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Ainda me lembro quando meu irmão Agostinho
ensaiou sua primeira partida de Calçado, depois de terminar
o curso ginasial e no calor de seus 17 anos. Só que ele
partiu a pé, na direção de Bom Jesus, como
se ainda tivesse dúvidas. A primeira pista que papai teve
da direção que ele tomara, foi do Tônio Sá
Viana, cobrador do ônibus do Pedro Vieira, que o viu na
altura da Fazenda Velha. E para ele, ao responder a pergunta de
para onde estava indo, meu irmão Agostinho disse simplesmente:
"pra lá do inferno três cabos de machado! ...
É claro que sua aventura não viu a noite como companheira.
De tardinha, lá vinha ele chegando de volta a Calçado.
Meio frustrado, mas bem mais fortalecido em sua sede de liberdade.
Meu irmão estava revoltado, com tudo
e com todos. Os anos pós guerra, ali pelos idos de 48/49,
estava bom para os Estados Unidos, mas o resto do quintal das
Américas ainda amargava a economia da miséria mundial.
E meu irmão mais velho, com o canudo do curso ginasial
debaixo do braço, bonitão que nem Gregory Peck,
orador da turma de 1949, craque do time de basquete da escola
e tudo o mais a que tinha direito, sentia-se um passarinho engaiolado.
Papai desempregado, brigando na justiça pelos direitos
contra a Companhia Força e Luz Itabapoana, e doze filhos
para criar, pouco podia fazer por ele. Fora os "bicos"
que fazia, quem estava segurando a barra era a dona Conceição
em sua incansável máquina "singer" de
costurar roupas e sacos de café.
Depois, com o terno preto de listras brancas
da formatura, a camisa de tricoline e a gravata, e mais algumas
roupas novas que minha mãe costurou, lá foi ele
de novo. Dessa vez com destino ao Rio de Janeiro e de ônibus
até Santo Eduardo, onde pegou o trem da Leopoldina. Foi
o primeiro dos 12 irmãos a desatar as amarras do porto
seguro e se aventurar em terras estranhas, tão distantes.
Debaixo dos meu 10 anos eu só observava, tentando entender
sua obsessão de partir, sua coragem em enfrentar tamanha
aventura. Como no final do poema do Torquato Netto: "minha
vó já quase morta, minha mãe até à
porta/ e até o porto meu pai.", para o Agostinho,
me parece, partir também não tinha nada demais.
Só o desafio de abrir caminhos para o resto da filharada
do Zé Ramos e dona Conceição.
"Mala
de couro forrada/com pano forte brim caqui/nem chorando nem sorrindo/fugindo
pra capital, fugindo pra capital". E lá se foi o mano-velho,
rebelde "com causa", cavar trincheiras para o resto
da família e vencer na cidade grande. A onda dos rebeldes
"sem causa" ainda estava por vir, na esteira dos filmes
de James Dean e Marlon Brando, e nos requebrados de Elvis Presley,
que Agostinho nem tomou conhecimento. O sangue dos Almeida da
serra do Jaspe fervia em suas veias e faria dele um vencedor.
E cá ficamos nós, aguardando também a hora
da partida, enquanto os mais novos terminavam o curso primário
no Manoel Franco e os mais velhos, o curso ginasial e o curso
normal, no Colégio de Calçado. Foram quatro longos
anos de espera.
Eta mundo véio sem porteira! "...
Piuiiiiii, piuiiiii. piuiiii. vou para o Rio, vou para o Rio!"
Era assim que gritava o "vovô" Ludugero, um velhinho
ligeiro que nem um cabrito, passando em frente à minha
casa da Rua Nova. Ele dizia que estava de partida para o Rio de
Janeiro. Ludugero era o pai da Luzia, uma negra gordona que ajudava
minha mãe na época da colheita de café, quando
virava a noite costurando sacos para embalar a produção.
Era na sua casa, na fazenda do Teófilo Caldeirão,
que nessa época eu me empanturrava de mexericas nativas
das lavouras. Soube depois que ele acabou indo mesmo, no rastro
de tantos outros que debandaram do campo, em busca dos bolsões
de miséria que se formavam nos morros e favelas das grandes
cidades.
Mas, subindo pela estradinha de chão
depois da chácara do seu Pierre, por entre uma alameda
de flanboyants floridos, terminei de desfolhar a memória
em busca do meu tempo perdido. A poucos é dado o direito
de viver duas vidas numa só e eu agradeci ao meu Deus e
ao Deus dos navegantes, que no fundo é o mesmo, mais aquela
chance de renascer das cinzas. Depois das ruínas da antiga
fazenda do coronel Teófilo Caldeirão, subi a serra
e avistei Calçado lá em baixo, como um presépio
montado entre montanhas. Entre montanhas e flores. Sentei-me numa
pedra e recostei-me no barranco enquanto sol se punha na linha
do horizonte. Livre de meus fantasmas e mais relaxado, dormi o
sono dos justos, sem sonhos nem pesadelos. Depois acordei sob
um manto de estrelas e fui para casa.
Das imagens que tinha levado para o Rio de Janeiro,
uma nunca me saiu da cabeça, tamanha foi a impressão
que deixou. Foi no dia em que mudamos de Calçado para Bom
Jesus. Tinha levantado muito cedo e ao sair para buscar o pão
na padaria do Ciro Sardenberg, fui até à praça
e assisti o dia nascendo atrás dos pedras dos Pontões.
Foi no final da primavera de 52, depois que terminei o curso primário
no Grupo Escolar Manoel Franco, e uma barra avermelhada cobria
toda a linha do horizonte, antecedendo o sol que nascia por detrás
das montanhas. Nesse ponto, minha partida não foi como
a do poeta Torquato Netto e a do irmão Agostinho, que não
teve nada demais, pois assisti o nascer do dia mais bonito que
tenho na memória, o que só acontece por entre as
montanhas de São José do Calçado. Foi quando
me decidi: um dia eu volto! ... E voltei.
Pedro
Teixeira
pedroteixeira.online@bol.com.br


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