O Carlito (Fefeu), há poucos dias
atrás, escreveu sobre a desventura de alguém levantar
“com a macaca” e com este estado de espírito
permanecer o resto do dia. Era um prólogo para o que
viria a escrever sobre os desatinos cometidos por quem se encontra
perdidamente apaixonado. O desatino torna-se maior, ainda, se
o apaixonado encontra-se em estado alcoólico deplorável.
Nesse ponto Fefeu emendou uma história de bêbado
que, para provar seu amor pela amada, se propunha até
a beber o vomitado dela. Bom, para quem conheceu, nos áureos
tempos, as peripécias da dupla Jiló e Saragaia,
esse fato não deveria causar maiores revoltas no estômago.
Antes,
porém, de escrever mais um episódio envolvendo
Jiló e Saragaia, não poderia me abster de repreender
o Carlito, pois foi em função do que escreveu
sobre “levantar com a macaca”, que a PIT tomou a
decisão de deixar sua macaca em casa, justamente no dia
do jogo do Brasil na Copa. Onde essa menina estava com a cabeça
para tomar decisão tão drástica? Coitada
da macaca! Chamem o IBAMA! Tive vontade de escrever um protesto
no livro de mensagens do Broinha, mas já estava quase
na hora do jogo e eu ainda no centro da cidade. Mas fica aqui
meu protesto, viu PIT?
Pois
bem, voltando ao assunto Jiló e Saragaia, certa vez,
casualmente, os dois fizeram uma visita ao mesmo boteco. Tanto
boteco em Calçado e eles coincidiram de escolher o mesmo.
Conversa vai, cachaça vem, a cerveja sendo servida a
tira-gosto, e vai chegando mais gente no boteco. Até
que numa determinada hora, Jiló desafia o Saragaia a
acompanhá-lo na cachaça. Desafio feito, desafio
aceito. Saragaia não levava desafio para casa...
Lá
pelas tantas, Saragaia e Jiló já estavam chamando
urubu de meu loro, e nada de sair um vencedor da disputa. Como
última cartada para vencer a contenda, Jiló propõe
que, antes de beber a cachaça contida no copo, cheio
até a boca, teria que ser feito um gargarejo com ela
e só então seria devidamente bebida. Quem propôs
deu o exemplo. Enquanto gargarejava, os olhos do Jiló
pareciam que saltariam da órbita e a garganta ardia como
forno de aciaria de siderúrgica. Ao término da
exibição, Jiló sente um trimilique e deixa
cair o copo vazio e, ao sentar, erra a cadeira e fica estirado
no chão. Ali mesmo no chão, mas com a cara de
quem tinha a certeza que venceria o desafio, solta um arroto
com aroma (?) de ovo cozido, daqueles coloridos vendidos no
bar do Tiaõzinho, devidamente fermentado com cerveja
e curtido na cachaça. Quem pagou o pato foi o pobre do
marimbondo, que estava concluindo a feitura de sua casa bem
no canto do teto do boteco. A lufada de arroto atingiu-o em
cheio e ali jazia ele, pobre marimbondo trabalhador.
Saragaia
vendo aquela cena, engoliu seco, mas manteve a fleuma, afinal
de contas tinha uma reputação a zelar. Enquanto
enchia o copo de cachaça, Saragaia pensava em um modo
de como vencer aquela contenda, já que o que fizesse
de diferente seria o suficiente para se tornar o vencedor, pois
o Jiló ainda se encontrava estirado no chão, com
pane alcoólica. Copo cheio na mão, Saragaia inicia
o ritual. Com a boca cheia de cachaça, inicia um bochecho,
balançando a cabeça de um lado para o outro. A
face começa a tomar uma coloração rósea
e as pernas arqueiam ligeiramente. Terminado o bochecho, a cabeça
tomba para trás e começa o gargarejo. Com os olhos
lagrimejantes e a garganta em brasas, Saragaia dá sinal
que não iria agüentar o tranco. De repente, como
quem jogava a última cartada, Saragaia cessou o gargarejo,
reteve a cachaça dentro da boca e esticou o braço
direito, segurando o copo vazio a sua frente. A platéia
já estava propensa a considerar o empate como o resultado
mais justo, pois o gargarejo do Saragaia fora alguns segundos
menos intenso que o produzido pelo Jiló. Mas ai veio
a surpresa. Mantendo a cabeça ainda virada para trás,
Saragaia fez, com a boca, um chuveirinho certeiro, retornando
com a cachaça para dentro do copo e, ato contínuo,
leva o copo à boca, saboreando cada gole até o
último. Não deu tempo de soltar o copo, e o Saragaia
cai junto ao Jiló. Os partidários do Saragaia
já sorriam com a perspectiva do rateio alto das apostas,
já que o Jiló tinha fama de derrubar todos os
seus adversários.
Quem apostou que o Saragaia seria o vencedor da disputa já
estava recolhendo o dinheiro. Ouviu-se, então um grunhido,
mas que na verdade, verificou-se instantes depois, era o som
de um regurgito (ato de expelir o que há de excesso numa
cavidade, especialmente do estômago, segundo Aurélio),
devido a uma pequena contração involuntária
dos músculos lisos do esôfago de um dos contendores
ali esticado no chão. Todos direcionaram os olhares para
os dois corpos caídos. Olhando mais atentamente, pode-se
verificar que Saragaia havia regurgitado um pouco do último
gole da cachaça bochechada, gargarejada e chuviscada.
Após a queda, os dois corpos ficaram um de frente para
o outro, e o regurgito do Saragaia foi parar perto da boca do
Jiló. Ai não teve jeito, era a última oportunidade
que o Jiló tinha para vencer o desafio, e ele, num esforço
sobrenatural, passou uma longa lambida no regurgito de cachaça
do Saragaia. Diante do espanto da platéia e decepção
dos partidários da Saragaia, Jiló fora considerado
o vencedor do desafio. Após o veredicto dos presentes,
contrações involuntárias dos músculos
da face redonda do Jiló moldaram-lhe um sorriso enigmático
da Gioconda. Desafiou e venceu um adversário duríssimo,
mas só ficou sabendo do resultado dois dias depois, ainda
com um gosto azedo na boca. Arrgghh!!!
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE