De volta à ponte do ribeirão



  
    Parte Final

   
   Ainda procurando o tempo perdido de minha infância, em algum canto, em algum lugar de São José do Calçado, lá fui eu, estradinha afora bestando na vida calma de minha cidade pequena e abençoada, com o horizonte mais bonito desse mundo. A brisa amena batendo no rosto e os olhos perdidos na imensidão de um céu azulado que nem o manto de Nossa Senhora. Tem horas em que os pensamentos nos levam tão longe que precisamos de alguns minutos de descompressão para voltar à tona, de volta ao mundo real. Real??? Quem nos garante que não estamos sonhando, ou no meio de algum pesadelo, e que, a qualquer momento, vamos acordar num mundo verdadeiro?

   Aproveitei a hora para tentar desvendar esse mistério dos vários tipos de ódios de que são vítimas os homens, diariamente ou de tempos em tempos. Os reis católicos da Espanha devastando as culturas Inca, Maia e Asteca do Novo Mundo. Os jesuítas, que jamais fariam companhia ao padroeiro de sua Ordem, queimando e torturando gente inocente na "santa inquisição", que de santa só tinha o nome. Cardeais mandando castrar crianças, pelo simples deleite de manter suas vozes angelicais no coro de suas igrejas particulares. Idi Amim, Hitler, talibãs, judeus hortodoxos, Ku-klux-Klan e tantas outras aberrações ao longo dos séculos e que não param de aparecer.

   Como cantava os versos de Lupicínio, na música preferida da dona Conceição: "... e o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a cantar.", o pensamento também me levava às Cruzadas singrando mares nunca dantes navegados e às areias ardentes dos desertos, em busca do "Santo Graal", que ninguém sabe se já existiu. Em busca, sim, das cabeças dos "infiéis" de seu Deus, só porque eram fiéis a Alah e ao seu profeta Maomé, que, se não tinham o Novo Testamento em seu Corão, tinham o Velho em comum. Eram, na realidade, irmãos numa fé mais distante. "Ah, Jerusalém, Jerusalém!" ...

   De tão longe nos veio o ódio, virando escombros, virando seixos, se acumulando nas praias e remansos de nosso inconsciente. Lembrei-me de nossas cruzadas particulares, perdidas em nossa infância e na infância de nossos pais e avós. Quase na infância do mundo, de tão perdidas se encontram. Quem sabe não está lá o ninho da serpente, aquela que Nossa Senhora esmaga com os pés, que gera o ódio, as injustiças e todas as imperfeições humanas? "Oh Deus, onde estás que não Te vejo, em que céus Te escondes ...", já cantava o jovem bardo baiano, em sua repugnância pelos escravagistas e tantos navios negreiros.

   Lembrei-me do navegante que não acredita ter o poder de vencer as ondas e as tempestades, mas que é o mar que o deixa passar e a misericórdia divina que lhe poupa a vida, através de sua crença. Tanta fé, só a do camponês que, descalço, pisa o chão das capoeiras em busca de seu sustento, sem temer as serpentes de cada curva do caminho. Se o Senhor é seu pastor, acredita ele, nada lhe faltará, nem mesmo a certeza de poder voltar para casa, onde o que mais lhe falta é o pão de cada dia. E é essa fé dos humildes que um dia extirpará o ódio do mundo, que fará com que os penitentes orem o Pai Nosso sem culpa e sem rancor, na esperança de serem perdoados e na certeza de que já perdoaram a todos os que lhes têm ofendido.

   "Bestanças" à parte, ainda está vivo em minha memória o dia em que fui embora de Calçado, para a grande aventura de minha vida. Acredito que naquele livro em que contei minha epopéia infantil, não tenha sido preciso em narrar os fatos. Eu o escrevi absolutamente de memória, apenas com o que guardava o meu inconsciente, como se esvaziasse uma gaveta. A doença do Sebastião me apressava, e eu queria que ele fosse o primeiro a ler o livro. Mesmo assim não deu. Mas antes de morrer, em nosso penúltimo encontro em vida, quando o visitei na casa de saúde, deu-me ele uma das maiores lições que já tive. Cheio de tubos pelo corpo, Sebastião me confidenciou em voz baixa: "A gente sonha com tanta coisa, luta por tanta coisa que julgamos importante e, no entanto, neste momento eu daria tudo para ir ao banheiro e fazer minhas necessidades como qualquer pessoa normal. Só isso, meu Deus, só isso ..."

   Mas eu falava é de partidas. Há um verso de Torquato Netto, grande poeta baiano e parceiro de Caetano Veloso, que fala do dia em que ele foi embora da Bahia para o Rio de Janeiro: "No dia em que vim embora/minha mãe chorava em uis/minha irmã chorava em ais/no dia em que vim embora/não teve nada demais." Sempre entendi esses versos como os maiores tradutores da emoção do partir, do desatar as amarras no porto e navegar em busca de um destino. Como também nos versos do poeta português, Fernando Pessoa, onde "navegar é preciso, viver não é preciso", o partir, para Torquato Netto, não teve nada demais, foi como se apenas cumprisse uma missão.




O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados