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Foi o Pedro Eduardo, sem querer, quem me botou
o apelido de Pachico. Não foi um apelido daqueles usuais,
considerados normais, que os pais colocavam nas crianças,
como uma simplificação dos nomes ou uma maneira
carinhosa de tratá-los. Não, não, esse era
de outro tipo, daqueles pejorativos, usados entre os moleques,
injuriosos, com intuito de agredir, provocar, ofender, chamar
para briga, etc., etc.. Sempre que passava pelo Alambique, transportando
cana no seu carro de boi, e me via por ali perambulando, o Pedro
costumava repetir, com aquele seu vozeirão de trovoada:
"Esse menino é a cara do sô Cachico!".
Os Eduardo eram os carreiros mais presentes
na época da safra de cana no Alambique da Fazenda Velha.
Podia-se vê-los chegando a toda hora com seus carros abarrotados
de cana, descarregando e saindo de novo para novas viagens. Eles
se pareciam, mesmo tipo físico, altos, atléticos,
retintos na cor preta, idades entre 30 e 40 anos, e eram todos
filhos do Eduardo, que fora carreiro por muitos anos, talvez desde
os tempos da escravidão, do velho Pedro Nolasco Viera de
Rezende, na Fazenda da Segunda.
Pois os filhos, que carregavam como sobrenome
o primeiro nome do pai, eram também igualmente a ele reconhecidos
como ótimos profissionais, carreiros competentes, eficientes,
conhecedores profundos da arte do ofício, das manhas e
dos segredos dos bois, e de como lidar com eles para tirar o melhor
proveito.
Não sei se por coincidência ou
por que outro motivo, mas os Eduardo agora eram todos carreiros
dos filhos do velho Pedro Nolasco. Até podia parecer que
foram deixados também como parte da herança, cada
herdeiro levou o seu. O Pedro, o mais preto e mais beiçudo
deles, um legítimo africano puro-sangue, era o carreiro
do Mané Vieira, o Lúcio Eduardo do seu Zezé
Vieira, o seu Tuta Eduardo da dona Lota e o Mané Eduardo
o do Chico Vieira. Este, o Mané, diferentemente dos demais
que eram vistos sempre sóbrios, de vez em quando enchia
a cara de cachaça, tomava um porre homérico e, tonto
como um gambá, ficava caído e dormindo junto à
bagaceira do engenho, completamente imprestável para o
serviço.
Esse negócio de apelido injurioso era
uma droga e funcionava bem para aqueles que nos queriam provocar
quando a gente reagia ou mostrava-se aborrecido. E isso era o
mais comum no nosso meio de moleques safados que, não obstante
as amizades, tínhamos prazer em tesar uns aos outros. Por
exemplo, entre os companheiros, o Jaime virava uma fera quando
o chamavam de Cabeção, para o Donda era a maior
ofensa se o chamassem de "Olho de boi", e tinham ainda
outros, cujos nomes me esqueço agora, mas dos apelidos
não, o Bundão, o Caveira, etc.. Eu fiquei conhecido
como o Pachico.
Na verdade foi uma forçada de mão
dos sacanas, pois o que o Pedro Eduardo queria dizer mesmo era
que eu parecia com o seu Cachico. Como ninguém sabia quem
era o seu Cachico, aproveitaram e fingiram entender o nome como
Pachico, não podiam perder a oportunidade. O Pachico, todo
mundo conhecia, era um ajudante de carreiro, que ajudava descarregar
cana, um sujeito muito feio, branquelo, meio torto, baixote, pernas
arqueadas de cambota, careca, um homem horroroso. E assim me vi
envolvido nessa trama dos apelidos e eles diziam que eu era a
cara do Pachico. Quando queriam me agredir e machucar era "Oh
Pachico! Seu viado, seu isso, seu aquilo, feioso, seu merda, e
não sei mais o quê!" Uma droga, me aborreci
muito e andei mesmo perdendo a linha e dando umas boas brigas,
saindo no braço com alguns dos mais atrevidos.
Se a gente não fosse tão mal informada,
provavelmente a história teria ocorrido diferente. Afinal
quem era esse tal de seu Cachico que ninguém conhecia?
Fui descobrir muitos anos mais tarde e fiquei
surpreso. Tinha sido um homem importante e respeitado em Calçado,
fazendeiro de muitas propriedades, prestigiado, pai dos Camargo
Teixeira e avô dos Garcia e dos Campos, e de outras famílias
que povoavam o Município, pessoa muito querida. Nunca fiquei
sabendo se o Pedro estava ou não com razão, e se
de fato eu parecia com ele. Entretanto, o que o carreio dizia
não devia ser totalmente fora de propósito, pois
o seu Cachico era meu parente, tio de meu pai, conhecido como
Cachico Teixeira, irmão do meu avô Cajão Teixeira,
ambos filhos do saudoso Tenente Coronel João Teixeira de
Siqueira Magalhães, homem importante, um dos primeiros
habitantes do Município. As terras do Vovô Teixeira,
outro nome como era conhecido o Tenente Coronel, deviam abranger
uma vasta área, pois pelo que sei que ficou para seus herdeiros
dá para imaginar, num chute, quase toda a bacia do Córrego
do Jacá, desde as proximidades do alto do Pontão
até próximo de Calçado, uma vasta área
do Córrego da Areia, uma parte do Jaspe, um pedaço
grande do Bandeira, e não sei se também terras lá
para os lados de Guaçuí.
Se eu soubesse antes tudo isso, provavelmente
ia me orgulhar de parecer com o tio Cachico.
Sobre os apelidos da dupla Cachico e Cajão,
que como se pode perceber soam bastante estranhos e que nos deixam
intrigados, certa vez conversando com um primo, neto do Cachico,
Desembargador Dr. Carlos Campos, ele me deu uma explicação
bem plausível. O Cachico chamava Francisco e tinha o apelido
de Chico, o Cajão chama-se João e tinha o apelido
de Jão. Na hora do almoço, quando eles estavam brincando
no quintal, o pai, o velho João Teixeira, os chamava da
janela, gritando: "Cá Chico!, Cá Jão!,
Cá Chico! Cá Jão! Vêm almoçar!"
Como a coisa se repetia sempre, os empregados, ou talvez os escravos,
isso não sabemos ao certo, começaram a chamar os
meninos de Cachico e Cajão.
Vila Velha, junho de 2004
H.
Teixeira de Siqueira
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