E é mesmo, tem que dormir no ponto, à espera do
passageiro que está cada vez mais escasso. Aqui no interior,
sofre. Estrada de chão, que acaba com o carro, desconto,
pagamento para depois, calote, disputa pelos poucos passageiros
que aparecem e muitas outras peripécies. Em Calçado,
felizmente, não há registro de mortes, assaltos
aos nossos bravos servidores.
Mas apesar da luta, existem as recompensas. Como sempre digo
ao Jovino, “taxista número 1” por vários
motivos: simplicidade, respeito, competência, disponibilidade,
discrição. E ainda mais, alem de anotar a viagem,
às vezes tem que emprestar o dinheiro para a entrada
do baile. E sempre com um bom humor invejável. Jovino
é cego, surdo e mudo como convém a um bom profissional
da área.
Mas eu digo: cego não Jovino, cuidado com as crateras
do asfalto! Formamos uma família: eu, minhas amigas Sophia,
Zulma, Anedir, Conceição, Shirley, Maria e mais
outras companheiras.
Estamos sempre juntas.
Sophia, octogenária, de dar inveja em muita gente, não
faz por menos, esta sempre muito bem produzida: sapato e bolsa
combinando, muito brilho, dourado ou prateado, bordado, sempre
por dentro da moda.
Chega exausta lá para as tantas e na outro dia cedo ela
liga: “e aí logo nos vamos sair que horas?”.
Já disse mesmo para o meu filho: só vou parara
de ir ao forró, quando eu ou a Sophia, morrer.
Que fazer?
E lá vamos nós para mais uma rotina gostosa, encontrar
as amigas, ouvir música, conhecer gente...
E nada mais justo, pois da luta da vida combatemos o bom combate,
agora é viver hoje como se fosse o último ou mais
um a caminho do fim. Mas nós não estamos nem aí.
Vivemos o presente como uma grande dádiva de Deus, com
certeza.
É comum eu esquecer algum apetrecho imprescindível
e aí digo: bonito Jovino, esqueci o “roacht”,
por que você não me lembrou?
- Quer voltar?
- Nem pensar. Mas não me deixa esquecer mais.
Outra hora o perfume. Agora aprendi, carrego o perfume na bolsa.
Ainda tem o lanche para a volta incumbência da Zulma.
Dia desses em plena dança, parei para dizer para ela
que não via a hora do baile acabar, para saborear o lanche.
Sempre tem alguma coisa que compensa.
Voltamos tagarelando.
Jovino atento á viagem.
Muitas vezes durante o baile agradeço a Deus por minha
vitalidade e oportunidade de servir ao próximo: é
um elogio, uma conversa alegre com uma pessoa mais humilde,
mais idosa...
No carro sempre vai, sapato, tênis usado e camisa de meus
filhos que levo, pois há quem aproveita.
Chego exausta, passo pela imagem de São Francisco de
Assis, que enfeita minha sala, agradeço e me atiro na
cama para descansar para o dia seguinte.
Não sei até quando, “mas que seja eterno
enquanto dure”.
Na vida tudo tem seu tempo certo: tempo de plantar e de colher...
Agora os filhos lutam a luta deles eu já estou colhendo.
Diga-se de passagem, merecidamente! Afora os elogios, sabe como
é, vista cansada, luz
mortiça, mas não perderam a pose, o poder da conquista
e esses galanteios nos divertem. Todas têm nossos compromissos
com a vida, com Deus, mas sair da rotina é divertido
e saudável.
“XÔ” baixo astral, depressão, não
há lugar. É preciso saber escolher outro modo
de viver, no acaso da vida. Viver só o presente, passado
já era e futuro, a Deus pertence. Que venha! Ele mesmo
ensinou “o pão nosso de cada dia” amanha
será outro dia, nem sabemos se vamos estar por aqui.
Vocês jovens, é outro departamento.
Façam como nós, os idosos, plantem para colher.
14/08/2006.
Verconda Espadarote Bullus
vespadarote@hotmail.com
P.S.
Espero vocês para o lançamento de meu livro de crônicas
“Trilhas, Atalhos, Caminhos sem fim” dia 07/09/2006,
ás vinte horas, no Montanha Clube, em São José
do Calçado.

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