|
Era
essa a música que a gente cantava na saída do Jardim
de Infância do grupo escolar, descendo a escadaria em direção
à praça que cobre toda a frente da escola. Naquele
tempo eu ainda não entendia bem o sentido das palavras.
O chapéu, sabia que protegia meus olhos da luz do sol e
a cestinha era onde minha mãe colocava laranjas descascadas
e bananas para a hora do recreio. O sol "descampar lá
no céu" significava a hora de ir embora. A vontade
de chegar em casa era grande e disso me lembro bem. Não
sei por que, mas logo me vinham à cabeça coisas
como carinho, café com leite e broa de fubá assando
no forno do fogão de lenha. Cem anos eu viva e aquele cheiro
de cravo e erva-doce não vai me sair do nariz. Cheiro mais
forte só o do panelão de chocolate fervendo nas
noites de frio. Bons tempos aqueles ...
Um dia me disseram que era o último dia
de aula no Jardim de Infância e que no ano seguinte voltaria
matriculado na primeira série do curso primário.
Senti um medo danado e, na saída, aquela musiquinha sendo
cantada pela última vez me deu uma tristeza que nunca tinha
sentido antes. Depois, sempre que alguma coisa estava para mudar
em minha vida, a primeira coisa que me vinha à cabeça
era ela. Que idéia mais estranha ... Hoje estou me lembrando
dela porque vou me mudar de cidade e talvez não volte nunca
mais. Meu pai ficou desempregado e, como se não bastasse,
nossa casa caiu de vez. Há muito tempo ela vinha caindo
aos poucos, mas dessa vez desabou como os castelos de cartas que
a gente arma nas noites de chuva. Não ficou nada para contar
a história.
É
isso, meu ribeirão, vim hoje aqui para me despedir de você
e dessa ponte onde durante todo esse tempo vim me debruçar
quando queria ficar à toa ou pensando na vida. Ficar "bestando",
como dizem as pessoas daqui. Dessas maluquices que a gente tem
de fazer sozinho para não ficar malvisto pelos adultos.
Por mim continuava morando por aqui até morrer. A cidade
é pequena mas gosto muito dela. Tem coisas que talvez não
encontre nunca mais em outros lugares. Sua ladeiras, suas duas
praças, seus jardins com palmeiras que quase alcançam
o céu, e até seus casarões com assoalhos
de meter medo em qualquer um. Tem também a banda de música
do seu Elpídio, que ensaia num desses casarões.
Mas, o que fazer ? Já decidiram. E quando os adultos decidem
nossa opinião não vale nada.
Para mim o mundo começa lá na
Serra dos Pontões, que a gente avista daqui, e termina
lá no Rio Itabapoana, onde uma grande ponte dá passagem
para terras que não conheço. Outras cidades só
conheço de filmes e revistas que minhas irmãs pegam
emprestadas. São grandes demais e me parecem muito agitadas.
Até as pontes são enormes. Não como esta
aqui, que a gente pode ficar debruçado sem o perigo de
ser atropelado ou incomodado por alguém. De vez em quando
passa uma carroça puxada por cavalos ou um carro de boi,
mas de longe se escuta o barulho e damos passagem para eles. O
carro de boi, então, a gente ouve sua gemedeira a uma légua
de distância. Vem chorando feito bezerro desmamado, como
se fosse ele que estivesse fazendo força e não os
pobres do bois que vão na frente levando ferroadas do carreiro.
Eu vi como são os rios por lá.
Não são como você, meu ribeirão, com
a água tão transparente que dá até
para ver os lambaris e os carás coloridos nadando no fundo.
É até uma covardia pescar. Basta iscar o anzol com
uma pelotinha de miolo de pão, ficar na espera e puxar
na primeira beliscada. Depois de fritos no fubá, a gente
come até as espinhas sem perigo de engasgar. Ficar entalado
com espinha de peixe é coisa que não se deseja ao
pior dos inimigos. Se ela não desce com angu, o jeito é
enfrentar a pinça do seu Cruz da farmácia, com aquele
cheiro de éter e álcool em suas mãos.
Na curva do Jazim, pode-se pegar bagres e traíras,
mas é nos remansos que ficam depois da cachoeirinha que
se escondem os maiores. Lá onde o arco-íris parece
beber água quando o sol se abre depois da chuva, trazendo
aos olhos da gente uma dos espetáculos mais bonitos da
natureza. Pena que por lá também pode haver jacarés,
a espera para pegar saracuras e marrecos que ficam ciscando nas
pedras e andando na beira do ribeirão. Eu nunca vi, mas
os que pescam por lá dizem ter visto, além de jacarés
e lontras, cobras de mais de um metro. Mesmo dando um bom desconto,
a coisa mete medo. Mas bonito mesmo é a algazarra que os
passarinhos fazem em suas margens, quando o sol começa
a se pôr no horizonte.
