A bunda da Scarlett Johansson e a Lua cheia são iguais



Estava eu passando pelo site do Uol na noite do dia 16 de dezembro,atalho que às vezes tomo a caminho do Broinha.Num daqueles quadrados em que sucessivas fotos são mostradas,vejo o rosto da Scarlett e páro,queixo caído de embevecimento.

Saído da estupefação, começo a juntar idéias.Bem,não tem a milimétrica regularidade de traços do da Sharon Stone.

Faço uma pesquisa por mais fotos suas.Vejo-a ao lado de outros artistas no degrau duma escadaria.Seus joelhos são grandes como os de uma camponesa e há uma vermelhidão neles de empregada doméstica que passou o dia a esfregar o chão.Outras fotos.Vejo-a de frente,num vestido muito decotado.Não há dúvida: suas feições são mesmo um tanto pesadas e seus seios demasiado volumosos para nós,latinos.Embora nascida na cidade de Nova York,sua ascendência nórdica fica patente no físico,não bastasse o sobrenome.As mulheres nórdicas,mesmo as mais bonitas, têm uma particularidade que as deixa em desvantagem em relação àquelas mais mediterrâneas,em minha avaliação: possuem um excesso de ossos,quanto ao volume.Daqui provém o seu aspecto mais tosco,na falta de adjetivo mais suave.E é,reconsiderando,nem demasiado nórdica,a Johansson.Mas Sharon Stone,que sem dúvida nasceu umas poucas latitudes mais baixas,aproxima-se mais da beleza mediterrânea.

Continuei a ver mais fotos da Johansson,quando me deparei com aquela beleza que nos tira automaticamente a exclamação “meu Deus!”.Era a foto de sua bunda.Examinei-a durante um bom tempo.

Vi que nada havia de artificial nela.Nem sombra de silicone.Nada daquele bronzeamento de mulher brigada com a brancura de sua epiderme.Tão natural sua bunda que podemos ver umas veiazinhas azuis na pele muito alva—e até um comecinho de estria e flacidez.Enfim,nada que um pouquinho de exercício não resolva,por algum tempo.Sei bem que virá o dia em que nem mesmo isso lhe adiantará—e então ela terá que se conformar com o que ela amealhou,para além daquilo que uma maravilhosa bunda lhe deu.E quanto a nós,observadores do belo,teremos que traí-la e volver nossos olhos para outras bandas e bundas.

A próxima seqüência de pensamentos,que,aliás,não previ,e que só retrospectivamente chamo de seqüência,foi a lembrança de haver lido meses atrás uma crônica do Arnaldo Jabor com o título:”Meditações diante do bumbum de Juliana”.

Devo dizer que discordei do Jabor em alguns pontos.Mais discordei do que concordei,o que é uma temeridade em relação a um homem que já foi cineasta e esteve,portanto,rodeado de beldades.Admiro a coragem dos pontos de vista do Jabor.
Jabor escreve que o Brasil inteiro ficou aguardando ansiosamente que a bunda da Juliana Paes fosse publicada na revista Playboy.E admira-se de ter ficado decepcionado,pois a bunda da atriz de telenovela parecia prometer mais beleza:”Afinal,verificamos que era apenas uma bunda e não um enviado de Deus”.
Freqüentemente as nossas expectativas são absurdas,não guardam qualquer proporção com aquilo que é razoável esperar.Evidentemente que se um indivíduo espera que uma bunda seja um acontecimento tão excepcional quanto a vinda de um mensageiro de Deus,mesmo descontando-se a ironia implícita no comentário,ele fatalmente será decepcionado.O problema não é da bunda e sim da cabeça um tanto extravagante do cronista mais lido do Brasil,no momento, e não imerecidamente.

Na esteira da sua extravagância,foi ele,Jabor,ainda mais longe e sentenciou:”Daí,me bateu a verdade inapelável e cruel:a bunda não existe.Só existe a “idéia” de bunda,o conceito platônico de bunda”.Outro absurdo.A bunda é tão real ou irreal quanto uma cabeça ou um pescoço.Por que uma bunda seria uma “idéia” platônica e um pé, não?Outra reação irracional provocada por uma esperança sem medidas.

Por que não nos contentamos apenas com olhar a beleza que passa sem ter necessariamente que possuí-la?Por que chamá-la de banal só por não ser nossa?Por que imaginar que a mãe da Scarlett iria rir de nós, caso lhe disséssemos ver beleza numa bunda que ela tanto viu e em situações de premente necessidade animal?Por que às vezes somos tão severos conosco, se a vida é tão breve e a visão do belo tão rara?Claro que o rosto identifica melhor o ser humano que somos, mas nada há de ridículo ou condenável numa parte desse todo,pois esse conjunto que somos é obra de milhões de anos de evolução,desde que surgiu a primeira bactéria sobre a superfície terrestre.

O filósofo alemão Schopenhauer assombrava-se com a estupidez humana,que vai ao ponto de chamar bela uma “criatura pequena,de pernas curtas,ombros estreitos e ancas largas”.Afirmou que só o instinto sexual poderia explicar tamanha cegueira.Ora,que seja o instinto sexual o propulsor de nosso desejo,digo eu.Será menos real o desejo,será menos belo o seu objeto pelo fato de sua natureza estar ligada ao instinto sexual?Certamente que não.É até uma garantia de sua permanência,assentado que está numa base tão sólida,tão disseminada,tão profunda. É bem possível que toda a Estética,a ciência do belo, tenha por alicerce o instinto sexual,assim como o amor romântico se nutra nesta mesma fonte primeva.

Enfim,não sejamos tão exigentes quando a beleza se nos oferece.A bunda da Scarlett é como a visão da lua cheia numa noite estrelada e quase limpa,quando uma nuvem de repente tolda aquela feminil redondeza e ficamos tão ansiosos por revê-la,que nossa imaginação vem em nosso socorro e nos tira da aflição permitindo-nos vê-la antes que nossos olhos a vejam.

Teresópolis,dezembro de 2006.


Carlos Rezende

 



 

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