COMO BRINCÁVAMOS EM CALÇADO


                                                 

  
                                              PIPA


   Enquanto a pelada era jogada o ano inteiro,a deliciosa atividade de soltar pipa era praticada especialmente entre maio a final de setembro,pelo motivo muito simples de nenhum dono de pipa querer vê-la destruída por uma tempestade de verão,que desabava às vezes de repente,não dando tempo ao infeliz guri de enrolar todo o fio num pau de picolé ou outro objeto qualquer usado para a mesma finalidade "enrolatória".

   Talvez algum guri de hoje pergunte que raio é isso de pipa.Apresso-me a lhe responder: moderno guri,"pipa é um brinquedo que consiste num pedaço de papel ou paninho, em geral de forma oval ou aproximadamente triangular, disposto em um aro de madeira ou colado sobre uma cruz de cana ou madeira leve que se prende a um cordel".Esta definição está no Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa,Caudas Aulette.

   Certas pipas eram tão bem feitas e caras e a quantidade de fio gasto nelas era tão grande que,quando não havia mais a possibilidade de recuperá-la ou o dono simplesmente não queria se dar ao esforço de a ter de volta,e cortava o fio,a molecada logo se punha em movimento atrás dela,caísse ela onde caísse.

   Meu tio Edyl,na época morando em Niterói,quando ia a Calçado passar férias com a família,era mestre em fazer isso.Certa vez cortou a linha de uma que foi parar numas pastarias para os lados da pedra do Jaspe.Eu e mais uns dois ou três recuperadores ou caçadores de pipa corremos atrás.Escureceu quando já estávamos próximos a ela,raios rasgavam o céu,nuvens negras bojudas circulavam lentamente o Jaspe(pensamos logo numa tromba-d'água), e sinceramente ficamos às voltas com um ambiente que nos pareceu sumamente hostil.Um descampado só,ainda por cima vigiado por vacas mal-encaradas.Uma tempestade no Jaspe é uma coisa assustadora,especialmente para um guri.Só quem passou pela experiência,para saber.Víamos a pipa : uma grande mancha vermelha de cauda roxa sobre uma árvore baixa.Mas estava longe e o medo era grande.Resolvemos voltar.Quando chegamos na cidade,era noite fechada.Estávamos ensopados pela chuva e tremíamos de frio e de medo da surra que nos aguardava.Minha mãe castigou minhas pernas com uma vara chamada gurugumba,que queimava feito fogo.

   E aqui vou mandar um "telegrama" de adeus às pipas. Passar telegrama, aliás, consistia em enrolar um pedaço de papel na linha e fazê-lo chegar até à pipa,com movimentos vigorosos das mãos.Raramente ele chegava a seu destino-mas este que agora mando irá chegar.

   Minhas pipas vinham de duas fontes:umas poucas,eu fazia;as demais,ou eu as caçava,quando caiam e tinha a sorte de chegar até ela antes de outros, ou elas vinham até mim embaraçando-se nas bananeiras e goiabeiras do grande quintal da casa de meus pais na Governador Bley-isso não era tão raro assim. Para que o seu dono não viesse a tomar satisfações comigo,eu trocava o papel e a rabiola e não mexia nas varetas e nem na linha amarrada à pipa,a linha mestra(o cabresto),aquela à qual amarrávamos um carretel de linha ou uma carretilha.Certamente as inspecionava: via se o nó não estava correndo e se ele encostava nos vértices das varetas laterais com as anteriores. Isso era importante para o equilíbrio da pipa no alto,entre outros fatores.Era vexatório empinar uma pipa que "dava de lado";acabaria rodopiando no alto,fugindo totalmente ao nosso controle e despencando de bico no chão,tal como um pássaro abatido a tiros,e ainda fazendo seu dono levar uma sonora vaia.

   Raramente usávamos cerol. Para quem não sabe,o cerol consiste de vidro quebrado bem fino ao qual juntamos o grude,a cola que usávamos, e depois passávamos numa parte da linha.Essa parte que tinha o cerol, podia ser posta na altura que quiséssemos.Mais alto,era só dar linha; mais baixo,era só enrolar o carretel.Com aquela parte mortal da linha,nós a aproximávamos da linha inimiga e a esfregávamos nela,cortando-a.

