|
Estará esta sensação
correta? Muitas vezes as minhas sensações se mostraram
verdadeiras ou pelo menos deixaram-me inquieta.
No
último fim de semana estive em Calçado para o evento
do Livro de Crônicas e para participar das festividades
da cidade. Tive a sensação que nós "broinhas",
que vivemos fora de Calçado, temos mais orgulho de lá
ter nascido do que as demais pessoas que lá ainda vivem.
Se isto for verdade, confirma-se o dito que só damos valor
a alguma coisa (pessoas, lugares, situações, condições,
etc.) quando a perdemos. Pois eu, neste momento, dou muito valor
às coisas que estão ao meu alcance, ao meu redor,
procurando manter as minhas amizades vivas, a minha atenção
ativa, a minha esperança acesa.
Nossa
vida sempre foi pautada em situações de muita incerteza
e até acho que essa incerteza é que faz girar o
mundo. Se tivéssemos certeza de tudo que poderia nos acontecer,
a coisa ficava sem graça, sem qualquer encanto.
No
entanto, percebi nos olhares angustiados das pessoas que cruzei
nas ruas, no clube, nos bares, na Igreja, uma falta de esperança
gritante, uma desesperança mortal. Parece que vivem o dia-a-dia
ao sabor das ocasionalidades da vida: se acontecer está
bom, se não acontecer, fazer o quê? Esta sensação
deixou-me atônita e incomodada com tamanha passividade.
Qual será o destino de tantos jovens de Calçado?
Fiquei impressionada com a quantidade de jovens e crianças.
O que cada um de nós poderia fazer para fazê-los
vibrar, despertar para a vida???
Nessas
andanças por Calçado vi minhas saudades se desmontando,
se desmantelando, saudades caindo dos postes de luz, saudades
atravessando a rua e indo embora. Não quero isto não!
Não
vi nos olhares angustiados dos alunos do Colégio orgulho
de estarem desfilando. Tanto isso foi nítido que as alas
se desmanchavam em frente ao palanque, ponto máximo do
desfile. Sei também que os tempos são outros, mas
pode estar faltando o exercício da cidadania, demonstrado
através dessa tristeza ou desmotivação patente
nos rostos, cuja alegria por poder estudar e por ter chances de
se valorizar como pessoa estão sendo desperdiçadas.
Onde
aparece o sentimento por uma enorme admiração por
aquelas pessoas, professores que tanto contribuem para o seu crescimento
e que poderiam, ao exercitar a cidadania dar enorme prazer por
estudar e ter chances de saber mais? Alguém disse: "Só
é útil o conhecimento que nos torna melhores".
Qualquer acomodação não pode fazer parte
de pessoas que já se despertaram para isto.
Gostaria,
por vezes, de estar com esses jovens só para sentir a necessidade
de cada um. É lógico que as condições
econômicas fazem uma enorme diferença, mas isto não
pode ser a mola mestra de sua vida. Faça você a diferença!
Sonhe! Sonhe sempre e tenha as suas metas de vida muito bem direcionadas
e planejadas. Não importa o tempo que levará para
alcançar os seus objetivos, mas comece logo a subir os
degraus.
A
vida é rica em paradoxos: só quando perdemos algo
é que apreciamos o que se tem. Só com a vivência
da dor é que se saboreia a felicidade... e por aí
adiante. A vida não é justa ou injusta. A vida,
simplesmente, é. O formato dela cabe a você, unicamente
a você.
Aqueles
rostos pálidos, aqueles olhares angustiados me trouxeram
sensações desqualificadas e o meu pensamento neste
momento continua suspenso no ar: "... até quando...?"
Para
melhor ilustrar o que sinto, segue um Poema de Manoel Bandeira,
escrito em Teresópolis, 1912. Leia o poema, sentindo a
poesia em cada uma de suas entrelinhas.
DESESPERANÇA
"Esta manhã tem a tristeza de um crepúsculo.
Como dói um pesar em cada pensamento!
Ah, que penosa lassidão em cada músculo. . .
O
silêncio é tão largo, é tão
longo, é tão lento
Que dá medo... O ar, parado, incomoda, angustia...
Dir-se-ia que anda no ar um mau pressentimento.
Assim
deverá ser a natureza um dia,
Quando a vida acabar e, astro apagado,
Rodar sobre si mesma estéril e vazia.
O
demônio sutil das nevroses enterra
A sua agulha de aço em meu crânio doído.
Ouço a morte chamar-me e esse apelo me aterra...
Minha
respiração se faz como um gemido.
Já não entendo a vida, e se mais a aprofundo,
Mais a descompreendo e não lhe acho sentido.
Por
onde alongue o meu olhar de moribundo,
Tudo a meus olhos toma um doloroso aspeto:
E erro assim repelido e estrangeiro no mundo.
Vejo
nele a feição fria de um desafeto.
Temo a monotonia e apreendo a mudança.
Sinto
que a minha vida é sem fim, sem objeto...
-
Ah, como dói viver quando falta a esperança!"
Eléia
Abreu
eleia@uol.com.br
|