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Trecho
de um livro inédito, complementando o que escrevi em 1984,
"Debruçado na ponte do ribeirão", e dedicado
ao amigo
Djalminha Lahud, exilado na Flórida.
Parte
01
Amanhecia
um dia de março de um ano que já nem me lembro.
Mas acho que foi em 1986. Eu estava no terraço do Aeroporto
Internacional do Galeão, de onde, ao longe e bem à
esquerda, se viam as dependências do quartel da Força
Aérea Brasileira. Estava a caminho de minha cidade natal,
onde pretendia voltar a morar. O ruído dos aviões
que subiam e desciam, quase que ao mesmo tempo, podiam confundir
os meus ouvidos, mas não minha memória. Lá
estava a velha base aérea, tinha certeza, apesar da pouca
visibilidade e da minha vista se embaralhando no brilho do sol
que batia no asfalto da pista. Como uma enganosa miragem, dava
para vê-la como há 30 anos, no dia em que atravessei
a ponte da Ilha do Governador e me apresentei ao comando do Corpo
de Voluntários. Tinha pouco mais de 17 anos e a cabeça
cheia dos sonhos que só a juventude se dá o luxo
de ter.
Olhar naquela direção era como
olhar por um caleidoscópio, um brinquedo que certa vez
apresentei na aula de trabalhos manuais, copiado de uma revista
qualquer. Quanto mais girava, mais as pedrinhas coloridas formavam
novos desenhos geométricos, cada vez mais exóticos
e estranhos. E quanto mais eu forçava a vista, para esquadrinhar
em minhas lembranças o velho quartel da FAB, mais eu confundia
as imagens, que iam e vinham como fantasmas ressuscitados. Em
todo aquele tempo, não restou quase nada que me lembrasse
de suas velhas dependências. Nem os hangares, onde no silêncio
da noite, como velhos guerreiros no repouso das batalhas, dormiam
aviões avariados, comprados dos despojos da Segunda Guerra
Mundial e da Guerra da Coréia.
O espírito de Antoine de Saint-Exupery,
que cantou a "Terra dos Homens" e encantou com o "Pequeno
Príncipe", antes de mergulhar para sempre nas águas
calmas do Mediterrâneo, na certa ainda perambulava por ali.
O Galeão era seu ponto de escala para seguir viagem, levando
a mala postal até os países do Cone Sul, sobrevoando
o oceano com seu velho aeroplano. Certa vez, já servindo
na base aérea, num domingo de folga experimentei a sensação
de ler o seu "Correio Sul", no mesmo hangar em que ele
foi fotografado no final dos anos 30 (e que ilustrava a contracapa
do livro), antes de pilotar os caças franceses, quando
foi derrubado e dado como desaparecido. Acho que minha opção
pela aeronáutica foi influenciada por ele, pela beleza
de seus livros e, principalmente, pela forma romântica como
descrevia a profissão de piloto.
E minhas lembranças, apesar dos anos
que me separavam daqueles tempos, ainda estavam gravadas num compartimento
de meu inconsciente, que teimava em não se apagar. Rostos
vinham à tona de minhas memórias, como silhuetas
irreconhecíveis de pessoas de quem já não
me lembrava mais. Apenas silhuetas, perambulando pelos hangares
desertos e pelo cemitério de aviões abandonados
no final da pequena pista e que agora se embaralhava entre o real
e a fantasia que fui deixando pela vida afora. E tive saudades
dos velhos companheiros, que, como eu, também já
estavam se preparando para a fase derradeira da vida. Aquele famoso
"um terço" do restante que agora chamam de "terceira
idade", glamurizando o que meus pais sempre chamaram de velhice.
A velha B-27, a antiga "fortaleza voadora",
já não estava mais lá caindo aos pedaços,
como que abatida aos poucos por bombardeiros fantasmas. Encontrou
no descanso da terra firme, o que no ar, em batalhas históricas,
não permitiu aos inimigos. Mas mesmo sem a imponência
dos dias de glória, ela guardava ainda o orgulho de rainha
dos céus nos desembarques da Normandia e das areias desertas
do Norte da África. Também não estavam mais
lá, os pequenos aviões de caça, esquecidos
pela modernidade dos novos e mais velozes, depois das bravatas
nos céus da Europa em guerra e nos confins do sudeste asiático.
