A PROPÓSITO DO ‘UM DIA NA ROÇA’ DO CARLOS REZENDE

 

Lendo, relendo e voltando a ler a crônica do Carlos Rezende, veio-me à memória um fim de semana que desfrutei na Fazenda Velha.

Até então, só a conhecia, quando meus pais vsitavam Tia Mulatinha e Tio Zezé, ela sobrinha e ele primo em primeiro grau de meu pai. Íamos e voltávamos no mesmo dia. Mas, um dia surgiu a oportunidade que eu esperava e ansiava: estávamos de férias escolares e meu primo Luiz Carlos, filho do Zé Borges, este, irmão da Tia Mulatinha, convidou-me para passar uns dias na Fazenda Velha. Não titubiei e aceitei de pronto. O problema maior foi o Luiz Carlos, muito indeciso como sempre, pesar prós e contras sobre a nossa ida. Finalmente, após uma bronca que levou de seu irmão Rodolfo, decidiu que iríamos. Fomos de ônibus, estrada de chão, havia chovido e era barro para todo lado. Chegamos no final da tarde. Como descrito pelo Carlos, Tia Mulatinha veio nos receber de braços abertos e aquele sorriso lindo que fica gravado na mente dos que a conheceu. Tio Zezé, nos abençoava e mandava entrar. Como já estava escurecendo, não pudemos, por recomendação deles, ir brincar pelo pomar e beira rio, por causa de cobras. Tomamos banho, jantamos e sentamos, nós quatro, na varanda e fomos conversar. Luiz Carlos mais falante e eu mais quieto, hoje é o inverso. Caiu a noite, era mês de julho, noite muito escura. Lá pelas nove horas fomos dormir. Finalmente amanheceu o dia, era sábado, levantamos cedo, fizemos nossa higiene, fomos para a mesa do café, Tio Zezé mandou sentar e comer à vontade. Tia Mulatinha nos abraçou e abençou dizendo: “abençôo vocês e também a meus filhos e netos, que estou saudosa”. A mesa estava farta: café, leite, pão, manteiga, queijo e biscoitos. Tudo feito em casa. Ansiosos comemos de tudo e fomos brincar. Tia Mulatinha advertiu para não irmos para a beirada do rio. Despertou a curiosidade, foi o primeiro lugar que fomos, onde catamos muitas contas de lágrimas para fazermos um terço para ela. Brincamos a manhã toda. Almoçamos e voltamos a percorrer todos os cantos da fazenda, sem perceber que o Zé Venâncio, a pedido da Tia Mulatinha, nos vigiava. No final do dia, já iniciando a noitinha, fomos até a usina do Tizinho. Prédio de construção perfeita, cartão postal. Na estrada encontramos com o Zé Venâncio que recomendou que não fossemos para a usina, porque era mau assombrada. Concordamos, mas demos um “nega” nele e fomos saciar nossa curiosidade. Mal entramos, lá dentro já meio escuro, ouvimos uma barulhada infernal e saímos correndo com medo e lembrando do aviso do Venâncio, sem darmos conta que a parulhada fora proporcionada por maritacas que lá moravam. À noite, contamos o ocorrido e Tio Zezé nos explicou o que era. Fomos dormir e eu, naquela expectativa do dia seguinte chegar logo. Mas, no domingo deu a “louca” no Luiz Carlos e não teve jeito, nem os apelos insistentes do casal, convenceu do contrário. Logo após o café da manhã, viemos embora. Fiquei um bom tempo sem falar com ele. Hoje, somos compadres, ele mora na Itália e eu em Bom Jesus.

Falar sobre a Fazenda Velha, Tia Mulatinha e Tio Zezé qual o Carlos, se tivesse intimidade o chamaria pelo apelido, é muito para mim, pois não tenho recursos literários. Sou apenas um saudosista. Tenho o sentimento no peito, mas não sei expô-lo.


Guido Rezende
guidorezende@hotmail.com



 

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