A MULHER DO ANEL VERMELHO



Chovia forte. Para sair da solidão do quarto do hotel a moça desceu e se acomodou no lobby para ver gente. Ela ficou observando por um longo tempo as gotas da chuva que caíam sem cessar. Um olhar distante, saudoso... Existiam outras pessoas solitárias por ali e isto não quer dizer que algumas pessoas estavam desacompanhadas. Ela percebeu que essas pessoas estavam tão sós como ela, que por qualquer motivo, viajava sozinha. Solidão é isto. Nem sempre é entendida dessa forma. Solidão é um estado de espírito, um estado da alma de quem prefere ficar com os seus pensamentos, sentindo o que qualquer outra pessoa seria capaz de sentir, mas não de participar. Solidão é estar consigo próprio, sem necessidade de ter gente envolvida com as suas idéias.

Dentre tantos solitários a moça viu um homem de uns 75 anos, também sozinho, sentado em uma das mesas do bar do hotel. Ele estava um tanto quanto apreensivo. Segurava um livro com alguns papéis dentro. Às vezes, levantava-se, um tanto trôpego, talvez meio envergonhado e olhava em direção ao elevador. Parecia que o homem esperava por alguém.

A moça começou a observar. Era a sua forma de se divertir e deixar o tempo passar. A chuva continua forte, intermitente e fazia um barulhinho gostoso.

O elevador abriu e de lá saiu uma mulher de uns 75 anos. Ela veio em direção ao homem e ele levantou-se. Cumprimentaram-se de uma forma comum, arredia. A mulher demonstrava um pouco de acanhamento, no entanto via-se que ela havia se preparado para este encontro. Ela escolheu uma roupa discreta, azul marinho e na mão direita um anel com uma grande pedra rubi. O acessório era o que mais se destacava entre o casal. O homem estava com uma aliança de ouro na mão esquerda.

Começaram a conversar. O homem ouvindo mais do que falando. Os seus olhos estavam fixos nos olhos dela. Ela, de vez em quando, baixava os olhos para não encará-lo. Tudo indicava ser um reencontro, um revival de um passado que ainda não se foi.

O homem, com as mãos trêmulas, abriu o livro que carregava e tirou de lá uma foto antiga, um retrato em preto e branco e mostrou para a mulher no anel vermelho. Ela deu um sorriso encabulado, observou bem as pessoas da foto, fez alguns comentários.

A moça, sempre atenta, pôde ouvir um pouco da conversa. A mulher do anel vermelho disse: ”Que saudades daquele tempo!”.
Logo depois o homem desdobrou um papel amarelado pelo tempo e lhe deu para ler. Era uma carta. Ela o desdobrou elegantemente e a leu bem devagar, talvez precisando de tempo para repensar a época. A mulher insinuava com a cabeça algumas dúvidas. No final, dobrou lentamente a carta, olhou com um carinho enorme para ele e sorriram. Um sorriso enigmático, um sorriso cheio de confidencialidade.

Que segredos havia entre os dois? Até então ela estava distante fisicamente do homem. Ele demonstrava estar inebriado diante de sua lembrança. Aproximaram-se mais e assim, deram a entender que estavam abertos para uma nova aventura, para lembrarem e reviverem tudo o que deixaram para trás e que ainda não fora resolvido.

A mulher falava muito, falava baixinho, relembrando passagens de suas vidas. Ele quase não se mexia. Olhava-a intensamente.

A moça presumia ser uma estória de amor, ou melhor, uma nova história de amor.

O homem, encorajado, ao conversar tocava-a levemente nas mãos. A mulher do anel vermelho enrubecia como a pedra do seu anel. Sinal que ela ainda era aquela menina tão ingênua e desejada dos velhos tempos. Depois de um tempo de olhares, toques e conversas cheias de recordações e incertezas, a mulher do anel vermelho repousou a sua mão nas mãos do homem. Ele as segurou e lhe disse: “Eu também tenho saudades daquele tempo, mas, nunca é tarde”. Ela pareceu assustar-se com tal declaração, tirou logo as suas mãos dele e continuou a contar fatos de sua vida. Aproximaram-se mais, falaram baixinho e se olharam.

A moça observava e viu que este momento era só deles. O homem e a mulher do anel vermelho nem percebiam a presença de outras pessoas. Sentiam-se sós e únicos naquele espaço.

O homem entregou-lhe o livro. Ela pacientemente leu a dedicatória e lhe agradeceu. Falaram algo e ela tirou da bolsa uma caneta e um papel para ele escrever alguma coisa.

A mulher do anel vermelho levantou-se e, ao dirigir-se para o elevador, o homem lhe disse que iria esperá-la. Ela voltou-se para ele e lhe disse sorrindo, um pouco incerta: “Tem certeza que ainda me espera?” O homem respondeu: “Tenho e quero!”. Ela entrou no elevador e ele, continuou sentado, olhando a chuva cair.
O homem estava ansioso. Levantou-se várias vezes, ia até o elevador, voltava, olhava o relógio, sentava-se e de novo verificava se o elevador estava descendo. Isso durou uns quinze minutos.

O elevador se abriu e a mulher do anel vermelho retornou um pouco mais maquiada e perfumada. O homem deu-lhe o braço e eles foram para o seu carro. Saíram para passear. Para onde?

A imaginação da moça que observava a cena correu solta.

No dia seguinte, ainda com o dia muito chuvoso, a moça desceu para pegar um táxi e, a surpresa que ela teve foi que viu a mulher do anel vermelho novamente conversando com o homem.

A moça parou para observar.

Ambos estavam mais dispostos e mais alegres. Riam algumas vezes de suas falas, outras vezes ficavam pensativos. O mundo continuava só para os dois. A mulher do anel vermelho partiria com as suas lembranças mais avivadas e o homem ficaria, pensando quando poderia de novo ter junto de si a mulher do anel vermelho, a lembrança mais querida da sua vida.

Assim é a vida! Cheia de encontros e desencontros. Tudo é questão de tempo. Tempo para arrumar o corpo e a mente, limpar tudo que ficou de resíduos no coração. Jogar fora as emoções inúteis, cartas nunca enviadas, crônicas inacabadas, planos apenas esboçados, livros que precisam ser lidos por outros olhos, para sonhar e amar, porque a vida sempre segue e é a gente que inventa o roteiro que quer, para o filme que irá protagonizar.



Fevereiro/2007

Eléia Abreu
eleia@uol.com.br

 



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