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Parte
III- Coronel X
Coronel
X nasceu Xerxes Augusto Monteverde Gusmão Gonçalves,
filho caçula de uma família tradicional da cidade
de Alegrete, nos pampas gaúchos. Os Monteverde Gusmão
Gonçalves são de uma linhagem militar que vem de
longa data. O bisavô do Coronel X, por parte de pai, General
Lindolpho Gusmão Gonçalves, cerrou fileiras junto
com Bento Gonçalves e o italiano Garibaldi, na Guerra dos
Farrapos, servindo no Exército Farroupilha, e veio a falecer
na batalha de retomada da cidade de Laguna, em confronto com o
Exército Brasileiro.
Com
a morte do General Lindolpho, Licurgo Gusmão Gonçalves,
filho mais velho e recém alistado no exército Farroupilha
com a patente de Tenente, é enviado para a frente de batalha.
Com o término das desavenças e o acordo de paz assinado
entre o exército Farroupilha e o exército Brasileiro,
que se fazia representado pelo Duque de Caxias, ficou acordado,
entre outros acertos, que os militares Farroupilhas seriam incorporados
ao exército Brasileiro e reconhecida suas patentes.
Assim,
o Tenente Licurgo Gusmão Gonçalves prosseguiu na
carreira militar, tendo, inclusive, combatido na Guerra do Paraguai.
Após a guerra, foi condecorado por ato de heroísmo
e bravura, alçando o posto de Coronel. Morreu em 1920,
tendo alcançado o generalato. Deixou viúva e três
filhos homens, todos iniciados na carreira militar, sendo o mais
velho, Libório Monteverde Gusmão Gonçalves,
transferido para o Quartel General do Exército, na capital
gaúcha, Porto Alegre.
Na
2ª Grande Guerra Mundial, Libório, já Capitão
do exército brasileiro, fez parte da primeira turma de
expedicionários a desembarcar no campo de batalha europeu,
mais precisamente na Itália. Lutou em várias frentes,
tendo, inclusive, participado da tomada de Monte Castelo, na qual
morreram dezenas de pracinhas brasileiros. Nessa importante batalha,
Libório foi condecorado com a medalha de honra ao mérito,
por ter conseguido neutralizar uma importante posição
do exército inimigo, destruindo por completo um "ninho
de metralhadoras" localizado numa casamata.
Finda
a Guerra, Libório retorna a Porte Alegre e casa-se com
Lindalva Soares Gusmão. Nascem, pela ordem, Xênia
Monteverde Gusmão Gonçalves, Xavier Antônio
Monteverde Gusmão Gonçalves, Xisto Alberto Monteverde
Gusmão Gonçalves e Xerxes Augusto Monteverde Gusmão
Gonçalves.
O
ambiente político na Brasil estava meio conturbado no início
dos anos 60. Jânio Quadros, Presidente do Brasil, resolveu
renunciar à Presidência, após uma bebedeira
homérica e alegando que forças ocultas o levaram
a tal ato. Errou no cálculo político e na quantidade
alcoólica, e em seu lugar tomou posse João Goulart
( o popular Jango ). Totalmente despreparado para assumir tais
funções, o jeito foi mudar o sistema de governo,
o que levou o país a um pequeno período no sistema
parlamentarista, com Tancredo Neves como Primeiro Ministro. Esse
período foi tão conturbado, que o cunhado do Jango,
Leonel Brizola, resolveu se fantasiar de mulher e atravessar a
fronteira. Deu uma banana para todo mundo, e se instalou, confortavelmente,
numa fazenda uruguaia. Os militares resolveram, então,
chutar o pau da barraca e partiram para a ignorância, culminando
com a instalação da Ditadura no país, em
1964.
O
General Libório participou ativamente de todas as pendengas
contra os ditos anarquistas ( Jango, Igreja, Lamarca, Lúcio
Flávio, Miguel Arraes, Fernando Henrique e vários
outros políticos da oposição e etc ). De
boa oratória e de nível cultural excelente, suas
idéias eram muito bem aceitas no meio militar, tendo, inclusive,
participado na elaboração de todos os Atos Institucionais
( A I ), culminando na reunião decisiva para baixar o AI-5,
quando um certo passarinho assoprou em seu ouvido a seguinte expressão
"...as favas os escrúpulos...". Mas foi devido
a participação no combate à guerrilha do
Araguaia que Libório, que já era General, ganhou
a tão almejada quarta estrêla.
