Debruçado na ponte do ribeirão- Memórias de um menino caipira



  
   Primeira Parte

   Bom dia, meu ribeirão ! ... Já me despedi de tudo e de todos que tinha de me despedir. Só faltava você. Levantei bem cedinho, dei uma corrida pela praça da minha cidade, uma equilibrada no cano d'água do Córrego Maria do Grilo, um mergulho no açude do quintal da casa do Alcinei e, para não perder o hábito, uma última passadinha pelo pomar do seu Sirote, de onde "tirei" duas laranjas da Bahia. Nesta época do ano é uma perda de tempo, mas não podia ir embora sem passar por lá, mesmo sabendo que as laranjas ainda não estão naquela cor alaranjada de tão maduras e com os gomos parecendo favos de mel de abelha de tão doces. Vou ter saudades delas! ...

   Ontem aproveitei o dia para dar uma caminhada até o prédio do Departamento de Café, com direito a uma parada na venda do seu Sebastião Mateus para comprar um picolé de amendoim, que ele nunca me cobra por ser compadre de meu pai. Na volta, vim pelo atalho do sítio do seu Jovelino Tatagiba em direção à estradinha do seu Pierre e fui cheirando aquele ar fresquinho que sopra debaixo da sombra das árvores, coloridas com flores vermelhas e amarelas durante toda a primavera. Depois cortei caminho pela estrada do matadouro e cheguei a rua Quinze, onde as buganvílias debruçadas nas cercas de bambu também estavam em flor, como os melões de São Caetano da subida da Biquinha.

   À noite pulei o muro do Grupo Escolar, me empoeirei correndo na areia do pátio, lavei o rosto no bebedouro (Ah, como o seu Manoel reclamava disso!) e fui me deitar no parapeito da grande varanda que circunda o fundo da escola. Ali, barriga para cima e cabeça recostada, deixei o pensamento voar. Passei e repassei na memória os rostos dos colegas e professoras que por tantos anos conviveram comigo. Engraçado, não tive mais raiva de ninguém. Acho que a tristeza da partida amolece um pouco o coração da gente. Se não, como ia me esquecer os puxões de orelha das professoras e os cascudos dos colegas mais velhos na hora da saída ?

   De todos, duas pessoas iam e vinham na minha cabeça: dona Maria Justa, sempre séria, sentada atrás da mesa do gabinete da diretoria da escola, e seu Manoel, o chefe de disciplina que mantinha a ordem no pátio, tocava a sirene avisando a hora do recreio e fazia uma porção de outros serviços. Ela com seu rosto sério, disfarçando um coração de manteiga que mal dava para atender a todos. Principalmente a gente que dependia da "caixa-escolar" para concluir o Curso Primário e não tinha dinheiro nem para comprar o uniforme. Ele, apesar da seriedade da função, não dispensando sorrisos nem poupando paciência para fazer a ponta em nossos lápis com seu canivete afiado. Nem mesmo quando tudo não passava de um jeito para a gente dar um fugidinha da sala de aula. Não se alterava nunca. Era como um daqueles guardas do palácio da Rainha da Inglaterra.

   Mas tem horas que certas lembranças vêm como fantasmas. Ali, deitado no parapeito, podia ouvir os gritos da irmã do Levi comandando a ginástica no pátio. Foi minha primeira namorada secreta. Minha e de quase metade da turma. Pelo menos até se casar com um rapaz de Vitória e ir embora para sempre. Do outro lado do muro do fundo do pátio, onde havia as ruínas de um antigo cemitério, eu parecia ouvir a algazarra de uma pelada com bola de meia. E a voz do meu primo Jader, sempre fazendo pressão para que eu fosse escalado para jogar. Se não fosse por ele eu não jogava nunca, além de ouvir a eterna piada de um colega mais engraçadinho:

   - Pode jogar do lado que quiser, desde que não seja o nosso !

   Foram bons os tempos em que passei naquele grupo escolar. Melhores, só os do Jardim da Infância. Aos seis anos de idade a gente era criança mesmo, sem deveres de casa nem trabalhos de escola. A gente fazia xixi na cama e ninguém se importava com isso. A vida era um mundo de sonhos, jogos e brincadeiras que pareciam não ter fim. Parecia ...


"Dá-me a cestinha
e o meu chapéu
que já me vou,
já me vou embora.
O sol descampa lá no céu,
sou da mamãe,
da mamãe agora." ...



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