ENSOPADO DE PARDAIS E SEU EFEITO COLATERAL


Não sei se o que vou relatar aqui tem alguma coisa haver com o Piriquito e a sua temível espingardinha de chumbinho. Em nenhum momento do relato é citado o nome dele, é certo, mas como a fama de exterminador de rolinhas e pombinhos corre solta, não duvido que o Piriquito tenha ajudado o moleque Tiziu a desempenhar a tarefa com tanta presteza. Vamos aos fatos, mas os nomes aqui relatados são fictícios e qualquer semelhança será mera coincidência.

O senhor Zé da Memela já havia entrado na fase cronológica dos "enta", mas não tinha o menor precoceito quanto à declarar sua idade - 56 anos bem vividos Todos os finais de tarde, invariavelmente, se encaminhava para a praça onde os ônibus faziam ponto, sentava num dos bancos que ficavam sob as copas das árvores e ali permanecia por horas a fio, observando o movimento das pessoas e pensando na vida. Há pouco mais de meio ano lhe afligia um probleminha que não ousava falar para ninguém, muito menos aos médicos forasteiros da cidade.

Últimamente "seu" Zé da Memela já não acompanhava mais com aquele brilho nos olhos, o gingado das morenas que passavam faceiras à sua frente. Para falar a verdade, nem mesmo se sentia atraído pelo sexo oposto. Talvez não soubesse e nem mesmo tenha ouvido falar mas, ao que parece, o seu climatério tenha entrado numa fase de declínio, acentuado por algum motivo. Se aquela situação era constragedora só de pensar, imagina em casa, tendo que inventar mil e uma desculpa para a patroa que, com toda a razão, já estava ficando, se não desesperada, pelo menos desconfiada de que o seu Zé estava aprontando alguma na horta de alguma vizinha desavergonhada.

Dona Bilica, a patroa do "seu" Zé, de vez em quando e de forma muito dissimulada, tentava puxar assunto mas o Zé, rapidinho, inventava uma desculpa e fugia das investidas. Se era na hora das refeições, não gostava de conversar para não fazer uma má digestão; no café da manhã não havia tempo, pois saía cedo para o sitio; à noite tinha que rezar o Terço Mariano, composto de 20 dezenas, sendo que cada dezena era composta de um "Pai Nosso", dez "Ave Marias" e um "Glória ao Pai", seguido da jaculatória. Ao término dessa maratona de reza, dona Bilica já estava dormindo e o Zé grogue de sono.

Se na base da tentativa de conversar não estava dando resultado, o negócio era partir para métodos mais explícitos. No café da manhã, dona Bilica servia uma pasta de amendoim, substituindo a manteiga no pão; no almoço a sobremesa era pé de moleque e, para arrematar, à noitinha, uma caneca com ovos de codorna batidos no leite morno, com açucar queimado. Nada disso, infelizmente para dona Bilica, estava dando resultado e seu Zé continuava não "comparecendo ao serviço".

Num belo final de tarde, com o sol se pondo pros lado da Pedra do Jaspe, encontrava-se "seu" Zé da Memela pensativo, sentado num dos bancos da praça e remoendo sua angústia, quando, de repente, tomou uma decisão que iria mudar suas atitudes num futuro bem próximo.

Nada de ir à procura de um médico, mesmo porque, pensava, o assunto que iria tratar não era para ser assuntado com um médico, esse pessoal forasteiro que não conhecia nem um pingo de seu passado. E com esse pensamento, Zé da Memela se aventurou lá para os lados da Liguria, indo à pé mesmo, pois assim ganhava tempo imaginando como iniciar a conversa com o Compadre Rosa.

Compadre Rosa era muito conhecido na região por fazer garrafadas e outras receitas energéticas, muito apreciadas e de efeitos comprovadíssimos. Coisa de uns dois anos atrás, Compadre Rosa diversificou suas receitas, acrescentando, também, receitas quentes, do tipo ensopados e guisados.