Eta vidinha boa ! ... Pena que vai acabar. Vem
aí cidade estranha, gente estranha e, sei lá, muitos
aborrecimentos. Quem sabe eu não volte nunca mais ? Estou
até pensando em escrever um livro contando as coisas que
deixei por aqui. Se é que vou ter tempo. Não tem
muita coisa para contar, mas puxando pela idéia, dá
até para espichar um pouco. Acho que assim vou ter alguma
coisa para recordar e não deixar cair no mundo do esquecimento.
Não ter lembranças de coisas passadas, mesmo aquelas
ruins, deve ser como viver pela metade. A vida não pode
ser só esse lado que todo mundo mostra. Esse é o
lado de fora. Deve existir também o lado de dentro. E ali,
sim, está a memória de tudo que se viveu. Os sonhos
e as fantasias também.
É
isso mesmo! Já é tempo de parar de copiar aquelas
velhas histórias dos livros lá de casa, só
para fazer pose de escritor. Se já aprendi a escrever,
por que não faço eu mesmo minhas histórias
? Não preciso nem inventar, basta relembrar coisas passadas
e histórias que ouvi contar. Depois, repassar tudo na memória,
aumentar um pouquinho aqui, outro ali, e colocar tudo no papel.
E vou começar pelas histórias da Luzia, sobre os
tempos da escravidão de seus pais. Foi com ela que aprendi
que ama-de-leite eram aquelas escravas que amamentavam os filhos
de seus donos, e que ama-seca eram as que já não
tinham mais leite e apenas tomavam conta deles.
Às
vezes fico pensando e chego à conclusão de que depois
de um livro, uma folha de papel em branco e a melhor companhia
que uma pessoa pode ter quando está sozinha. Se tiver um
lápis por perto, é claro. É como um terreno,
pronto para se começar uma construção. A
base dela é a idéia que a gente tem na cabeça
e os tijolos, as palavras que vamos usar. Palavra por palavra,
a parede vai subindo de mansinho. Se ficar fora de prumo, temos
de passar a borracha e começar de novo. Voltamos à
idéia que tivemos e analisamos onde foi que erramos, em
que parte perdemos o fio da história que a gente queria
contar.
O telhado é o final da história.
E assim como uma casa, as histórias têm princípio,
meio e fim. Umas são maiores e outras menores. Algumas
mais bonitas e outras mais sem graça. O que não
entendo é porque os adultos criticam tanto as pessoas que
gostam de ficar escrevendo coisas. Principalmente alguns versinhos
que não fazem mal a ninguém. Dizem logo que não
vai dar para nada na vida ou que vivem no mundo da lua. Tudo porque
essas pessoas, às vezes, ficam desatentas com as obrigações
e os deveres de casa. Não é à toa que a maioria
prefere escrever escondido e guardar a papelada, toda aquela "trabalheira",
onde ninguém descubra.
Pois é, meu ribeirão, são
os ossos do ofício. Ao invés de me preparar para
ser um engenheiro, como sonha o meu pai, fico por aí perdendo
tempo com historinhas e versinhos. Acho que é porque não
me dou bem com os números. Sabe que até hoje ainda
não aprendi a fazer conta de dividir ? Não teve
dona Santinha nem Nossa Senhora que conseguisse me fazer aprender.
Mas para uma coisa a mudança vai ser boa: não vou
ter de enfrentar os professores do ginásio daqui, depois
de passar no exame de admissão. Eles têm fama de
ser muito exigentes. Com essa minha burrice vou sofrer nas mãos
deles ou, quem sabe, vão me esfolar vivo e colocar para
curtir junto dos couros de cabrito do quintal do seu Deco. Deus
me livre e guarde ! ...
Mas nada disso me faz alegre por ter de partir.
É só uma brincadeira. Ainda mais sabendo que se
um dia eu voltar, na certa não vou mais te encontrar e
molhar os pés em suas águas cristalinas. Você
já notou como estão construindo casas na nossa rua
? Não demora muito e elas chegam até aqui, bem pertinho
de suas margens, onde só moram os sapos e os peixes que
fazem morada debaixo dos barrancos. Aí, vão encher
você de esgotos e outros cacarecos. E, na certa, vão
fazer outra ponte, dessas de cimento por onde passam caminhões
e outros carros pesados perturbando o silêncio da gente.
Está vendo porque resolvi escrever o
tal livro ? Pelo menos nele você vai continuar bonito como
sempre foi. Mesmo que os adultos insistam em continuar derrubando
as árvores de suas margens e do lugar bonito onde você
nasce lá no alto da Serra dos Pontões. Eu já
podia estar escrevendo muito melhor se não tivesse atrasado
uma série para fazer companhia ao meu irmão mais
novo. Com essa história, tive de ficar mais um ano soletrando
aquela cartilha que já sabia de cor e salteado. Por que
é que eu tinha ficar soletrando, mesmo depois de já
saber ler de "corridinho", de tanto ler os gibis que
pegava emprestado ?
 
|