E ali, sentado no terraço do aeroporto, não sei
por que aquelas lembranças me apareceram, como fantasmas
que há tanto tempo tinha enterrado no passado.
Fora das engrenagens do sistema produtivo, me
vi também como aqueles velhos destroços de guerra
de tantos dias de glória e a emoção constante
de servir à pátria em tempos de paz e dias de guerra.
Abandonados pela modernidade dos novos tempos, apenas um ou outro
virou peça de museu, não se sabe se para exibir
seu anacronismo ou para exaltar as novas máquinas que cruzam
os céus do mundo inteiro. Foi melhor que não os
encontrasse de novo na aposentadoria daquele cemitério
de ruínas se desmanchando aos poucos. Naquela época,
o fogo de minha juventude também não lhes dava espaço
para lamúrias ou saudosismo fora de hora. "Sic transite
glória mundi".
Por um mero impulso, ou coisa que o valha, resolvera
dar uma passada pela Ilha do Governador e rever o quartel onde
prestei o serviço militar, como voluntário do Corpo
de Bombeiro da Força Aérea, no final dos anos 50.
Um amigo daquela época, me alertara de que não ia
encontrar mais nada que valesse a pena recordar. Então,
a caminho de minha última escala neste mundo, desviei a
rota e fui para o terraço do aeroporto, de onde se tinha
uma visão de toda a área. Precisava meditar um pouco
a respeito da decisão que acabara de tomar. Depois, seguir
viagem para minha São José do Calçado, ponto
final de minha peregrinação compromissada apenas
com a nostalgia. Queria descosturar a roupa velha de minhas memórias,
fio a fio, sem pressa nem atropelos, e resolvera começar
pelo Galeão. Depois, quem sabe, me reencontrar e reconstruir
o que havia desfeito e desatado pela vida afora.
Fiz bem em seguir o conselho do amigo e não
ter entrado na velha base em busca de vestígios daquele
passado tão distante. As novas dependências tinham
sido construídas em outros locais e as antigas, na maior
parte, estavam em ruínas, como velhos cemitérios
abandonados, desses que ainda se encontram em fazendas do interior.
Se fosse, ia pisar apenas em escombros sem vida e adormecidos
pelo abandono. A velha cantina do "Pato Rôco",
território livre dentro da organização militar
da base aérea, na certa já não existiria
no caminho que levava ao corpo de bombeiros do final da pista.
Aquela rouquidão que lhe dera o apelido, com toda certeza
já o consumira. E vi apenas o bastante para desenterrar
o fio da meada que iria nortear minha narrativa e reativar minhas
lembranças, para tentar revivê-las no tempo presente.
E fui embora.
Foi uma longa viagem de carro, interior adentro
e solidão afora, relembrando de novo as imagens de meu
velho quartel, agora sem ter seus escombros como pano de fundo.
Por entre as montanhas que margeiam a BR-101, eu via apenas aquelas
que guardei na memória. Em meu primeiro livro, Debruçado
na Ponte do Ribeirão, por puro egoísmo, não
falo dele em minhas lembranças. Como essas coisas que a
gente guarda e não mostra para ninguém. Coisas íntimas
que só à gente interessa. Agora não, queria
que ele fosse o contraponto, a fronteira entre o passado de minha
juventude, e o presente de minha vida adulta. Se expus minhas
mazelas da infância no primeiro livro, queria agora expô-las
de novo neste outro. Mesmo que não pretendesse publicá-las
de imediato, pelo menos elas ficariam aprisionadas, reféns
de minha vontade e de meus caprichos.
Antes eu precisava exorcizar, tentar entender,
rastro atrás, algumas outras pendengas que me foram embaralhadas
na idéia. Alguma coisa me dizia que o ovo da serpente de
tudo que me angustiava, estava escondido em velhos armários
de meu inconsciente, e que eu tinha de achá-lo para desatar
esse nó. Só precisava de mais algum esforço,
ida e volta ao passado, no meio do redemoinho onde a vida brinca
com as pessoas, para que elas se reencontrem e encontrem seus
caminhos. Existe uma hora em que elas têm de arrancar todo
o ranço que carregam, soltar a pele ressecada do passado
e fluir redivivo em uma nova etapa. E cada uma tem uma forma toda
especial de fazer isso. A minha era essa, se não por fraqueza,
pelo menos por opção.
