Uma flor e seu príncipe encantado


    Encontrava-me organizando minha bagunça sobre a mesa de trabalho, já no final do expediente de uma sexta-feira fria de julho. Lá fora já havia escurecido e uma garoa bem fina, acompanhada de um vento gelado açoitava uma meia dúzia de gatos pingados "abrigados" em um ponto de ônibus. Aqui em Vitória os abrigos dos pontos de ônibus não protegem nem em dia de sol a pino, quanto mais em dia chuvoso.

   Antes de desligar meu computador, resolvi acessar o broinha.com para ver as últimas novidades, coisa que para muitos broinhas, eu inclusive, é quase que uma obrigação, um dever de casa. Fui direto no chat. Que chateação! Não encontrei ninguém. Se tivesse entrado uns cinco minutos mais cedo teria encontrado um tal de "assumido". Que nick mais esquisito e de múltiplas suposições!

   Fiquei por uns longos três minutos contemplando o nada, ali diante daquela tela fria, onde só o que se movia era o cursor piscando. Senti como se estivesse lá em cima da Pedra do Jaspe, olhando para Calçado e quase implorando para que alguém fizesse um aceno que fosse. Nada, ninguém afim de um bate-papo naquela sexta-feira friorenta.

   Porém, segundos antes que eu apertasse o botão para sair do chat, surge uma Flor. Seria uma Flor-de-noiva? Flor-de-pérolas? Flor-do-norte? Ou uma Flor-de-Lis? Pela solidão daquele chat, provavelmente seria uma Flor-de-Lis. Certamente uma flor de pessoa.

   Digo para a Flor que meu computador tem placa-mãe, placa de rede e placa de som, mas que, infelizmente, não tinha placa de olfato. Ficaria mais fácil reconhecê-la. Seria interessante uma placa de cheiro! A Flor, achando que eu estava me assanhando muito, cortou logo o papo, dizendo que era uma velha e fedorenta. Não dei atenção àquela mentira mais deslavada e perguntei o que uma flor estaria fazendo àquela hora, numa sexta-feira, no chat. Ela me responde que estava sozinha e precisando de companhia, estava aguardando um príncipe encantado montado sobre um cavalo.

   Como eu não sou príncipe e nem tenho um cavalo, argumentei que esperar por um príncipe era até possível, mas que este viesse montado num cavalo, aí seria querer demais. E para implicar, eu disse que cavalo "azalão" já nem existia mais. Imediatamente corrigi, dizendo que não era "azalão", mas alazão. Ela respondeu que achava que eu tinha escrito cavalo azulão. Então eu disse que cavalo azulão só se o príncipe que ela estava esperando fosse cigano, para disfarçar a idade do cavalo.

   Conversa vai, conversa vem, a Flor insistia para que dissesse quem eu era, de onde estava teclando, se conhecia o 514, etc. Eu respondi que se fosse para informar o nome, não haveria necessidade de escolher um nickname, but, only name! Ela retrucou meio enfezada, dizendo que aquele chat era de família, não havia segredos. Respondi que já conhecia a fama de não haver segredos no chat, uma vez que o dispositivo "reservadamente" é o fofoqueiro-mor do site. Tudo ouve e a todos repassa o assunto! Respondeu-me com um leve sorriso (rsrs) de concordância.

   De tanto a Flor insistir, disse que estava teclando de Vila Velha, mas estava de saída para Vitória. E que, quanto ao 514, não conhecia nem o 415. Ela, séria, diz que não estava brincando, pois o 514 era um amigo. Perguntei, então, se tinha cara de tabuada para saber os números de seus amigos de forma decorada. Respondeu-me com um sorriso (rsrsrs) sem jeito. Acho que ela desistiu de saber quem eu era, pois voltou a falar no seu príncipe encantado.

   Sugeriria a Flor que mandasse aquela melancolia para longe, sacudisse o casaco e mandasse o frio para qualquer parte do Brasil. Em seguida, vestisse uma bela roupa e fosse para uma festa qualquer. Chegando lá, dançasse bastante e depois de certa hora, saísse à francesa, tomando o cuidado de deixar um pé do calçado para trás. Muito provavelmente na segunda-feira, o interfone de seu apartamento tocaria. Alguém, provavelmente seu príncipe, estaria pedindo permissão para subir, levando um pé do sapato que você "perdeu" na festa.

   Também, muito provavelmente, ele não viria montado em um cavalo alazão (nem tudo que se quer, se consegue!). Como não se constroem mais castelos e os que existem já estão ocupados há várias gerações, bem como andar a cavalo numa cidade tornou-se uma tarefa perigosa, seu príncipe viria montado sobre vários cavalos, aproximadamente uns 650, todos vermelhinhos e brilhando, coisa de uns quatrocentos mil reais, no barato.

    Não cheguei a escrever estes dois parágrafos acima para a Flor, pois o meu tempo já estava se esgotando. Mas fica dito agora. Os tempos são outros, disso ninguém tem dúvidas, mas os príncipes sempre existirão, na realidade ou na imaginação, isso não importa. O importante é termos sempre esperança que um dia eles chegarão.

   Tchau Flor, e não se esqueça, sexta-feira é dia de comprar sapatos e segunda-feira é sempre um dia de possíveis novidades...

Gilberto Vieira de Rezende
calcadense@bol.com.br


 

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