Monsieur Tardin revoluciona a culinária calçadense

      

     Monsieur Tardin se diz um conceituadíssimo chef da culinária brasileira e internacional e, segundo ele próprio, também grande "enólogo", que sempre traduz para o leigos como "pessoa conhecedora de vinhos". Diz isso como se todos ao redor fossem ignorantes na nobre arte de degustar. Mas isso não vem ao caso, mas sim o fato de que ele, há uns três meses atrás, preparou um prato típico da comida tailandesa no Restaurante do Searino, em São José do Calçado.

   Havia muito tempo que a gente não se encontrava. Na última vez, se não me engano, o Isaac ainda era casado. Discorremos acerca de assuntos diversos, no que ele também se dizia letrado, quando então decidimos que ao anoitecer faríamos uma visita ao velho amigo Pedro Teixeira. E chegando a Calçado, o encontramos no local combinado, onde o editor de nosso jornal costuma degustar seu vinho no cair da noite, no velho estilo de quem precisa arejar um pouco a cabeça.

   Monsieur Tardin desceu do carro com todo o aparato necessário à preparação do prato que, segundo nos disse, aprendeu com os índios peruanos quando esteve naquele país. Contestado pelo Pedro quanto a essa estranha procedência, acabou dizendo que, na realidade, o prato era realmente o mais nobre da cozinha tailandesa. Ainda na fase preliminar, tentou nos convencer de seus conhecimento de vinhos de castas nobres, no que foi novamente contestado pelo nosso editor, a quem chamou acintosamente de "bebedor de vinhos de garrafão". Pedro, humilde na condição de franciscano, não reclamou da ofensa.

   Conversa vai conversa vem, o peixe, cortado em pequenos pedaços, prato que passou a chamar de "ceviche", complicando ainda mais sua origem, finalmente foi servido com torradas. Prato que ele jurava custar "vinte e seis conto", na pousada internacional "Othon Nautilus", em Angra dos Reis, onde comanda a cozinha do restaurante. Assim, enquanto levávamos o papo adiante, o prato foi degustado por nós e mais alguns fregueses que estavam no bar. Lilinho do Gás, um dos que mais comeu, disse depois que aquilo não passava do tal "peixe-cru" dos japoneses, que tinha um nome de que não se lembrava. Foi o único a matar a charada. E o Searino ficou deslumbrado com tamanha parafernália para um prato tão simples.

   Monsieur Tardin estava de partida para a cidade de Tiradentes, em Minas Gerais, onde daria prosseguimento a sua arte culinária e - Deus nos acuda - bagunçar a tradicional cozinha mineira com suas inovações. Só falta agora, quando nos der novamente o prazer de sua visita, chegar dizendo que conheceu a "famosa" cama onde o herói da Inconfidência Mineira morreu. Aí vai ser demais, mesmo para o simpático e silencioso bar do Searino, que também tem Tiradentes no sobrenome.

Fernando Brandão





 

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