Na reta da Fazenda Velha já dava para
ver a silhueta dos Pontões na linha do horizonte. Aquela
pedra, junto com a do Jaspe, eram saudosas referências geográficas
na topografia de minhas lembranças. E como um piloto que
se guia sem ajuda de instrumentos, me deixei levar num vôo
livre de volta ao passado. Logo iriam aparecer as casas da rua
do Canto (será que ainda tinha este nome?) e uma pontinha
de emoção já começava a fuçar
minhas entranhas. Tanto tempo fora e tudo o que eu trazia na bagagem
era um livro sobre a infância vivida naquela cidade que
queria como minha última pousada. Meras anotações
de conversas que tive com um irmão nos meses em que padeceu
da doença que veio a matá-lo. Ele também
gostava de pontes e ribeirões.
Ao longe li numa placa que a velha rua do Canto
agora se chamava Domingos Martins. Tinha aquele nome poético
porque, alguns anos antes de eu ir embora, ela terminava onde
mais tarde se construiu uma ponte de madeira, um pouco mais abaixo
da atual de cimento. Era o "canto" daquele lado da cidade,
uma rua sem saída. Nos antigamentes, lá onde o vento
faz a curva nas lembranças da gente, desde a antiga pinguela
do córrego das Areias, já se chamara São
Sebastião. Se estavam corretos meus apontamentos, depois
veio a se chamar Clarindo Bittencourt, antes do nome atual. Por
que as ruas das cidades do interior são tão desmemoriadas?
Trocam de nomes como se troca de roupa.
A ponte de madeira sobre o ribeirão,
onde um dia me debrucei para escrever as primeiras lembranças
de minha infância, já não estaria lá
à minha espera. Disso eu tinha certeza. E suas águas
cristalinas já estariam poluídas pela mão
dos homens e pelo processo de esclerose ambiental que acomete
a humanidade. Mas elas ainda corriam limpas na minha memória
e dividiam, como num corte profundo e dolorido, as duas margens
de minha vida: a margem da inocência e a outra da adolescência.
Sobre seu leito atravessei minha primeira ponte, no rumo de outras
que viriam pela vida afora, revezando rios de águas turbulentas
e remansos mais tranqüilos, contrapondo dias alegres com
dias de muita tristeza.
Em um conto que escrevi há algum tempo,
falo do poder das pontes na vida das pessoas, das que ficam em
suas pequenas cidades e das que partem em busca do mundo exterior.
Das que se acomodam na segurança umbilical de onde nasceram
e das que se atrevem a atravessar outros rios, além daqueles
que os viram nascer. Muito estranho isso ... E agora eu estava
ali, não mais debruçado na ponte, como nos idos
da infância, mas a caminho da nova ponte de cimento que
substituiu a antiga de madeira do meu pobre ribeirão. Tantos
anos se passaram, tanta vida se viveu, tantos amores perdidos,
tantos amigos que partiram, tanta estrada percorrida e eu ali,
completando a roda da vida num longo círculo que se fechava.
Ou que se abria, sei lá. Quem tem a verdade da vida, quem
sabe com certeza seus desígnios e múltiplos atalhos
Parei o carro na beira do ribeirão. A
tarde estava ensolarada e morrendo na brisa que vinha das capoeiras
que ainda sobravam nos arredores. Enfurnados nas sombras, bem-te-vis
impertinentes anunciavam o pôr-do-sol e um bando de garças
seguia no rumo das cabeceiras dos rios. Os ingazeiros preguiçosos
ainda estavam debruçados em suas margens. Já não
eram tantos como antigamente, mas alguns ainda sobreviviam para
contar a história de sua espécie. Não vi
os rastros das lontras, com seus montinhos de cocô cheios
de escamas nas pedras da cachoeirinha. Nem os martins-pescadores
sobrevoando o espelho d'água ou os jaós cantando
no meio do matagal. Fiquei fora tanto tempo assim? ...
