A cachorrinha debaixo do caixão




   Nos idos de antigamente, numa cidadezinha pacata do interior, que bem poderia ser Calçado, um senhor madornava o resto da tarde dentro de um botequim. Vez por outra, picava um pedaço do toicinho que estava pendurado no fumeiro e tomava uma pinga. Estava nessa tranqüilidade quando o dono do botequim começou a baixar as portas, em sinal de respeito a um enterro que se aproximava.

   Pedindo licença ao dono do bar, para sair e assistir a passagem do defunto, o tal cavaleiro ficou impressionado com o que viu. Era um funeral enorme, com uma multidão de homens de todas as classes: de chapéu e terno, de roupa de lavrador, comerciantes, médicos e dentistas (somente eles podiam usar roupas brancas), professores. Enfim, o cidadão nunca tinha visto tamanho cortejo de homens importantes acompanhando um simples caixão.

   E o que mais lhe chamou a atenção foi que embaixo do caixão havia uma cachorrinha, que para onde ele virava ela ia junto. Era uma cena bizarra para ele, todos aqueles homens e a cachorrinha acompanhando o caixão. Não se agüentando mais de curiosidade, o cavaleiro se aproximou do senhor mais próximo ao caixão e deu-se o seguinte diálogo:

   _ Boa tarde, senhor. . . Quem era o falecido?
   _ A "falecida" era minha sogra.
   _ Ah é? Meus sentimentos! - Disse o cavaleiro, que continuou perguntando.
   _ E ela estava muito doente? Sofreu muito para morrer a pobrezinha?
   _ Não senhor! Ela estava muito bem de saúde, graças a Deus. Mas, infelizmente, foi mordida pela cachorrinha que está embaixo do caixão e morreu.
   _ Nossa! Mas ela devia ser muito querida, pois nunca vi um funeral acompanhado por tantos cidadãos importantes... - Comentou o cavaleiro.
   _ Não é nada disso, meu senhor! Esse acompanhamento não é para minha sogra. O que todos esses homens querem é comprar a cachorrinha para morder a sogra deles também! - Respondeu sorridente o homem.

Jonacy Moraes



 

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