Chegando à casa do Compadre, Zé da Memela cumprimentou a Comadre Cândida e a filharada e foi logo chamando o Compadre para uma prosa reservada. Foi direto no assunto e de um fôlego só relatou tudo o que estava acontecendo em casa, na praça e em todos os lugares por onde passava. Para sua surpresa, após o desabafo angustiado, o Compadre Rosa não ficou nem um pouco surpreso com o que havia escutado. E mais, falou que já havia tratado de muitas pessoas da cidade e também de outras cidades vizinhas, que apresentavam o mesmo problema. Experiente, Compadre Rosa foi logo diagnosticando o problema do Zé da Memela, era istressi (stress), coisa moderna dos novos tempos.

Para o problema novo que estava em moda, o negócio era receitar um cardápio quente. Compadre Rosa pegou um pedaço de papel de embrulhar pão e aviou a seguinte receita para o Zé da Memela:

- No jantar, durante 30 dias, só se alimentar de um ensopado especial, feito com 5 Pardais, inhame e batata baroa.

Zé da Memela deu um pulo da cadeira quando leu a receita e foi logo perguntando se estava desnutrido. Compadre Rosa explica, pacientemente, que o problema não era desnutrição, mas que o ensopado iria resolver o problema da "falta de apetite" que tanto agoniava o Zé. Além do mais, a iguaria era muito saborosa e só encontrada nas cidades, território invadido e tomado das andorinhas. Aliás, as andorinhas também compunham o receituario do Compadre Rosa. Nesse caso, eram servidas fritas e era tiro e queda, pule de dez, batata, para os "causos" de "apetite excessiva", bem ao contrário do problema do Zé da Memela.

De volta para casa, Zé da Memela foi encaixando as coisas no seu cérebro. Agora ele estava entendendo o porque do sumiço dos pardais na cidade, após um período de infestação maciça. Não imaginava que pudesse existir tanta gente na cidade com o mesmo problema que tanto o afligia. Chegando em casa, conversou rápido com a patroa, informando que estavam todos bem na casa do Compadre Rosa e que a Comadre Cândida mandava um abraço. Jantou cedo e nem viu o Jornal Nacional, foi direto para cama, ansioso para chegar o novo dia e encomendar a captura dos Pardais.

Logo de manhã bem cedo, Zé da Memela tomou um cafezinho e se encaminhou para a praça. O primeiro moleque que avistou "de bobeira" foi o Tiziu, moleque esperto e rápido como o pássaro homônimo. Sem muitas delongas, Zé da Memela fechou um negócio com o moleque Tiziu. Durante 30 dias Tiziu deveria capturar 5 pardais por dia e entrega-los na casa do Zé da Memela até às 17:00hs. Negócio combinado e fechado, devendo ser iniciado já naquele mesmo dia.

O moleque Tiziu não se aguentava de tanta alegria. Quando poderia imaginar que capturar Pardal lhe renderia tanto dinheiro! Contando com o Zé da Memela, já eram 8 clientes firmes.

Dona Bilica, a princípio, ficou meio cabreira com aquela mudança no cardápio do jantar, pois levava fé que um dia , depois de tantos pratos à base de mandioca, o seu Zé iria captar a mensagem. Mas, vida que segue, se era aquilo que o seu Zé queria, tome Ensopado de Pardais no domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado,.....

Passaram-se as semanas.....

Num belo dia, dona Bilica aparece, de surpresa, na casa do Compadre Rosa. Cumprimenta a todos, joga conversa fiada com a Comadre Cândida e, finalmente, chama o Compadre para um dedo de prosa, em particular. Cheia de dedos, cercando o galo, sem jeito de tocar no assunto, não sabia como iniciar a conversa que realmente a interessava. Compadre Rosa, percebendo que a conversa não se encaminhava para lugar algum, resolve perguntar pelo Compadre Zé da Memela. Dona Bilica suspirou aliviada. Era justamente a respeito de seu Zé, mais precisamente, do problema que o seu Zé vinha apresentando últimamente, que ela queria falar.