Já não acreditava em potes de
ouro enterrados onde o arco-íris se deita no horizonte,
nem que se virava mulher se passasse debaixo dele. Agora era só
a realidade que contava. Isto eram coisas daqueles tempos em que
se acreditava em tudo. Em mula-sem-cabeça com "um
olho na testa", nos gritos do bicho Charpinel lá no
sítio dos Tatagiba e nas assombrações que
dormem debaixo dos assoalhos escuros e abandonados. Assombrações
que assustavam em nossa infância, mas que hoje não
passam de deliciosas lembranças. Medo, medo, medo ... Mas
era um medo gostoso, com cheiro de café torrando no fogão
a lenha e gosto de taioba com angu e torresmo, cozidos na panela
de ferro. Tudo era cheiro da terra molhada pelas bênçãos
das chuvas que caem com a chegada da primavera.
Uma barra avermelhada em vários matizes
se movia lá pelas bandas dos Pontões, anunciando
o fim da tarde, e, mercê do Deus dos penitentes, do fim
de outra longa estiagem. A chuva logo iria chegar, rompendo as
sementes e fazendo brotar na terra uma explosão de vida.
Era só esperar o canto da seriema: "se cantar no chão,
nada de chuva, mas em cima dos mourões das cercas, aí
sim, é chuva na certa." Pelo urro dos jumentos também
se conhecia a chegada dela, mas o certo mesmo era observar a procissão
das milhares de formiguinhas corredeiras em volta da casa. Também
era tiro e queda. Mas bom mesmo eram as procissões dos
penitentes, com suas velas e cantilenas pelas ruas da cidade,
levando baldes d'água para banhar o cruzeiro no alto do
morro.
E se os responsáveis pela chegada dela
fossem as rezas para o padroeiro São José ou a feliz
combinação de vários fenômenos metereológicos,
isso não importava. O importante é que ela vinha.
Os fiéis que puxavam as cantilenas nas procissões
tinham uma parcela no milagre, e os cépticos, no silêncio
da dúvida, agradeciam a ajuda suplementar. Minha tia Tatana,
em seu sítio do Jaspe, rezava um terço durante toda
a estiagem que, eu sabia, vinha em ciclos de sete em sete anos.
O que importava era a sua fé. Depois, quando elas vinham
na abundância das trovoadas e relâmpagos, aí
sim, ela apelava para a Santa Bárbara, que logo abrandava
o perigo dos raios que despejavam toda a sua fúria no pessoal
cá de baixo. Pobre tia, nunca perdia a fé nem a
esperança.
Na última vez que a visitei, preferia
o silêncio da varanda, decorada com orquídeas e samambaias,
e a sonolência de sua cadeira de balanço. Já
quase não percebia as passagens da lua nem o vai e vem
monótono das estações do ano. Há muito
tempo conversava apenas com o padre Amando, no silêncio
do confessionário da igreja, e dividia suas dúvidas
e esperanças com os três santos de sua devoção,
guardados no oratório de seu quarto. Afora isso, apenas
ouvia, falava e abençoava com os olhos, que eram os faróis
de seu coração, tão grande que nem se dava
conta. E ela quase não notou minha chegada, nem o cheiro
da terra molhada, trazida pelo vento que soprava no terreiro de
sua casa. Agora, eu estava de volta e não tinha coragem
de fazer-lhe outra visita. De volta ? ...
O que é que me trazia ao ponto de partida,
depois de tão longo caminho percorrido, de volta à
minha velha ponte de madeira nas águas mansas do meu pobre
ribeirão? ... Nas etapas desse caminho de volta, sempre
alguém me empurrando para frente ou me travando nas bordas
dos precipícios. Hoje sei, alguém mais de cima orquestrava
tudo, na certa rindo de minhas indecisões. E, insisto,
tudo o que tinha na bagagem era o pequeno livro das memórias
de minha infância, tão despretensioso quanto o seu
tamanho. Mas o que contava é que, como no meu conto sobre
as pontes, depois de atravessar tantas outras, eu voltava à
primeira que atravessei na vida.
