Petrônio, Coronel X e Melgaço

Parte IV ( última )

Como Desenrolar Essa Encrenca


   Na madrugada de sábado para domingo, terminado o último ensaio do samba-enredo, na quadra da Portela, Petrônio se encontrava num estado emocional que poderia ser descrito como sendo um misto de alegria-angustia-raiva-remorso. Ver a Matilda lhe trouxe recordações agradabilíssimas daquela mulata curvilínea, da qual um dia teve nas mãos, na cama, no sofa, na praia, etc. Lembranças que, por alguns instantes, o fizeram o sujeito mais feliz do mundo. Ao mesmo tempo, se sentia angustiado por perceber que a sua ex-Matilda estava sendo assediada por um branquelo azedo vermelho de praia. A raiva surgia por saber que a Matilda tinha novo "dono", um cabeça chata metido a valentão e, quase que instântaneamente, nesse turbilhão de pensamento, surgiu o remorso por ter jogado com os sentimentos de duas irmãs, Cacilda e Matilda, terminando por perder as duas.

   Petrônio chegou em casa, no morro Chapéu Mangueira, totalmente absorvido por esses pensamentos. Não conseguiu dormir o resto da noite e, já naquela manhã de domingo, bem cedo, decidiu vestir um short de banho e uma camiseta, descer o morro e pegar um ônibus-circular até o Piscinão de Ramos. Tinha que colocar o pensamento no lugar e decidir o que queria da vida. Não era mais possível ficar remoendo aquelas recordações e se sentir a pior pessoa desse mundo. Na volta para casa, tomou uma decisão. Iria procurar saber onde morava a Matilda, iria até a sua casa e lhe pediria desculpa pelo que tinha feito no passado.

   Segunda-feira, por volta das dez horas, Petrônio chega na quadra da Portela e vai direto para o bar, onde tinha visto Matilda na noite de sábado para domingo. Por sorte, o mesmo garçon que havia trabalhado na noite do ensaio, estava limpando o chão do bar. Descreveu a silhueta da mulata que procurava, nos mínimos detalhes, e perguntou ao garçon se ele saberia quem era ela.

   - Claro que sei. Eu e todos aqui da comunidade sabemos. Ela é a Matilda, mulher do Melgaço, nosso chefe da segurança aqui da quadra da Portela. Um mulherão, né não? Respondeu indiscretamente o garçon.
   - Então ela é casada com esse tal de Melgaço? Perguntou Petrônio, com o coração apertado.
   - Bem, casada, casada, não é não. Mas vive com ele pra mais de dois anos. Mas o senhor quer o que com ela? Perguntou o garçon, já desconfiado daquele interrogatório.
   - Ahh bom! Não, não é nada não. É que eu tenho que entregar uma peça de tecido para ela, mas não me disseram onde mora. No sufoco, Petrônio inventou uma desculpa qualquer.

   O garçon explicou direitinho como chegar na casa da Matilda, e lá foi Petrônio cumprir o que havia decidido. Como quem não quer nada, entrou numa birosca próxima e pediu uma cerveja. Bebeu tranqüilamente, pagou a conta e na saída perguntou ao dono da birosca se conhecia o Melgaço.

   - Conheço, sim. Mora alí na rua de baixo. Mas nem perca o seu tempo, ele já saiu. Passou por aqui não faz muito tempo. Respondeu o birosqueiro, falando o que o Petrônio, em parte, queria ouvir.
   - Obrigado, mas, é que pediram para entregar na casa dele uma encomenda e eu precisava chegar lá.. Petrônio agradeceu a informação e se encaminhou para a saída da birosca, frustrado por achar que não seria aquele o dia que iria se encontrar com a Matilda.
   - Ahh, mas então o senhor está com sorte. A Matilda está em casa passando roupa. Ela é uma passadeira de mão cheia. Tem freguesa até lá de Copacabana. Disparou a falar o birosqueiro.
   - Obrigado, mais uma vez, pela informação. Tenho que ir. Despediu Petrônio, já quase deixando transparecer sua alegria, e antes que o birosqueiro puxasse mais assunto.

   Petrônio seguiu em frente, virou à esquerda e desceu uma escadaria de uns 30 degraus. Agora, numa segunda rua, virou a direita. A segunda casa da lado esquerdo era a de Matilda. Por alguns instantes, Petrônio ficou parado em frente à porta da casa. De súbito, bateu à porta e ficou estático, com o coração disparado. Após alguns segundos, que pareceram uma eternidade, abriu-se a porta e ali, na sua frente, estava a Matilda.

