Um Prefácio Desgarrado



Em homenagem póstuma à eminente Professora Mercês Garcia Vieira. 1996.

Calçado e o seu Ginásio
—Um marco histórico

"Nossa vida vale pelos esforços
que nos custou." (Mauriac)

O ano é 1938. Aqui começa a história ora contada por quem, ao lado de seu marido, mais intensamente a viveu. Época difícil. Povo empobrecido pela monocultura do café, em baixa cotação nos mercados nacional e internacional.

Município isolado, à falta de vias de comunicação permanente. Apenas um ramal de estrada de ferro, por ultimo mal conservada, chegava à então Vila de Bom Jesus do Norte (nossa "sala de visitas", repetia Pedro Vieira) que nos pertencia, na fronteira com o Estado do Rio de Janeiro. Tudo, nesse setor, era precário. A mala postal, por exemplo, anteriormente à primeira linha de ônibus Calçado - Bom Jesus, trafegando em péssima estrada de barro, com interrupção no período chuvoso, era-nos trazida por estafeta, durante muitos anos o Fortunato, em lombo de animal. E o popular "Nato" era tão pontual que nos servia de relógio, ao passar pela Fazenda Velha, ida e volta, chovesse ou fizesse sol... Desculpem-me estas reminiscências.

Nesse contexto, já nos anos 40, o próprio Telégrafo,deficitário, foi ao ponto de ser desativado; e o seu restabelecimento, a muito custo, deveu-se à resistência e tenacidade do futuro Deputado Estadual Pedro Vieira, que organizou comissões de apoio e, sobretudo, bradando às esferas federais e diretamente ao Diretor do Departamento dos Correios e Telégrafos, órgão subordinado ao Ministério de Viação e Obras Públicas, Cel. Landry Salles, no Rio de Janeiro. Ainda assim, para consegui-lo (tratava-se de uma medida econômica de ordem geral), teve ele de assumir o compromisso de fazer uma campanha junto à população calçadense, no sentido de utilizar, com mais freqüência, o serviço telegráfico. E só com a campanha vitoriosa, pois, é que o serviço voltou a funcionar.

Antes, o amor à terra, despertado pelo grande líder, numa visão construtiva, levara um grupo de pessoas de boa-vontade-- calçadenses aqui nascidos ou não, a que se poderia chamar de calçadistas, com perdão do neologismo-- a reunir-se com o objetivo de evitar a extinção do nosso município ou a transferência de sua sede, o que era bastante propalado, para o distrito mais progressista, tal o estado de decadência a que atingira.

Pedro Vieira Filho, o sempre teimoso "Zinho" (entre seus familiares), já havia desposado uma das filhas de Seu Quiquito, a jovem professora Mercês Garcia Vieira, da qual, cursando o Grupo Escolar "Manoel Franco", fora eu aluno de educação física. Aliás, de física (ginástica, se dizia) em dosagem certa, de molde a que, naquela faixa etária, a educação ministrada fosse, por igual, de cunho formativo. Prenúncio de uma carreira que se tornaria exemplar.

Estava, assim, constituído o casal Pedro-Mercês. Um homem idealista e realizador; uma mulher virtuosa, devotada a Deus e ao mister de ensinar. A eles juntaram-se: o juiz de Direito da comarca, Prof. Alonso Fernandes de Oliveira; o médico Aristides Teixeira de Rezende; cirurgião-dentista Alcyro de Souza Poubel; o advogado Aurélio Francisco Gomes; o farmacêutico Álvaro Fernandes Medina; o comerciante José de Oliveira Marques; e o contador Moacyr Teixeira Garcia, esse "dínamo silencioso" que impulsionava todas as causas em prol de São José do Calçado. Entre outros valores que se incorporaram ao grupo inicial, seria de justiça incluir meu pai, o modelar cidadão e político José Teixeira Vieira de Rezende-- todos imbuídos do mesmo propósito de fundar um colégio de nível secundário em nossa cidade, tão bem dotada de clima e belezas naturais. Consideravam ser este o melhor meio de fixar as famílias no lugar, cessando o fluxo migratório, que já tomava vulto assustador, e, de igual modo, atrair para Calçado outras famílias da região que quisessem educar seus filhos, com reflexos benéficos na sociedade e na economia do Município.

Nesta seqüência, um gesto de compreensão merece ser assinalado, o da Professora Lélia Carvalho Thiébaut, que mantinha uma escola primária denominada "São Sebastião", cujas atividades, após entendimentos e sendo convidada a lecionar mediante paga, ela encerrou com o empréstimo de móveis e material didático. Bem recompensada foi, sob vários aspectos; mas, por outro lado,deu a colaboração eficiente do seu trabalho até aposentar-se pelo Estado, com a oficialização do Colégio.

1939, 19 de março. A inauguração do novel Educandário, que recebeu o nome de GINÁSIO DE CAlÇADO e logo passou a figurar no frontispício da sede provisória, na Praça Theophilo Lobo-- nome que até hoje se mantém na fachada de sua bela sede própria, construção do mestre-de-obras Manoel Pedreiro. Seu primeiro Diretor, a título de colaboração, Dr. Aristides Teixeira de Rezende, homem múltiplo e incansável que também perdemos para a eternidade; Mirthes Teixeira Garcia, a Secretária, que mais tarde veio a se casar com o Dr. Antônio Medina, de tradicional família calçadense.

