A IGREJA E A BANANA



Um dia desses, o Matheus (meu neto de 8 anos) me disse que estava brincando na rua, bem em frente à nossa casa, no bairro da Fiat, em Guaçuí, quando duas moças lhe chamaram, perguntando se ele queria bananas. Ele, um pouco desconfiado e fingindo que não tinha ouvido bem, perguntou o que elas queriam.

Bastante esperto e sempre preocupado em não aceitar objetos de pessoas estranhas, o Matheus ainda permanecia com os costumes da vida que levava quando residia em Vitória. Sabia dos cuidados que deveria ter ao ser abordado nas ruas e sempre me perguntava se, também em Guaçuí, as pessoas eram perigosas. Muitas vezes, disse para ele que, mesmo estando numa cidade do interior, a gente deve tomar cuidado com as pessoas.

- O que vocês estão querendo? – Perguntou, mais com medo do que desconfiado com a atitude das moças.

Elas disseram para ele que estavam oferecendo banana maçã para as pessoas e que gostaria de saber se ele queria uma sacola com as frutas.

Segundo ele, uma das moças era uma freira que trajava roupas de cor cinza e a outra, uma moça muito magra, estava com calças jeans e uma blusa branca. As duas carregavam algumas sacolas cheias de pencas de banana.

- Estas bananas, por um acaso, não estão estragadas? O meu avô falou pra mim que é para não aceitar coisas dos outros, porque pode dar algum problema – Disse o Matheus, com receio de que as duas moças fossem brigar com ele.

- Não se preocupe, menino! Pode ficar tranqüilo que não tem nada de errado com as bananas. Elas são enviadas pelo Nosso Senhor e são bastante saborosas.

- Enviadas por quem?! – Retorquiu o Matheus, estranhando ainda a atitude das duas. Ele não estava entendendo o que elas queriam dizer com “enviadas pelo Nosso Senhor”.

Então, as duas, procurando uma forma mais clara para convencer o Matheus, disseram que estavam entregando as bananas para as pessoas e que, em troca, estavam querendo que essas pessoas fossem à igreja.

Perguntei ao meu neto se ele aceitou as bananas. Ele respondeu, mostrando-me uma sacola com uma penca delas. De fato, eram da variedade maçã e tinham um aspecto de que estavam bastante empedradas.

Não dei muita atenção ao fato e guardei as bananas em algum lugar da cozinha. Alguns dias se passaram e percebi que as tais bananas já deviam estar maduras, pois exalava um cheiro característico. Fui, então, procurar por elas e verifiquei que já estavam estragadas. Chamei o Matheus e mostrei as bananas. Mais que depressa, ele comentou:

- Mas, vovô. A gente também não foi à igreja! Talvez, por isso, o Nosso Senhor não gostou e fez com que as bananas estragassem muito rápido! O pior, vovô, é se a gente tivesse comido as bananas e não tivesse ido à igreja, então, poderíamos ter uma grande caganeira. Ainda bem que as bananas estragaram. Agora, não me sinto culpado por não ter ido à igreja...

Achei interessante a conversa dele. Pois, só aí é que me dei conta do que as pessoas são capazes. Na ingenuidade de uma criança está a porta por onde as pessoas adultas conseguem colocar suas idéias, suas crenças e, até mesmo, outras coisas piores, como é o caso das drogas. Ainda bem que, neste caso, foi apenas uma questão de trocar bananas por orações.

Parece que a Igreja Católica está em crise e tem que oferecer bananas às pessoas para elas irem rezar. Ou, a igreja está cultivando bananas e o povo não sabe. O que está acontecendo? De quem foi a iniciativa de ofertar bananas? Foi da Freira? Foi do Padre? Ou está sobrando bananas na igreja?

É comum, no caso de outras religiões (que já são muitas), os adeptos saíram às ruas com salmos impressos fazendo apelos para conseguirem levar mais pessoas para suas igrejas. Pela primeira vez, vi que bananas também são formas de convencimento.

Marcio Furtado
marciofurt@yahoo.com.br



 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados