A TORRE DA MATRIZ



   Vez ou outra, subíamos, alguns amigos e eu, ao alto da torre velha da matriz. Era a única atividade mais ou menos aventureira para nós, a única que podia se dizer semelhante ao vigor dos escoteiros; pelo menos aquilo me proporcionava uma esplendorosa ultrapassagem dos meus limites de adolescente com o selo do sagrado. Era uma molecagem que eu fazia com o prazer das coisas escondidas e com o conforto das motivações religiosas. A torre da igreja matriz... Como era alta aquela torre!

   Pegávamos as chaves do coro clandestinamente, trilhávamos os degraus miúdos e pontilhados com as marcas de pombos, e tremíamos com o barulho do vento contra as pequenas frestas dos janelões. Sob as imensas sombras que as escadas projetavam, por entre os vãos obscuros que cada andar produzia sobre o outro, era possível ver cadáveres de morcegos, corpos enrijecidos de passarinhos mortos.

   Ao chegarmos ao topo, à casa do velho sino, o vento frio e forte chegava a nós de todos os lados. E como era nobre mirar aqueles horizontes tão mais longínquos, aquelas paisagens bem além do que podiam os transeuntes lá de baixo contemplar... Avistávamos, à frente, a grande praça; e era fácil medir os quadros de cada canteiro, como numa geometria qualquer em folha de papel. Olhando para os lados, era possível com facilidade ver a chegada e a saída da cidade, seus habitantes passando com suas sacolas e suas crianças, As montanhas, os picos, os arranha-céus que eram aquelas cadeias... E víamos pra lá dos cantos do cemitério, víamos o colégio de cima para baixo, pelo telhado, mirávamos casas de todos os bairros. Nomeávamos as terras de cada banda, com seus colonos e proprietários. O melhor de tudo era que ninguém nos via nem ouvia; ninguém olhava o alto da torre da matriz; e eu experimentava, por conta disso, o que deve ser a solidão maravilhosa de Deus, no silêncio das alturas celestiais.

   Certa vez, ousamos bater o sino, para ver no que dava; aquele sino que não se ouvia há séculos. Nada. Puxamos a corda com mais força. Desta vez, algumas crianças no parque pararam para olhar. Só na terceira vez é que conseguimos o volume necessário para levar a bronca que levamos do padre mais tarde.

   Numa outra ocasião, planejamos filmar o nascer do sol lá de cima. Acordamos às quatro e meia da manhã e montamos o esquema. Equipamento pronto às cinco horas, pusemo-nos a aguardar alguns instantes até que o sol viesse nos brindar. Demoramos a chegar a uma conclusão muito importante: o sol não nascia tão cedo assim, pelo menos naquela época do ano... E só despontou lá pelas seis e pouco. Aprendemos também que ele nasce exatamente no mesmo instante para nós lá de cima e para quem passava na rua... E era tão bonito para nós quanto aos que já saíam para o trabalho...

   O alto da torre da matriz ensinou a cada um de nós, adolescentes ávidos pelo extraordinário, que a beleza, a cura de nossos males, está é no ordinário, no dia-a-dia, na simplicidade das pequenas coisas. E o pior sintoma de nos afastarmos da infância é perceber que já não vamos mais à torre da matriz.


Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@hotmail.com

 

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