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Não
sei se você leitor, concorda comigo, mas as tempestades
de verão em Calçado eram ou são aterrorizantes.
Será pela localização geográfica,
ou pela sua formação montanhosa? Uma única
certeza: Lá em casa, os finais de tarde de verão,
quando o tempo se fechava e o azul do céu se transformava
em grossas nuvens escuras, e principalmente quando as mesmas se
concentravam sobre a Pedra do Jaspe, poderíamos esperar
o pior. Tiana, nossa mãe, tinha pavor de tempestade, talvez
por trauma de infância ou o somatório da doença
que carrega desde os doze anos. Meu pai ao contrario não
demonstrava qualquer receio, alias acho que o medo não
faz parte do seu vocabulário, pois não demonstra
de maneira alguma qualquer sintoma.
Muito religiosa, minha mãe se valia da fé para sobreviver
perante as tempestades que eram constantes e grandiosas. As tormentas
com muita água, ventos, raios e trovões, eram abafados
com a reza do terço, em tom cada vez mais alto, proporcional
à fúria da chuva. Era só o tempo se fechar
e começar soprar aquela brisa característica, para
que Tiana já com os nervos a flor da pele, começasse
a juntar sua prole. Lili, Luzia, Eliza, Ricardo, Fernando, Liliana,
Edson e Gil. O curioso e que nossa casa vivia cheia de amigos,
no entanto nenhum deles que, conhecendo a reação
da Tiana durante as Tempestades, tinham coragem de compartilhar
conosco desta, digamos, aventura tropical.
Lá em casa a tempestade seguia sempre
o mesmo ritual. Mamãe reunia todos num dos quartos da casa,
desligava o relógio de energia, cobria os espelhos, colocava
para queimar as folhas bentas. Antes porem ela nos obrigava a
chamar nossos avos, que moravam próximos. Então
se juntava a nos o Pai Velho e a Mãe Velha. Era assim que
tratávamos nossos avos, o Sr. Zequinha Ribeiro e Sinhana.
O mais rebelde era papai, o Lili, que nunca participava deste
ritual.
Ao cair os primeiros pingos, já estávamos
com as folhas bentas queimado sobre um velho fogão a lenha
que servia de abrigo nas noites frias, ai já e outra estória.
Quando os raios riscavam os céus acompanhados dos estalos
e trovões, minha mãe nervosamente apertava o terço
nas mãos e rezava com fervor, sendo acompanhada por todos.
Papai ainda achava espaço para brincar com a fé
da Tiana - Dizia: Que a sua fé era maior quando havia tempestades.
Reafirmava em tom de zombaria: Quanto maior a tempestade, maior
sua fé. Quando a tempestade passava, todos nos estávamos
com os nervos a flor da pele, não pela chuva em si, mas
pelo comportamento descontrolado da matriarca da casa. Depois
da tempestade vinham as brincadeiras. Fazíamos barquinhos
de papel e colocávamos nas grandes enxurradas que passava
em frente ao Ginásio e que invariavelmente levavam os barquinhos
para o córrego da Areia.
14.05.04 Domingos Fernando(Careca) Ribeiro de Rezende
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