O Sr. TAKEMOTO



   No início dos anos 80, quando saí da CVRD e ingressei na CST trabalhei com o Sr. Takemoto em um grande projeto de elaboração de procedimentos operacionais de computadores. Eu era gerente da área de operação dos computadores e êle, assessor técnico do diretor geral do empreendimento, acompanhava de perto o trabalho de todos os grupos. Apesar da longa experiência como engenheiro de sistemas na maior siderúrgica do mundo, o simpático oriental parecia ter grande dificuldade para assimilar conceitos básicos que até nossas crianças tiram de letra. Lembro-me que, em uma reunião semanal de acompanhamento de projeto, travamos um diálogo mais ou menos assim:

Sr Takemoto: Arumiru San, actchibidatchi X porontu?

Eu: Sim, Takemoto San, a atividade X está praticamente pronta.

Sr Takemoto: Êeto né, paratchicamentchi porontu mesmu qui porontu ?

Eu: Bem, não exatamente. Praticamente pronta significa pronta para todo propósito prático. Ou seja, está 99% pronta, falta apenas um ajuste fino, tuning, coisa de, no máximo, mais um ou dois dias, OK?

Sr Takemoto: Uhmmmmmm, fáruta tuning. Entón, non porontu, né ?

Eu: Pelo amor de Deus, Takemoto San, como não pronto ? Estou acabando de lhe dizer que a atividade está quaaaaaase pronta, faltam apenas detalhes muito pequenos !

Sr Takemoto: OK. Arumiru San diz casi porontu, né ? Entón, podi usá ?

Eu: Takemoto San, preste atenção. Eu não disse que o resultado está disponível para uso. Eu só disse que para propósitos de acompanhamento podemos considerá-la efetivamente pronta, uma vez que, com certeza, no próximo ciclo de acompanhamento deverá estar completamente pronta.

Sr Takemoto: Uhmmmmmm, efectchibamentchi porontu. OK, Arumiru San diz poróchima semana tuuuuudo porontu, né ?

Eu: Isso mesmo.

Sr Takemoto: Mas, oji non porontu, né?

Eu: Takemoto San, deixa ver se eu explico melhor. Realmente não está 100% pronto (a hundred percent no, OK?) mas daí a dizer que não está pronto me parece um grande exagero, aliás, até uma grande injustiça, porque você mesmo é testemunha do esforço que a equipe está fazendo, certo? E afinal, falta tão pouco para concluir que eu acho....

Sr Takemoto: Arumiru San, sumimassen, sumimassen. Eu muitu confuju. Buraziru muitus situaçon, ahhn sim, obirigadu, muitus situaçon de actchibidatchi. Casi porontu, basicamentchi porontu, paratchicamentchi porontu, efectchibamentchi porontu, comperetamentchi porontu, né. Japon só dois situaçon... porontu, non porontu.

Eu: Meu caro Takemoto San, eu entendo o seu ponto de vista. Eu só acho que a atividade está tão próxima de ficar completamente pronta , que é como se estivesse, embora não esteja. Agora, dizer simplesmente que ela não está pronta me parece um absurdo, entende?

Sr Takemoto: So des né, Progress Riporto shitu só spassu muiiiitu pequenhu corocá rizutadu. Non podi escrebi esse coisa Arumiru San diz, paratchicamentchi porontu, efectchibamentchi porontu, ba, ba, ba...Só podi porontu, faz tíquetu assim ó, o non porontu , decha spassu burancu.

Eu: É, entendi. Só que a gente tem pelo menos umas três ou quatro atividades nessa situação, quaaaase fechando. E aí, sabe o que vai acontecer ? A gerencia pega o Progress Report e vê lá... não pronto, não pronto, não pronto,....o que eles vão dizer? Porra, esse pessoal não trabalha não ?

Sr Takemoto: Óóóóóhhh.....

   O japonês , em geral, reserva o Óóóóóhhh para demonstrar grande surpresa ou incredulidade. Acredito que esse , em particular, queria dizer "Espera, brasileiro terceiro mundista, saindo daqui vou direto ao meu diretor dizer que esse projeto está fora de controle ".

   Eu gostava do Sr. Takemoto e considero uma pena que ele tenha voltado para o Japão sem ter compreendido a beleza e sobretudo a necessidade de uma lógica não binária de múltiplos estados que incorpora, além dos estados básicos sim e não, estados intermediários importantes como "falta coisa prá cacete" , "meia boca", "tá indo", "assim assim", "sentando o pau", "quase fechando", "praticamente pronto", etc.

   O que o Sr. Takemoto não entendia é que quando alguém avalia sua atividade como não pronta , a auto estima baixa, você se sente incompetente, incapaz e, naturalmente, fica estressado. A gerência fica nervosa, impaciente... O que será que esse cara está fazendo? Trabalhando não deve ser....Já quando você está "sentando o pau", com certeza ainda não acabou, mas a sensação é de que você está a caminho, a pleno vapor! "Quaaase fechando" é melhor ainda. A gerencia relaxa e você vai para uma zona de conforto psicológico que lhe permite auferir alguns dos bônus da conclusão, mesmo sem ter concluído. Não é genial ? Pois é, não admira que Sr. Takemoto precisasse recorrer ao Kempo (o baixinho era faixa preta, 4º dan) e ao zen budismo para tentar encontrar um pouco de paz interior.

   Takemoto San pouco esteve ou conheceu minha mulher, mas eu e ela entendemos e praticamos intuitivamente essa lógica multi estado, e isso, de repente, é a chave da estabilidade do nosso casamento. Por exemplo, quando ela grita lá de dentro "Estou quase pronta, pode ir tirando o carro da garagem" eu sei exatamente o que fazer. Levanto disciplinadamente do sofá e caminho em direção a garagem porque, afinal, ordens conjugais são para ser cumpridas e não discutidas. Porém, vou em um ritmo tal que me permite acompanhar a última meia hora do jogo na TV e de quebra o replay dos melhores momentos, enquanto ela, diante do espelho, muda de idéia sobre o vestido mais umas cinco ou seis vezes. Isso se chama sintonia fina, não é perfeito? Pobre Sra. Takemoto !

Tradução:
San - senhor
Sumimassen - desculpe
So dês ne - Ah bem...
Êeto né - bem, então...

Vitória, 30 de junho de 2004.

Almir Lobo de Aguiar
alobo@cst.com.br



 

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