Eramos seis...




    Aproximando-se a Festa de Calçado e, mais uma vez, estando ausente deste momento único no ano onde posso rever amigos e parentes queridos, haja vista o casamento do meu único irmão, Moraes Neto, acontecer no mesmo final de semana da minha tão esperada Festa de Calçado, me lembrei de tantas outras que participei quando criança e quando adolescente. Nós éramos seis amigas: Viviane Monteiro Tavares, Sheila Rezende Basílio, Wanessa Câmara de Rezende, Anna Christina Fonseca (a Tatá), Cláudia Vieira de Rezende e eu. De todas nós, a única felizarda "broinha da gema" era a Viviane, que morava em Calçado. A Claudinha morava em Itaperuna e, consequentemente, vinha mais amiúde à Terrinha. A Sheila morava em Vitória; Wanessa, em Belo Horizonte, Tatá e e Eu, morávamos em Brasília.

   Sempre nos encontrávamos nas férias de julho, dezembro, janeiro e fevereiro e, nós, "as meninas de fora", nem cogitávamos a possibilidade de viajarmos para outro lugar, seja praia, campo ou cidade diferente. Isso era inadmissível! Sempre fazíamos as mesmas brincadeiras: nossos piqueniques escondidos, atrás do cemitério (ainda tinham os eucaliptos! - Para que nunca viu os eucaliptos perto do Hospital, eu chamo isso de "conflito de gerações" e, para quem os viu, é bem capaz até de sentir o cheirinho delicioso que tinham aquelas árvores...), que os "meninos" da nossa turminha Fábio, Alan, Ricardo, Marcelinho, Claudinho Malheiros, Luciano Brasil, Stata, Cláudinho Raggi, entre outros, que me perdoem pela memória ruim, adoravam bagunçar e, realmente bagunçavam mesmo.

   A Fabiana Monteiro organizava o bailinho na casa dela (Santa D. Marta!) e era badaladíssimo. Primeiro, porque só tinha a boate de Crissaf na sexta-feira e, aos sábados, eram os bailes do Montanha, com disputa de dança e tudo mais. A turminha comparecia em peso, arrumadíssimas. A Sheila Basílio era a reencarnação da Júlia Matos (da novela Dancin' Days) e sempre teve muita ascendência sobre nós, às vezes, determinando quem dançava com quem. O mais engraçado: a gente obedecia direitinho e achava bom!

   Nossos verões, cheios de charme e muito, mas muuuito cloro, da piscina do Ginásio, que chegávamos às oito em ponto, saíamos às 11:30 (a piscina fechava para o almoço!). Às duas da tarde em ponto estávamos lá outra vez, esperando o "Seu Zé Maria" abrir a piscina para o período da tarde, que ia até cinco da tarde, s.m.j., dos bailes no Montanha Clube (vigiadíssimas pelos pais, avós, tios, enfim, a família inteira de todas faziam de conta que não viam nossos paqueras, namoricos e...) deixa prá lá. Até casamento saiu entre uma de nós, num dos bailes do Montanha Clube. Lembro-me direitinho quando a Cláudinha começou a namorar o Totô (Saragaia), achávamos muito estranho, porque, desculpe-me Totô, mas na época nós achávamos você muuuuito mais velho, eu, mais que todas, porque como, além de tudo, éramos vizinhos, era o filho da D. Mariinha, aquele mais velho. Só depois fui saber que o Gilberto era mais velho que você. Bom, deu para entender, não deu?

   Os carnavais eram imbatíveis! As matinês eram tão disputadas quanto os bailes à noite, nossos blocos sempre organizados pela D. Angela Tavares, D. Marta Tavares, Dona Augusta (a D. Guta) e, as "meninas de fora" tinham lugar cativo em todos. Era a glória! Os pais torciam o nariz, mas acabavam cedendo, sempre tinha um mais bravo e, quando não era o meu pai, Jonacy Moraes (abrandado pelo Vovô Celso) era o pai da Wanessa Rezende, Tio Marcelo Rezende (abrandado primeiro pelo Seu Juquita Rezende e depois, pelo irmão Maurílio Rezende), senão o tempo fechava e não se podia sair. De jeito nenhum. Namorar, nem pensar. Só escondido. É inimaginável namorar escondido em São José do Calçado, mas olha, nós conseguíamos. A Viviane era a que sabia de tudo. Também, morava na cidade. Depois, a Claudinha era a mais bem informada, e quando a gente chegava, ficávamos por dentro de tudo, quem namorava quem, quem tinha brigado com quem, como tinha sido o Baile XYZ, etc, etc, etc, etc..... .

   Mas na Festa de Maio era muito bom! Primeiro, quando crianças, comprávamos todos os óculos brancos de lente verde que tinham nas barraquinhas e era um frio de cortar. Mais tarde, na adolescência, curtíamos os bailes, as paqueras, as danças, os comentários das roupas que, é claro, as nossas eram sempre as mais bonitas. Que dúvida, não?

   O tempo passou, não sei se devargar ou depressa demais, quem era mais velho, hoje é nosso amigo do peito, os amigos da época são mais amigos que nunca. A Sheila continua em Vitória, arquiteta, casada e mãe; A Claudinha, mudou-se para Vitória, professora, casada e mãe; a Wanessa continua em Belo Horizonte, médica, casada e mãe; a Anna Christina (sempre Tatá) mudou-se de Brasília para Vitória, fazendo um "pit stop" em Macaé durante um tempo, empresária, casada e mãe; Viviane, firme em seus propósitos, continuou em nossa querida São José do Calçado, às vezes, em Campos dos Goitacases, professora, casada e eu, sempre fui mais andarilha acho. Quiçá mais atirada. Saí de Niterói, fui prá Brasília, advogada, casei, descasei, casei de novo e mudei (igualzinho o ditado!) para São Paulo. E, apesar de tantas andanças, continuo trilhando o caminho da minha roça (parafraseando o Juninho Bullus), levando meus dois filhos, sempre que posso, para São José do Calçado, hoje sem eucaliptos no Hospital, mas com uma estrada enorme, com muitas histórias, lembranças e memórias de uma "quase" broinha (vale filha de broinhas?). Pois é! Éramos seis amigas (continuamos sendo, apesar de longe, de distantes e das loucuras da vida) e hoje, nossos filhos são amigos. Quem sabe ainda poderemos ler uma crônica escrita por eles, falando da visão deles da querida São José do Calçado? Talvez comece assim... "Éramos doze...".

   Como diz o poeta - relembrar é viver! Boa Festa para todos e meu abraço carinhoso aos amigos e parentes. Quem sabe na próxima Festa, eu consigo refazer o meu caminho da roça?


Anna Paula Medina de Moraes
annamedina@adv.oabsp.org.br


 

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