Para mim, de uma geração mais antiga, que não teve o privilégio de nele estudar, continua a ser o "Colégio de Calçado", sempre querido.

Em contrapartida, coube-me, como professor, participar do que chamei, no meu incipiente memorialismo, a "idade de ouro" de Calçado. Com efeito, através do jornal A ORDEM, edição de 19 de outubro de 1986, numa antecipação, por obra do acaso, ao que viria a repetir agora que... "tivemos, sucedendo a Eurico Rezende (autor do Hino Oficial, música do juiz Alonso Fernandes de Oliveira), na direção técnica do Colégio, a figura marcante da Professora Mercês Garcia Vieira, cuja competência e gosto pelo ensino a projetaram no cenário educacional capixaba.""Quanto, ainda, ao tradicional Educandário, seja dito para a história que, desde a sua fundação por um grupo de idealistas, criaram-se condições de desenvolvimento e cultura para a região, com o proporcionar a rapazes e moças, de menos recursos, a oportunidade de estudarem, o que antes lhes faltava ao desejo de uma vida melhor".

0 meu convívio no Colégio, durante 4 anos (nunca me esqueço nem dos mais humildes auxiliares, Cintinho e Chico), além da experiência que adquiri para a missão pedagógica de juiz do interior, em andanças pelo Espírito Santo afora, valeu-me ainda para testar na pessoa da Diretora (o Diretor Comercial e Proprietário era o seu ilustre esposo Pedro Vieira), a verdade de uma frase do pensador espanhol Ortega y Gasset, que encerra uma síntese da sabedoria: "A autoridade, como a graça, tem-se ou não se tem." Não se impõe, é espontânea e sem alarde. Assim, bastava que ela passasse, de pisar leve, pelo corredor, para que qualquer algazarra de alunos em classe, ou fora de aula, perturbando a disciplina, se interrompesse como por encanto...

Embora não o pareça, isto aqui é um prefácio, a que, para honra minha, fui escolhido. Prefácio "Miscelâneo” seja. Sem pretensão a ser original, até porque original mesmo só se conhece um, na literatura espanhola,ao
romance Névoa, de Unamuno, assinado por Victor Goti (vide Otto Maria Carpeaux, Reflexo e Realidade--ensaios). Imprimo-lhe, apenas, a marca do meu temperamento, em assunto que comporta certa variante na avaliação dos fatos, sem falsear a verdade. 0 que, ao demais, à primeira vista, possa parecer alguma dissonância com o texto da autora, a psicologia explica, no estudo do testemunho humano. 0 livro que dispensa apresentação, é de leitura obrigatória e deve ser colocado, em pé, em todas as estantes, onde houver uma casa, inda que pequenina, de calçadenses ou amigos da nossa terra.

Histórico do Ginásio de Calçado, seu título, por sem dúvida, resgata a memória do Colégio. Escrito com amor, linguagem escorreita e em bom estilo, apropriado à história que se lança à posteridade. Um relato. É, ao mesmo tempo, uma mensagem de fé, otimismo e coragem. Sua autora, hoje nome do mesmo estabelecimento de ensino tornado estadual (Escola de 1º e 2º graus "Mercês Garcia Vieira"), pela experiência que viveu e nos transmite impressa, dá razão ao que dizia Mallarmé, de que “--Tudo no mundo existe para acabar em livro."

1989. Ano do Cinqüentenário. Não compareci e nem participei de nenhum dos comemorativos. Também eu (tolerem-me, em tempo de memórias, esta minha subliteratura do eu), furtivamente, soluçava de emoção pelo completar cinqüenta anos do meu ginasial. Deixei para aqui, neste espaço reservado, o meu depoimento. Permita-se ao prefaciador, enfim, enfatize a decisiva colaboração dos que, depois da longa caminhada de lutas e sacrifícios de seus idealizadores e empreendedores de ontem, num momento crítico quando tudo parecia soçobrar e levando de avalanche o nosso Colégio, vieram a conquistar lugar de destaque e o reconhecimento de todos os calçadenses: Homero Mafra, Christiano Dias Lopes Filho e Aderbal Ferreira Diniz, cada qual a seu modo. Líderes ou condutores, entretanto, não quer significar que agiram sozinhos; certo, a comunidade muito os ajudou. Lembra-me, ao propósito, um pensamento do poeta-crítico Paul Valéry--que o próprio chefe "é um homem que precisa dos outros". E outros e outras, de fato, se sucederam na direção e no magistério. A trilogia acima é representativa dos demais, aqui não nomeados.

Ao Colégio de Calçado, pelo seu jubileu, o meu abraço. A D. Mercês Garcia Vieira, SENHORA EDUCADORA, muito obrigado por existir!

Outubro de 1990
Fazenda Velha
Pedro Borges de Rezende

 

 



 

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