   - Bom dia, Matilda. Eu sou Petrônio, lembra-se de mim? Conseguiu se apresentar, com um fiapo de voz.

   Por alguns segundos Matilda fixou seu olhar no de Petrônio, como que para ter certeza que estava fazendo a correlação pessoa-fato corretamente, e num movimento rápido dos braços, desfere três bofetas ( splaft, splaft, splaft ) no rosto de Petrônio que, desprevenido, ficou sem ação para impedir os bofetões. A reação de Matilda foi tão inesperada, que Petrônio continuou paralizado e de olhos arregalados. Matilda, que nessa hora deixou escorrer um filete de lágrimas dos olhos, vendo o estado patético daquele homem à sua frente, tomada de uma fúria avassaladora, agarra-o pelos colarinhos, puxa-o para dentro de casa e, juntos, se jogam sobre o sofá. Sussurrando palavras incompreensíveis, entrelaça suas coxas nas de Petrônio, junta seus lábios aos dele e, ali mesmo sobre o sofá, fazem amor.

   Atordoado com a rapidez dos fatos e com aquele gesto inusitado, Petrônio consegue, aos poucos, recompor-se e tenta encaixar as idéias novamente no lugar. Tenta iniciar um diálogo com Matilda que, agora, encontrava-se chorando de soluçar. Que situação!, pensou Petrônio. Olhando para Matilda, pergunta o que houve e obtem como resposta - "Não sei, de repente veio um monte de imagens na minha cabeça. Ao mesmo tempo que sentia raiva, sentia alegria. Me descontrolei".

   Após alguns instantes se arrumando, Petrônio e Matilda iniciam uma longa conversa, colocando em dia toda uma história que começou a anos passados. Ao final da conversa Petrônio já chamava Matilda, de Tilda, apelido carinhoso que havia lhe dado na época de namoro, lá no bairro do Encantado. E Matilda, para corresponder, chamava Petrônio, de Pê.

   A conversa ia agradável e se prolongando já até o meio da tarde. Petrônio explica para Matilda que, durante esses anos todos passados, fez de tudo um pouco, mas o que ele gostava mesmo era compor samba e pagode. Ganhou algum dinheiro quando, em parceria com Orelhudo e Messias, fizeram um samba para a Estácio de Sá e foram campeões no desfile do segundo grupo. Últimamente andou compondo, juntamente com mestre Messias, samba de raiz e pagode, para os cantores Martinho da Vila, Alcione, Dona Ivone Lara ( in memorian ), Jovelina Péroloa Négra ( in memorian ) e Zeca Pagodinho.

   Matilda, por sua vez, conta que durante alguns anos ficou, juntamente com a irmã Cacilda, morando com os pais, lá no Encantado mesmo. Como a situação finaceira dos pais só foi piorando, visto que seu pai era funcionário público, trabalhando na Companhia de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro - Comlurb, cujo vencimento estava sem reajuste a muito tempo, foi obrigada a sair à cata de emprego. Achou só trabalho e assim se tornou passadeira de roupa. Depois encontrou o Melgaço na quadra da Portela e por lá ficou. Cacilda, sua irmã, continua solteira, mas é uma "ficante" assumida. Não quer compromisso sério com ninguém.

   O tempo passava rápido e Petrônio, preocupado com a possibilidade de encontrar Melgaço retornando para casa, ameaça arranjar uma desculpa para ir embora. Matilda, agora muito mais esperta e vivida, percebendo as intenções de Petrônio, vai logo na jugular:

   - Tá com medo de que, meu neguinho? Fique frio que o inquilino da casa só chega à noite. Disse Matilda, cheia de sí e com o contrôle da situação.
   - Não é isso Tilda. Fico receoso de complicar sua vida de novo. Não quero ver você triste nunca mais. Tenta justificar Petrônio, fazendo a Matilda se sentir uma verdadeira rainha.
   - Sabe de uma coisa, Pê. Por mim ia embora desse barraco agora mesmo. Não aguento mais essa dureza de vida. Para não perder a ternura, a vida não pode ser tão dura. Acho que Che não sabia o que era dureza. Matilda quase suplica para Petrônio levá-la dali.