   Nunca soube de alguém que tivesse sofrido cortes profundos ocasionados por cerol.Quando leio nos jornais que motoqueiros foram degolados por ele me pergunto se esses moleques modernos soltam pipa fumando maconha ou cheirando cola de sapateiro,isto é,muito doidões.Nós,moleques da antiga Calçado,felizmente nunca brincávamos de maneira tão selvagem e tínhamos uma razoável quota de respeito pelos nossos semelhantes.

   Empinávamos pipa de qualquer lugar;preferíamos,contudo,a calçada do Sr.Gastão,o terreno baldio atrás do Grupo Escolar ou a frente dele,na parte mais alta do jardim.
Houve um tempo que passei a me considerar um pária social por não possuir uma carretilha.Penei para construir uma sozinho.Era preciso arranjar dois pedaços de madeira iguais.Na extremidade de cada um fazer um sulco mais ou menos profundo dentro do qual a linha seria enrolada e desenrolada;e fazer outro sulco lateral nos dois de modo que eles se encaixassem um no outro formando uma polia.Esta polia seria movimentada dentro duma moldura através de um arame preso a ela.A outra extremidade dele seria usada por nós para aplicarmos a força que movimentaria a polia para um sentido(enrolar a linha) ou para outro(dar linha).Estou simplificando ao máximo as coisas,só para dar uma idéia geral.Usar um simples pedaço de pau para soltar pipa e soltá-la com uma carretilha equivaliam a prazeres distintos em grau.

   Muita coisa podia sair errada.Por exemplo,a polia podia ficar bamba e travar, a moldura desprender-se da base com nossos movimentos,o mecanismo todo ficar muito leve e ser arrastado pela pipa,ao primeiro descuido do dono,etc.Dava gosto observar uma carretilha bem feita, sólida,que podia ser deixada na calçada sobre sua base,travada, enquanto o seu feliz proprietário se afastava.Mas só os mestres construíam carretilhas assim.
No mundo das pipas há pessoas muito imaginativas.Vejam só.Fiquei sabendo que um americano solta pipas com varas de pescar e a sua carretilha é o próprio molinete.Aproveito para refrescar a memória de alguns: solta-se pipa no mundo inteiro e foi através dela que Benjamin Franklin fez a sua célebre experiência sobre a natureza elétrica do raio.

   Passemos para outro brinquedo.

                                                REPRESAS

   As represas eram construídas quase sempre durante os aguaceiros de verão.Estou falando de uma época em que a Governador Bley não era nem calçada.As enxurradas corriam na beira do passeio de pedestre. Quando cessava a chuva,vários moleques saiam de casa como caranguejos de suas tocas e começavam a construir as represas.Às vezes as construíamos debaixo de chuva mesmo.Eu estava sempre pronto para entrar em ação,isto é,de short,sem camisa e descalço.

   As represas podiam ser obras individuais ou coletivas.Às vezes nos reuníamos e construíamos uma realmente grandiosa,coisa bonita de se ver,que daria inveja ao engenheiro Lesseps,construtor do Canal de Suez.Primeiramente,procurávamos pedras e depois fazíamos com elas uma meia-lua,maior ou menor,dependendo da abundância relativa da chuva que achávamos ia desabar.Certamente,também improvisávamos represas lá para o final da chuva,mas aquelas longamente idealizadas nos davam muito mais prazer.Por cima e entre as pedras púnhamos barro grudento e nele batíamos para que entrasse por todas as fendas formadas e as fechasse por completo.Após isso,fazíamos o arremate, passando as mãos sobre o barro,alisando e conferindo a solidez de toda a estrutura,seção por seção.

   Depois que enjoávamos da represa,nós a sangrávamos com um pedaço de pau ou simplesmente as destruíamos com pontapés.Às vezes fazíamos de pura malvadeza,para destruir as represas de outros moleques mais novos ,que davam os primeiras passos nessa arte e eram inocentes ao ponto de construir uma represa em um local mais baixo que o nosso.É verdade que também não tinham muita escolha.Ríamos a valer vendo o desespero dos guris,que não esperavam tanta água de uma só vez.

   Quando a represa estava cheia,fazíamos barquinhos de papel e os púnhamos a navegar naquelas águas barrentas;pegávamos formigas cabeçudas e as deixávamos em sérios apuros sobre um pedacinho de folha de árvore ou papel dentro d'água.E para testar seu instinto belicoso, materializado em duas possantes presas que se fechavam como tesouras,pegávamos duas daquelas bem graúdas e encostávamos uma na outra, de preferência presa contra presa.Elas se atracavam selvagemente, rolavam para um lado e outro da folha e na maioria das vezes uma decepava a cabeça da outra,cortando o fino pescoço.E o engraçado era que aquela que havia perdido a cabeça ficava ainda a andar de um lado para o outro,até que caia dentro d'água e ali ficava a boiar.À vencedora, como prêmio de consolação,concedíamos o privilégio de novamente poder seguir com sua vidinha em terra firme.


                                           PEGAR PASSARINHO


   Eis um excelente divertimento a que poucos se mantinham indiferentes: pegar passarinhos-agora proibido pela Portaria 057 do IBAMA,se não me engano,que só permite a posse e comercialização daqueles criados em cativeiro.Mais uma alegria que as crianças de hoje perdem.Neste caso o prejuízo não foi total: os passarinhos que por sorte se mantiveram livres saíram ganhando.

   Em meu tempo o passarinho mais perseguido pelos moleques era o coleiro e a armadilha mais usada para pegá-lo era o alçapão.Para quem não sabe e falando de modo bem simples,não passa ele de uma gaiolinha provida de uma tampa por cima.Para armá-lo,basta subir com a tampa e deixá-la descansar sobre a pontinha de um tosco poleiro atado a uma vareta da armação.Debaixo dele,no fundo do alçapão, põe-se um pouco de alpiste ou qualquer outra coisa que a ave goste.Quando ela pula em cima do poleiro,seu peso o faz descer e com isso ele se desprende da tampa,que cai e aprisiona a ave. A armadilha de rede era mais utilizada pelos adultos,que preferiam caçar aves mais raras na região, como o canário.Nela não se usava comida.Tirava-se partido do instinto belicoso da ave e neste caso punha-se um macho da mesma espécie na gaiola ou um casal.Era o que se denominava na linguagem de passarinheiro "usar chama".

   Meu lugar preferido de pegar coleiro era para os lados de quem,estando no centro da cidade,segue para a ponte do atual terminal rodoviário e pega a estrada à esquerda, depois de atravessada a ponte.Não me lembro mais do nome daquela estrada(acho que ia para a fazenda do pai da Drª Abigail),por isso todo esse rodeio-daí se vê a importância de um nome para as coisas e a imbecilidade dos vereadores que não possuem um único projeto na cabeça exceto o de trocar os nomes dos logradouros públicos;sem ele perdemos precioso tempo e cansamos quem por acaso nos lê. Mas aqui o problema é de memória mesmo,confesso.

   O coleiro era tão abundante que a gente não precisava nem de "chama".Bastava o sujeito por um farelinho de milho no alçapão e procurar um esconderijo de onde se pudesse ver, sem ser visto, o que estava acontecendo na armadilha e arredores,minuto por minuto de ansiosa espera.Se o moleque tinha o costume de roer as unhas,nestas ocasiões ele as roeria até o sabugo,até sair sangue.Não me espantaria se algum moleque comesse todo o dedo e depois se dirigisse à farmácia do Paulo Medina,para os curativos.Afirmo,sem medo de errar,que muitos moleques passaram por momentos mais angustiosos pegando passarinho do que aguardando,mais tarde,sua esposa dar à luz. Relembrando,tenho que admitir também que éramos masoquistas de carteirinha,pois não levávamos com a gente nem um pedaço de rapadura,nem um baralho,nem nada!Acho que esse tempo devia ser contado pela Previdência Social para efeito de aposentadoria. Tenho até nome para ele: Contagem de Tempo Geral no Aguardo de Captura de Passarinho por Alçapão.Fica aí a dica para nossos legisladores.A atividade exercida pelos moleques poderia ser corroborada pelo testemunho de seus companheiros de ofício,todos agora necessariamente adultos e,portanto,perfeitamente aptos a prestar testemunho sob juramento.E mais: a atividade não era proibida na época.Se a gente ficava escondido era por dever de ofício,a natureza da ocupação o exigia.Mas às vezes um coleirinho teimava em ficar próximo a uma estradinha de terra por onde passava gente.Se era um velhinho que apontava,desses que parecem andar medindo os passinhos com uma régua imaginária,vinha logo o desejo de nos aproximarmos dele,pegá-lo pelo ombro e o girarmos,fazendo-o retornar de onde tinha vindo,para que não nos atrapalhasse.Muitos nem perceberiam estar pisando sobre suas passadas ainda frescas no chão poeirento...