Compadre Rosa informa para dona Bilica que aviou uma receita para o Compadre Zé, que estava reclamando de uns probleminhas, mas que ficou sem notícias se houve alguma melhora do problema.

- É sobre esta receita que eu vim aqui conversar. Disse dona Bilica, toda ruborizada e gaguejando.
- Mas esta receita é prá...., começou a falar o Compadre Rosa.
- Eu sei. Tô com o mesmo problema, só que não está em estágio tão avançado quanto o que se encontrava o meu Zé, encurtou o assunto dona Bilica.
- Então o Compadre Zé está curado!!?, perguntou, curioso, o Compadre Rosa
- Não melhorou 100%, mesmo porque a idade não ajuda muito, mas o "apetite" dele já está maior que o meu. Disse dona Bilica, bem baixinho, toda sem jeito e ainda mais ruborizada.
- Mas, então, qual é o problema? Não está gostando da situação? Perguntou, preocupado, Compadre Rosa.
- Não é este o problema, Compadre. Agora quem está precisando da receita sou eu, para aguentar o repuxo lá em casa. Tem dias que o Zé tá danado. Disse dona Bilica, quase inaudível, mas com uma ponta de sorriso nos lábios.
- Na realidade, eu nunca aviei esta receita para mulher, mas como não tem contra-indicação, a Comadre pode seguir a mesma receita, ressalvando, entretanto, que a quantidade de Pardais seria menor, uma vez que a situação não estava tão ruim quanto estava para o Compadre Zé da Memela. Compadre Rosa aviou e entregou a receita a dona Bilica.

Dona Bilica despediu da Comadre Cândida e foi embora para casa. A visita foi embora tão depressa, que Compadre Rosa não teve tempo de perguntar que problema ainda tinha o Compadre Zé da Memela, pois, segundo Comadre Bilica, o seu Zé não estava 100% bom. Pelo que deu a entender, a idade atrapalhava um pouco, mas estava acontecendo alguma coisa que deixava dona Bilica um pouco preocupada.

Chegando em casa, dona Bilica pôs os serviços do lar em dia, arrumou a mesa do jantar, conversou rapidamente com o Zé, disse que estavam todos bem na casa da Comadre Cândida e que o Compadre Rosa havia mandado um abraço. Despediu-se, desejou boa noite e foi dormir, ansiosa para chegar o novo dia e iniciar sua nova dieta de Ensopado de Pardais.

De manhã bem cedinho, dona Bilica preparou o café e foi até a padaria para comprar pães. Aproveitou e foi até à praça para ver se encontrava algum moleque para encomendar a captura dos Pardais. Lá estava Tiziu, preparando suas armadilhas para caçar os pássaros. Trato feito e ajustado preço e quantidade, dona Bilica se encaminha para casa quando, lembrando de um detalhe, volta-se para o moleque Tiziu e faz uma recomendação muito importante em relação aos Pardais:

- Quero que todos os Pardais sejam machos. Exige dona Bilica.
- Peraí, dona Bilica! Eu armo as armadilhas e pego os Pardais, não sei qual a diferença entre macho e fêmea. Respondeu Tiziu, cheio de razão, para o que seria seu 15º freguês.
- Então é isto? Você mistura tudo, sem separar os machos das fêmeas? Pergunta dona Bilica, com uma certa expressão de quem descobriu a pólvora.
- É isto o que??? Qual o problema??? Pergunta Tiziu, já sem paciência para com dona Bilica
- Não te interessa. Só quero que você capture os Pardais machos. É ruim de eu comer Pardal fêmea. Dá seu jeito, você não é metido a esperto? Provoca dona Bilica, radiante com sua descoberta.

Dona Bilica voltou para casa numa alegria só. Agora ela entendia porque tinha dias que o seu Zé ficava macho prá daná, como os Pardais em confronto com as Andorinhas. Em compensação, tinha dias que ele virava uma Andorinha, só sobrevoava o ninho e fazia a maior sujeira, mas nada de cantar e partir pra cima.

Zé Fini


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
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