Quem morou para os lados do campo de futebol da Fazenda Velha
saberá à qual árvore estou me referindo.Quem
passou pela estrada asfaltada,a pé ou de carro,também
pode ser que se lembre dela,pois não estava longe da
beira do barranco.Nunca procurei saber seu nome.
Erguia-se isolada,tronco enorme,tanto em largura quanto em altura,e
reto; atrás,mas afastada,dos paus do gol.Já disse
que não sei quê árvore era: se um jequitibá,
se um ipê ou um pau-ferro.Sei que era uma árvore
maltratada,abandonada,fora atingida por um raio na parte de
onde partiam os primeiros ramos de mesquinha folhagem,e o pretume
do carvão ficou nela gravado como uma cicatriz do fogo
que começou a queimá-la mas logo foi debelado,não
sei se por uma chuva providencial ou por alguém que zelava
por sua segurança.Como se já não bastasse
essa desgraça,ainda era afligida por moitas de erva-de-passarinho
em forma de cabeleira pendente,que de tão grande quase
se arrastava pelo chão,qual nova Medusa,cujas serpentes
tivessem sido substituídas por menos apavorantes projeções
vegetais,porém mortais igualmente.
Isolada que era,constituía uma parada de descanso para
os passarinhos que cruzavam os ares daquelas cercanias; os quais
se encarregavam de semear mais pragas na árvore, inconscientemente
maléficos para muitas árvores individuais mas,no
todo, benéficos para as espécies que ajudavam
a propagar,ao lançar as sementes semidigeridas junto
com suas fezes.
Mas a virtude maior dessa árvore era a de constituir-se
em berçário de não sei quantas famílias
de melros.Embora os moradores próximos pusessem escadas
na árvore e retirassem os filhotes para criar,os melros
teimavam em fazer ninho ali,como se impelidos por uma fatalidade.
Acaricio também uma hipótese bastante quimérica,
bem o sei: uma relação entre as aves e nós,em
que elas pactuaram conosco uma dádiva em forma de criaturinhas
tão alegres,tão festeiras e festivas,que estremecem
e arrufam todo o corpo como que tomadas por um transe mediúnico,quando
a mão amiga está próxima—criaturinhas
a nós ofertadas de tempos em tempos em troca de uma proteção
à árvore.Ou então aquela árvore
tivesse algum encanto especial para eles,misteriosos e melodiosos
melros, que os humanos nunca lograram apreender.Digo isto porque
os melros estão entre os mais inteligentes dos passarinhos
e só um motivo muito especial os levaria a fazer ninho
nela,sabendo do triste destino que teriam seus filhotes.
Essa árvore não existe mais. Talvez só
os melros sintam sua falta.
Teresópolis, 5 de dezembro de 2006.
Carlos Rezende