   Mas a tortura das torturas,troço que levava um guri a praguejar como um endemoninhado era quando,depois de toda aquela agonia,ele via a tampa cair e um vulto de penas a chocar-se entre os paus do alçapão.Corria cheio de esperança,já com a quase certeza de possuir o melhor coleiro gravatinha da cidade-e quando chegava perto do alçapão, via um maldito tiziu todo nervosinho,querendo sua liberdade de volta.Aquilo era o fim da picada!!Tiziu só fazia uma coisa na vida,aliás,três : cantava um horrível ti-ti-tiiziu e dava uma cambalhota no ar,como se artista de circo fosse,e se intrometia no alçapão no lugar do coleiro.A primeira idéia que nos vinha à cabeça,numa circunstancia trágica como esta, era pegar o infeliz e torcer o seu pescoço, e jogar o cadáver no chão,com toda a força e pisoteá-lo.Mas nós,passarinheiros mirins,tínhamos um código de honra: nunca matar passarinho;só tirar a sua liberdade pelo resto de sua existência penosa.Assim,pegava eu o corisco do tiziu do alçapão e arremessava-o ao espaço como quem atira uma pedra com raiva-vai dar cambalhota pro raio que o parta!,tição,bicho preto desgraçado!

   Havia outro passarinho que tinha o mesmo hábito de desmancha-prazeres do tiziu,embora com muito menos freqüência-o catatau.Porém,a este eu respeitava pelo seu comportamento sério,despido de exibicionismos,de fricotes e tremeliques circenses; admirava sua entroncada pessoinha,seu possante bico e seu canto curto e grosso de furador de tímpano-ká-ká-katatau.Agarrava-o respeitosamente do alçapão,abria a mão e deixava que ele voasse-mentalmente falando comigo mesmo: vai e vê se não volta,ou eu te torço o pescoço.Nem xingava a mãe dele...

   Havia aqueles que preferiam o coleiro gravatinha e aqueles que preferiam o paulistinha.Era uma questão de tão alta relevância que alguns até partiam pra briga.De minha parte,tinha um fraco pelo paulistinha,talvez por que fosse mais raro e o colorido do bico mais realçado.

   Permaneci fiel à captura do coleiro-coisa que não deixaria a ave em questão nem um pouco lisonjeada.Não queria saber nem de canário da terra nem belga.Minhas gaiolas em casa só tinham coleiro dentro.Exatamente ao contrário do que se passava na casa de um dos maiores passarinheiros que Calçado já teve,o Mané França: coleiro é que não entrava ali.Ele achava que era coisa de moleque e ainda por cima pobre.Ele só tinha passarinhos da elite:bicudo,azulão,cardeal,sabiá,etc.Só muito mais tarde ele feriu os ditames da mencionada elite e admitiu que coleiros entrassem em seu santuário de cantadores e ficassem próximos a Sir Azulão&Cia.

   Como ocorria com todo passarinheiro adulto de nomeada,a esposa do Mané França,minha tia Edissé,que tinha um cartório na Governador Bley, votava um ódio insuperável por toda aquela passarada que o esposo teimava em possuir;e não tanto pela cantoria das aves e sim pela sujeira que elas faziam em sua casa.Mas isto já é outra história...


 




 

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