   Petrônio, percebendo a situação e as intenções de Matilda, começa a dar as cartas:

   - Mas, Tilda, como fica a situação daquele cabeça chata? Petrônio mostra, logo, quais são suas preocupações e suas futuras intensões.
   - Ô Pê, não fala assim dele não. Ele sempre me tratou muito bem, na medida que sua condição financeira permitia. Matilda fala já com uma certa dó de Melgaço.
   - Mas se nós formos ficar juntos, quero que você esqueça que ele existiu. Nunca mais toque no nome dele. Entendido? Petrônio tenta já botar moral.
   - E tem mais, quem era aquele sujeito branquelo que, lá no bar da quadra, pagou sua bebida? Petrônio estava com a corda toda, se sentido o dono do pedaço.
   - Credo, Pê. Eu só disse que ele me tratava bem, na medida do possível. Só isso....
   - E o branquelo que pagava sua bebida?
   - Quem? Não sei de quem está falando, Pê.
   - Então vou te ajudar a lembrar. Aquele branquelo, vermelho de praia, que no final do ensaio lhe deu um cartão e você colocou-o dentro do soutien. Disse Petrônio, com um certo ar ciumento.
   - Ahh, agora tô lembrada. Era um certo Coronel X. Nunca vi mais gordo. Apareceu naquela noite e me pagou a água mineral. Nunca mais ví e nem sei mais como era.
   - Então está bem. Não precisa nem arrumar suas roupas. Vamos embora para minha casa agora. Vou comprar um enxoval novo para você. Disse Petrônio, crente que estava abafando.

   Matilda não se aguentando de alegria, pede para Petrônio sair na frente e diz que vai no quarto pegar sua caixa de maquiagem. Petrônio sai, sobe de volta a escadaria e fica esperando na esquina da rua de cima. Matilda, já no quarto, pega a caixa de maquiagem, um cartão de telefone e uma folha de um bloco de cartas. Rapidamente escreve o seguinte bilhete para Melgaço, cheio de frases clichês:

   Querido Mel, meu moranguinho do nordeste.

   Vou deixá-lo agora, não me leve a mal, mesmo sendo hoje quase véspera de carnaval.
Foi eterno enquanto durou, mas agora acabou.
Um novo amor a gente inventa, ...se iludindo menos e vivendo mais.
Beijos de sua ex - Matilda

   Sai correndo, fecha a porta do barraco e vai até o orelhão mais próximo. Tira de dentro do soutien um cartão de apresentação e decora o número do celular ali escrito. Coloca o cartão de telefone e disca 9999-8888:

   - Coronel X, é Matilda quem está falando. Não tivemos muito tempo para conversar naquele dia, na quadra da Portela. Por isso, estou deixando essa mensagem na sua secretária eletrônica. Gostei de te conhecer e gostaria de conversar mais. Que tal no carnaval? Vou passar no interior do Espírito Santo, em São José do Calçado. Te espero lá. Um beijo. Sua, quem sabe um dia, Matilda.

   Petrônio já estava ficando impaciente com a demora, quando Matilda chega esbaforida. Inventa um desculpa qualquer, abraça o agora seu, Petrônio, e sai "agarrada, que nem confete, nas cadeiras do Petrônio" pelas ruelas do morro.

Finalmente FIM

Agradecimentos:

   - Ao Melgaço, por sua fibra de retirante que, apesar dos pesares e das estatísticas, venceu a morte anunciada na dureza da vida, no sertão nordestino. Perdeu a Matilda, mas sempre resta uma esperança;
   - Ao Coronel X, por sua coragem em esclarecer como foi sua carreira militar e as mazelas do regime linha dura. Aliás, que fique registrado, após "vestir o pijama", já no Rio de Janeiro, Coronel X ainda desempenhou algumas funções burocráticas no Quartel da avenida Barão de Mesquita, na Tijuca, por influência de um velho general, conhecido de seu pai.
   - Ao FCastro , criador do personagem Petrônio, Cacilda e Matilda, e um dos fundadores do bloco TÔ BEBO, de Jardim da Penha. Fica aqui desafiado a compor uma marchinha para o próximo matinê do Montanha Clube
   - A quem leu a trilogia Petrônio, Coronel X e Melgaço, pela paciência de esperar a última parte e
   - A quem não leu, por não ter perdido o seu tempo.


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br


 

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