Para
desespero do General Libório, antes do nascimento do filho
caçula, Xerxes Augusto, nenhum dos filhos quis seguir a
carreira militar. Com a chegada do caçula, uma nova esperança
anima o velho general. Xerxes Augusto foi matriculado no Colégio
Militar de Porto Alegre, com 7 anos de idade. Desde a primeira
série, o caçula dos Monteverde Gusmão Gonçalves
não mostrava muita aptidão pela carreira militar.
Gostava mais das aulas de educação física
e das instruções de reconhecimento, montagem/desmontagem
de velhas armas.
Os
anos foram passando e o menino Xerxes passando, de raspão,
em cada série escolar. Definitivamente aquela rigidez disciplinar
não combinava com o seu espírito libertário.
Formou-se, às duras penas, no Colégio Militar. Com
o "QI" do pai, conseguiu ser inscrito na Academia Militar.
Formou-se Tenente-Coronel sabe-se lá como, uma vez que
sua monografia de final de curso ficou sem nota, por tê-la
apresentado fora do prazo e o tema escolhido não ter sido
nenhum dos relacionados pela direção da Academia.
A monografia apresentada pelo Tenente-Coronel Xerxes Augusto,
versava sobre a " Excelência do Fusil Winchester 45
para Alvos distantes até 50m ", uma arma que, já
naquela época, só era usada nos velhos Tiros de
Guerra do interior do país, como arma de instrução
para os pobres alistados carregarem nas costas, nos exercícios
de caminhada.
Foi
na época da formatura na Academia Militar que o X tornou-se
a alcunha do brioso militar Xerxes Augusto Monteverde Gusmão
Gonçalves. Para tentar esconder o vexame que era formar
um militar sem que tivesse a monografia aceita, a Academia resolveu
que, naquele ano, no mural dos formandos, a nota final de cada
oficial seria grafada em algarismo romano. Foi uma alternativa
apresentada pelo pai, General Libório, para preservar o
filho e a Academia de maiores dissabores.
Na
lista de formatura afixada no mural dos formandos, o orador da
turma era marcado com um X. Dessa forma, como o Tenete Coronel
Xerxes Augusto fora "escolhido" orador da turma, propositalmente
foi marcado um X na coluna das notas finais obtidas. Para o público
interno da Academia, o Tenente Coronel Xerxes seria o orador,
mesmo não se sabendo qual foi sua nota final. Para o público
externo, o Tenente Coronel Xerxes teve nota final 10 ( X ), mas
não era possível saber quem seria o orador da turma.
Com
a morte do General Libório, encerrou-se, também,
a boa vida encontrada pelo Tenente Coronel Xerxes Augusto nos
quarteis. Um mês após a morte do pai, foi transferido
de Porto Alegre para Caçapava. Depois Chui, Itaqui, Piratini,
Santana do Livramento, São Borja e, finalmente, Uruguaiana.
Todas essas cidades tinham, por características, uma certa
afinidade com o frio.
Em
Uruguaiana, ainda Tenente Coronel e sem perspectiva de galgar
outras patentes, torna-se Coronel, utilizando, talvez, da única
facilidade legal. Ao se aposentar, o militar assume a patente
imediatamente superior. Assim, surgiu o Coronel X.
Não
aguentando mais sentir frio no Sul, Coronel X, já empijamado,
resolveu se mudar de mala, cuia e chimarrão para o Rio
de Janeiro. Chegou na Cidade Maravilhosa no mês de outubro
e foi, aos poucos, se acostumando ao novo rítmo de vida.
No primeiro verão quase foi parar no hospital, com suspeita
de queimadura solar e desidratação. Aprendeu rápido
as mãnhas da cidade e de seus habitantes.
