. Já
não mais verificava se havia caroço no seio; descobriu
que aquilo era incomum entre as colegas, que câncer de
mama só seria um risco umas décadas mais tarde
e que o teste era mesmo uma desculpa para se tocar sem pensar
que estava se masturbando.
As coisas continuam confusas, a visão do mundo e suas
personagens ainda é turva, complicada. As dúvidas
aparecem tanto quanto nas criancinhas; a diferença é
que agora elas não são perguntadas, mas respondidas.
Ela ainda não entende muito bem o que está acontecendo.
Reclama quando a professora particular a considera criança,
mas treme quando o menino de rua a chama de moça. Não
sabe muito bem se sua postura política é de esquerda
ou de direita, talvez porque ainda esteja de certa forma criando
coragem para entrar na loja e pedir para ver um sutiã.
O próximo verão se aproxima com jeito de novas
tendências, os anos seguintes esperam o aumento de três
graus na temperatura média, a década segue seu
curso normal, indiferente à pressa ou à demora
de cada crise existencial em particular e ela aí, no
meio de tudo isso, vivendo a terrível e maravilhosa aventura
de crescer. Com certeza, as coisas vão se ajeitando,
tudo tende a se diluir na normalidade das generalizações.
E ela segue em frente, uma metamorfose ambulante, assumindo
tantos rostos e manias quantos forem possíveis na construção
autêntica de sua pessoa. E, como quase todo mundo, ela
já não se lembra de que um dia foi adolescente.
Juliano
Ribeiro Almeida
julianorial@gmail.com
