PREFEITO DO INTERIOR, SOFRE...!!!



    Ser Prefeito de uma cidade do interior não é nada fácil, muito pelo contrário. Aparecem tantos problemas a serem resolvidos, além dos inerentes à própria administração pública, que a jornada de trabalho se prolonga, às vezes, até de madrugada.

   Diferentemente do que ocorre nas grandes cidades, onde certos problemas nem chegam ao conhecimento do Prefeito, na cidade pequena todos os problemas acabam, de um jeito ou de outro, tendo que ser resolvidos pelo Prefeito. Na maioria das vezes esses problemas são de ordem pessoal ou familiar, e o Prefeito, somente ele, tem que ter jogo de cintura para resolve-los da melhor forma possível. Muita das vezes, a resolução de um problema agrada a quem o solicitou, mas desagrada a um vizinho do Prefeito, por exemplo. Numa cidade grande, pelas dificuldades de um contato direto com o Prefeito, esses problemas são, geralmente, resolvidos por assessores ou pelo segundo escalão, quando chegam até esse nível.

   Certa feita, numa noite do mês de junho, encontrava-se meu pai, Antônio Borges, na época Prefeito de São José do Calçado, já no terceiro sono, quando todos na casa acordamos ouvindo alguém chamar pelo papai. Quem poderia ser àquela hora da madrugada e naquele frio todo? Fazíamos, todos, a mesma pergunta. Papai levantou resmungando, vestiu uma calça e uma camisa de mangas compridas e se dirigiu para a porta da sala.

   Na calçada, junto ao portão de entrada de nossa casa, encontravam-se, em estado etílico lastimável, João Marques e seu filho José Marques ( Zé Muáfa ). João Marques, que trazia consigo um violão, mais chorava que falava, e seu filho Zé Muáfa carregava a capa do violão.

   Com muito custo e falando entre um soluço e outro, João Marques tenta explicar ao papai o porque da visita. Começa a falar do irmão, Tião Marques, mas nem consegue terminar, pois volta a chorar que nem uma criança. Então Zé Muáfa, vendo o desespero do pai, resolve encurtar a conversa. Diz que o pai dele estava querendo fazer uma serenata para o Tião Marques, lá no cemitério. O problema era que o vigia não queria abrir o portão do cemitério. Disse o Zé Muáfa que o vigia só abriria o portão com autorização do Prefeito.

   Papai para se livrar rapidamente dos dois, diz que eles tinham autorização para entrar no cemitério e fazer uma serenata rápida, para não perturbar o sossego dos outros inquilinos. Os dois já estavam entrando no carro quando o João Marques, lembrando de alguma coisa, virou-se para o papai e convidou-o para acompanha-lo até o cemitério. Era para o caso de o vigia não acreditar neles e, assim, não ter o trabalho de voltar para pedir nova autorização.

   Papai tinha vários motivos para declinar o convite, mas resolveu alegar que não podia acompanhá-lo, pois tinha uma viagem para Vitória logo cedo. João Marques entendeu outra coisa ou, talvez, conhecendo bem o papai, disse que não havia problema, pois ele estava com uma lanterna bem grande. Não deu tempo do papai contra-argumentar, João Marques recomeçou a chorar e sentou no degrau do portão. Não teve jeito, e lá se foi o Antônio Borges, João Marques e Zé Muáfa para uma serenata no cemitério de Calçado.

   Chegaram no cemitério e até parecia que o João Marques tinha melhorado de seu estado geral. Desceram do carro e foram até o portão. No portão, o vigia já foi logo avisando que para entrar, só com autorização. Papai, que ainda estava dentro do carro, disse ao vigia que ele estava autorizado a abrir o portão e deixar os dois fazerem uma visita ao túmulo do Tião Marques.

   - Nós dois só, não. Vamos nós três, Antônio. Disse João Marques, retornando até o carro e levando o papai junto para dentro de cemitério.

   Já que não seria possível ficar dentro do carro e fora do cemitério, o jeito foi papai convidar o vigia para ir junto. Afinal, para o local, quanto mais gente, mais "tranqüila" seria a serenata. Papai não era e continua não sendo uma pessoa desprovida de medos. Tinha-os e continua a tê-los, mas se não precisasse usá-los, seria melhor.

   Achar o túmulo foi até fácil, pois o vigia conhecia aquilo ali na palma da mão. João Marques cantou alguns trechos de músicas, acompanhado ao violão pelo Zé Muáfa. Ao término de cada música, dizia, virando para o túmulo do Tião Marques: "Essa é p'ra você, meu irmão". De repente, a lanterna, que estava deitada sobre um outro túmulo, mas com o foco virado para o túmulo do Tião Marques, caiu e desligou. Criou-se um certo clima de suspense, mas logo o vigia achou a lanterna e tudo ficou iluminado novamente.

   Depois do terceiro tombo da lanterna, sem que ninguém a houvesse derrubado, papai, já meio cabreiro com aquela situação, por sorte achou a lanterna, mas não falou, de imediato, que havia achado. Sem que ninguém percebesse, retirou as pilhas e as jogou fora. Então, virou-se para o João Marques e disse que havia encontrado a lanterna, mas que, desta vez, não estava acendendo, havia estragado. O jeito seria ir embora dali....

   Para surpresa do papai, João Marques concordou. Deu-se, então, o seguinte diálogo:

   - Sabe, Antônio, eu já esperava por aquilo.

   - Aquilo, o que?, perguntou papai.

   - A lanterna cair a toda hora. É sempre assim, toda vez que venho fazer uma serenata para meu irmão, acontece alguma coisa e eu não consigo cantar todas as músicas que ele gostava.

   - Hem!!! Exclamou papai, que tratou de apressar os passos em direção ao portão, desvencilhando dos túmulos, até chegar no carro.

   João Marques deixou o papai em casa e foi embora, junto com seu filho Zé Muáfa. Nem parecia o mesmo de 1 hora atrás. Estava aliviado, pois tinha cantado algumas músicas para o irmão morto, cumprindo, assim, uma rotina anual.

   O problema foi resolvido e, dessa vez, o solicitante saiu agradecido ao Prefeito e este não desagradou a ninguém, a não ser os inquilinos do cemitério. Naquele mesmo dia, às 5:30h da manhã, papai viajou para Vitória, sendo o motorista o Caveira ( Sodré ). Não houve jeito de tirar nem uma pestana durante a viagem.


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br


 

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