Passados
alguns anos, se alguém quizesse se encontrar com o Coronel
X no Rio de Janeiro, era só procurar nas Escolas de Samba,
à noite. De dia, invariavelmente, podia ser visto fazendo
um tour pelos bares da orla da praia, principalmente entre Leme
e Copacabana. Virou arroz de festa em tudo quanto era ensaio de
escola de samba, além de maior azarador das mulatas. Não
sabia sambar, não torcia para nenhum time de futebol do
Rio, tinha as feições arianas e o sotaque carregado,
e só se expressava na 2ª pessoa do singular, mas conhecia,
como poucos, as regras de uma boa convivência dentro dos
limites de uma quadra de escola de samba, além, é
claro, de ser muito educado e um excelente observador.
Em
um dia de sábado, no final do mês de janeiro, Coronel
X resolveu encurtar seu tour pelos bares da orla de Copacana e
voltou para casa mais cedo. Tinha tomado a decisão de,
naquele sábado de calor infernal, descansar o corpo para
enfrentar, logo mais à noite, o último ensaio da
Portela. Queria chegar cedo na quadra, pois sendo o último
ensaio, a perspectiva era de lotação máxima.
À
noite, por volta das 21:30hs, o Coronel X chega no portão
principal da quadra da Portela. O movimento já era grande,
com muita gente nos guichês pechinchando um ingresso ou
mesmo tentando convencer, na lábia, os seguranças.
Ao passar por um dos portões, Coronel X encontra com o
chefe da segurança, que passava naquele momento fazendo
uma vistoria geral nos portões de acesso à quadra.
Num rápido movimento de cabeça, cumprimenta o cabeça
chata e segue direto para o bar. Mancomunado com o bar-man, Coronel
X chega no bar e recebe sua mesa metálica dobrável
e duas cadeiras. Arma a mesa na posição que melhor
lhe agrada e, com um gesto para o bar-man, este logo providencia
uma garrafa de Logan.
O
ensaio transcorria animado e sem grandes incidentes. Entretanto
o Coronel X não viu ( provavelmente tenha ido ao banheiro
esvaziar a cuia!) um certo reboliço quando, por volta das
23:30hs, adentrava os portões da quadra da Portela uma
mulata de fazer gringo pagar R$ 25,00 numa dose de Drink Dreher.
A mulata chegou, fez um carinho no chefe da segurança e
se dirigiu para o centro da quadra. Levantou poeira e se esbaldou
no samba até o primeiro intervalo do ensaio final da escola.
Encontrava-se o Coronel X já no meio do seu Logan quando,
no intervalo do ensaio, chega junto ao balcão, a mulata
que havia causado um reboliço quando de sua entrada na
quadra. Pede uma garrafa de água mineral ao bar-man. Coronel
X quase engole a dose de whisk com pedra de gelo e tudo. Institivamente
faz e gesto para o bar-man, solicitando que debitasse aquela garrafa
d'água na sua conta. A princípio a mulata recusa
a gentileza do Coronel X mas, pela insistência e educação
do militar, resolve aceitar o agrado. Ao retornar para a quadra,
passa pela mesa do Coronel X, agradece a gentileza e lhe faz um
cafuné na cabeça.
Depois
do cafuné, Coronel X dispensou de vez o gelo e o Logan
foi servido "a la cowboy". Rapidamente chama o bar-man
à sua mesa e pergunta o nome daquele monumento em homenagem
à miscigenação. É a Matilda! Uma belezura,
não é mesmo?! O bar-man foi logo dando nome e sobrenome
da escultura, entretanto, não disse uma palavra a respeito
do enrabichamento da mulata com o chefe da segurança.
Matilda
não pagou um centavo de despesa naquela noite. O bar-man
já estava orientado pelo Coronel X para debitar tudo que
Matilda pedisse, na sua conta. Terminado o ensaio da Portela,
Coronel X se apressou em acertar a conta no bar e se dirigiu até
a um grupo de ritimistas, entregou um cartão pessoal e
pediu que entregassem a Matilda. Antes que Matilda chegasse ao
portão, foi-lhe entregue o cartão. Com uma rápida
passada de olhos, viu de quem era, deu um sorriso e guardou-o
dentro do soutien, entre os seios.
De
seu posto, Coronel X viu como fora a recepção ao
seu cartão e, imediatamente, lembrou do Principe Charles,
da Inglaterra. Quisera eu, neste momento, me transformar num cartão
e ficar alojado seu porta-seios...!!!
GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br
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