Estranhamente eu chegava ao ponto de partida,
com a mesma idade que tinha meu pai, no dia em que foi embora,
na primavera de 1952. Coincidência ou mau agouro? Já
escrevia sobre a vida, meu tema favorito, com frases menores,
com mais pontos parágrafos, sem nenhum ponto e vírgula
e com menos medo de errar. Não era mais aquele menino,
feliz ou infelizmente, cheio de exclamações (ou
vida, quem sabe?) nas redações do grupo escolar,
onde gaguejava os primeiros pruridos das frases certinhas, como
mandava a professora. Essa ficou para trás, com a mesma
firmeza que passava adiante seus ensinamentos. E eu segui vida
afora, destrambelhando tudo que aprendera, desconstruindo a infância
e me confundindo na gramática complicada da vida adulta.
Depois, percorrendo os mesmos caminhos da infância,
cheirei cada beco das ruas e cada terreno baldio, em busca do
aroma das goiabeiras, das pitangueiras, das mangueiras e do cheiro
acre das coisas abandonadas pelo tempo. Nada encontrei. Pelos
arredores não senti o cheiro da terra ou do esterco do
gado que pasta além das cercas de arame farpado. Talvez
eu devesse cheirar as coisas com o olfato do menino perdido dentro
de mim, não com a nostalgia do adulto que procura o elo
perdido entre o que foi e o que passou a ser. Procurei pelas buganvílias
que, debruçadas nos cercados das casas, floriam na abundância
das primaveras daqueles tempos. E também não achei
nada. Parece que elas não gostam da segurança dos
muros de cimento, que transformaram as casas em fortalezas do
medo.
Minha pequena cidade mudou ou mudei eu, nas
peripécias da vida errante, nos dissabores das perdas e
nos atalhos perigosos de caminhos inseguros? Suas ladeiras ainda
continuam íngremes, só que sem aquele menino solitário
que corria por elas, de braços abertos, sonhando com os
homens alados da "Deusa de Joba" a que assistia nas
matinês de domingo no cinema. Nas montanhas que a circundam,
ainda nascia a relva molhada das pastagens, por onde ele deslizava
nas cascas das folhas das palmeiras da pracinha. E o ribeirão
ainda sacoleja serpenteando no vale, embora não leve mais
as improvisadas jangadas de troncos de bananeira da meninada.
E eu no meio deles, como uma pipa solitária ensaiando os
primeiros vôos que embalam os sonhos do menino que era.
Agora estava ali de volta, na firme decisão de não
fugir mais.
Não me sentia, propriamente, um vitorioso
nem um derrotado, apenas alguém que deixava para trás
um balanço cheio de lucros e perdas, com lançamentos
flutuando entre pontos positivos e negativos. Se não apresentava
lucros, também não mostrava prejuízos. Todo
mal que eu tinha feito vida afora, com raras exceções,
tinha amortecido em meu próprio peito ou amargado na contrição
de minhas culpas. Queria passar uma borracha em tudo isso e nascer
para uma nova vida, uma outra existência. Queria voltar
a conviver com as coisas mais simples que desdenhei ao longo do
caminho. Era isso, queria apenas voltar à ponte do meu
ribeirão, sentir o aroma que vem das flores, a brisa que
sopra no campo e o pulsar da vida na calmaria do interior. Não
queria muita coisa, apenas viver em paz.
E seguindo por uma estradinha de chão,
por entre uma alameda de flanboyants floridos, terminei de desfolhar
a memória em busca do meu tempo perdido. A poucos é
dado o direito de viver duas vidas numa só e eu agradeci
a meu Deus por mais aquela chance de renascer das cinzas. Depois
das ruínas de uma antiga fazenda, subi a serra e avistei
minha pequena cidade lá embaixo, como um presépio
montado entre montanhas. Entre montanhas e flores, pensei com
alegria. Sentei-me numa pedra e me recostei no barranco, enquanto
o sol se punha no horizonte. Livre de meus fantasmas e mais relaxado,
dormi o sono dos justos, sem sonhos nem pesadelos. Depois acordei
sob um manto de estrelas, literalmente, um céu de brigadeiro
a que eu tinha todo o direito. Estava em casa de novo.
Pedro
Teixeira
pedroteixeira.online@bol.com.br

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