Debruçado na ponte do ribeirão- Memórias de um menino caipira



  
   Segunda Parte

  Sabe, meu ribeirão, às vezes fico pensando nessa ponte que me leva à sua outra margem. Ela é feita de uma madeira que já não existe por aqui há mais de cem anos. Apesar de ser tão velhinha ainda não se estragou totalmente e suas ferragens não dão o menor sinal de ferrugem. Pode ser até que ela dure ainda outros cem anos. Mas sua madeira é um espinho bem dolorido na consciência dos antigos moradores da cidade. Afinal, é um monumento vivo das árvores que existiam na região. Onde será que estão os paus-ferro, as perobas, as braúnas e os jequitibás que sobressaíam orgulhosos no meio das matas ? Pelo menos é o que dizem os mais velhos. Delas só restaram as cidades que têm os seus nomes.

   Qualquer criança do Jardim de Infância sabe o quanto as árvores são importantes para o meio ambiente. E os adultos, quando vão aprender também ? Afinal elas têm uma função importante na preservação da natureza. Não adiante eles ficarem ditando regras nas aulas de botânica e, por trás, fazendo tudo errado. Até existem alguns que só desmatam o necessário para a sobrevivência, como a construção de casas, de currais e de cercas. Mas, e aqueles que cortam até as árvores do alto das serras ? Com isso, destroem tudo e as águas das nascentes acabam morrendo antes de chegar aos ribeirões do nosso vale. Você até que tem sorte.

Mas, mudando de assunto, essa ponte antigamente servia de aviso de até onde eu podia ir, quando me dava coceira na sola dos pés e saía de casa sem destino certo. Andando, é claro ! ... Em pensamento sempre fui muito além do que se pode contar nos dedos das mãos. Na imaginação sempre andei além daquelas montanhas azuladas da linha do horizonte e só voltava para dar passagem a algum carro de boi ou quando acordava com o barulho dos guizos de alguma tropa de burros. Ela também divide a minha cidade em duas partes. Do lado de cá estão a igreja, as casas, o grupo escolar, o cinema, o comércio e tudo mais que existe em uma pequena cidade do interior.

   Do outro lado, além da chácara do seu Sirote, estão as terras de se perder de vista, com os sítios e as fazendas da maioria das pessoas que moram na cidade. Nessa época do ano a gente não encontra muitas frutas por lá, mas nos meses mais quentes é uma fartura só. Nos meses frios, ou aqueles que não têm a letra R, como maio, junho, julho e agosto a natureza dorme um sono profundo. São os meses bons para se cortar madeira na mata e podar as árvores dos jardins. E quando vem a estação das chuvas, a partir de setembro, aí sim, a primavera explode em flores e frutos, trazendo a abundância para todos. E assim acontece todos os anos, desde que o mundo é mundo.

   Os goiabais se formam de um jeito muito estranho. Geralmente surgem de um único pé de goiaba. A gente come tantas de uma só vez que logo dá vontade de fazer cocô. Como nem sempre dá tempo de chegar em casa, fazemos ali mesmo. E no lugar brota logo uma sementinha que cresce e vira uma goiabeira. Depois, um montinho aqui e um montinho ali, em poucos anos o goiabal está formado. Na aula de ciências minha professora ensinou que as plantas nascem pelo processo de "polinização", com as abelhas colhendo os pólens de suas flores. Acho que no caso das goiabeiras esse processo deveria ser chamado de "coconização", se espalhando através do cocô. Pronto, cá estou eu falando desse assunto. Desse jeito vou acabar mesmo sendo conhecido como o "escritor do cocô".

   Voltando ao outro lado da ponte, era sempre uma grande aventura arriscar ir sozinho por aqueles bandas. Há uns dois anos atrás, o máximo que eu conseguia chegar era até o sítio do seu Pierre, depois da primeira curva da estradinha de chão. Ia lá buscar folhas de pita para fazer umas experiências. Ouvi dizer que com elas se fabricavam cordas e estava pensando em fazer uma bem grande para amarrar um balanço no galho mais alto da mangueira do quintal lá de casa. Esse projeto, como vários outros, não foi adiante. Só consegui mutilar as piteiras que ficavam tão bonitas na beira da estrada. E isso é como um brejo sem taboal, uma cerca de bambu sem melão de São Caetano ou uma grota sem samambaia e inhame.

   Vou ter muitas saudades daquelas estradinhas do outro lado, mesmo com o medo que elas me davam, principalmente quando entardecia e eu ficava apavorado para chegar em casa antes do escuro da noite. Me lembro que só tomei coragem em atravessar a ponte, para seguir o Dr. Carlos, um homem estranho que passava os dias catando cacos de vidros pelas ruas da cidade. Tinha a maior curiosidade de descobrir onde é que ele os escondia no fim da tarde. Levei um susto quando fui descobrindo os vários montes espalhados na beira da estrada, fora do alcance de pessoas e animais. Pobre homem, dizem que já foi um grande dentista, até ficar doente e passar a vida impedindo as pessoas de se ferir com os cortes de caco de vidro.

Pedro Teixeira
pedroteixeira.online@bol.com.br


 

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