Além Calçado -Uma Fantasia-


 


Tenho setenta e nove anos e um grave problema no coração que irá me matar com implacável certeza.O médico que o diagnosticou foi taxativo e,ouso dizer,parecia referir-se a mim como a um morto.
Contudo,mais enferma está minha consciência.A confissão que fiz a um padre a sossegou em parte.Mas,infelizmente, não sou dotado daquela ingenuidade que acredita que uma má ação possa ser anulada pela absolvição de um padre.
Ainda acordo no meio da noite com o suor a porejar-me de todo o corpo,exercendo um esforço mental na tentativa de sufocar o quadro em que me vejo a erguer uma grande pedra e deixando-a cair, emprestando-lhe minha força,sobre a cabeça do homem que eu já imobilizara no chão.Quando a removo,sinto vontade de vomitar ao ver a massa sanguinolenta ,disforme a emplastrar a terra,embebendo-a de sangue e fluidos dos tecidos esmigalhados.
A causa desse ato tresloucado?O ciúme,a mágoa de ter sido repelido por uma mulher a quem amava apaixonadamente.
A covardia me impediu de me entregar à Justiça dos homens;mas com infinitas vidas por viver,certamente haverá uma em que este meu débito será cobrado-e com os juros devidos.Acredito,agora,que não foi esta que está acabando a última nem tampouco a primeira.
Devo urna explicação a população de Calçado,que tão bem me acolheu,assim como o fez a tantos outros, em situações diferentes da minha.Saibam quantos estirem lendo esta narrativa,da qual tirei uma cópia para o jornal ‘A Ordem’ e outra para a revista digital ”O Broinha”,saibam,digo, que estou morto e que em vida assassinei um homem da maneira mais selvagem e torpe,e que,após isto, fugi e me refugiei em Calçado.
Recordo-me perfeitamente de minha primeira experiência.Estava dormindo,e de repente me vi fora de meu corpo.Tinha a certeza de estar fora de meu corpo,embora não soubesse dizer onde estava eu.Fui tirado dessa incerteza angustiosa por uma forma humana toda vestida de dourado.Não vejo seu rosto.Em uma das mãos ela segura uma folha flexível de material para mim desconhecido.Ao ser desenrolada pelo vulto humano,produzindo um som semelhante ao de uma máquina antiga de projetar filme.Vejo então que,à medida que a folha é desenrolada,letras grandes de imprensa começam a surqir nela,parecendo línguas de fogo,que formam nomes.Sei que esses nomes estão sendo escritos para que eu os leia,mas me recuso a fazê-lo.Aí então me lembro de meu corpo e sinto que é o meu único refúgio.Dirijo-me para ele mas não o vejo;sinto só que ele está próximo de mim e,então,como se pulasse de um trampolim,tenho a nítida convicção de estar voltando a ele,tomando-o pelos pés-e entro por debaixo dele como alguém que puxa um grosso cobertor para se cobrir.Nesse ponto, me vejo sentado na cama e muito aflito.Não sinto ter acordado de um sonho e sim ter voltado de um lugar mais real do que o mundo em que vivemos.Lembro-me da caverna platônica.Não,não foi um sonho.Sei como é acordar de um sonho.Uma alucinação?Nunca sofri de alucinação mas algo me diz que também não foi isto.
Duas noites depois,experimento esse fenômeno novamente.Dessa vez,porém, sou logo transportado para uma cidade que me é familiar.Mas me sinto tão confuso e os arredores estão envolvidos num nevoeiro tão baixo e espesso,que minha perturbação se acentua.Sento-me numa pedra,tiro os óculos,limpo-os bem e volto com eles para cima do nariz.Minha confusão mental é tão grande que penso em sair correndo em qualquer direção-melhor que ficar ali numa expectativa que parece não ter fim.Mas,nisso,vejo uma figura humana romper o nevoeiro e caminhar em minha direção.Sinto que há algo de muito familiar nela.Trata-se de um homem de estatura medïana, um tanto encurvado,de barbas brancas e expressão fechada,grave.Por vestimenta,enverga uma espécie de uniforme cáqui usado pela Legião Francesa.Sim,é o Mesoneive,com a aparência que tinha quando morreu.
Estende-me a mão ao se por a meu alcance.Hesito em estender a minha.Sinto que irei apertar a mão gelada de um defunto.Mas rapidamente raciocino que o fato de alguém estender-me a mão é uma prova inequívoca de que ela não está morta.Além do mais,tudo que posso ver dele se assemelha tanto ao que uma pessoa de carne e osso exibiria,que não há qualquer dtferença,mesmo nos mínimos detalhes.Mesoneive coça as pálpebras de um olho,os fios de sua barba se agitam ao sabor do vento,o tórax se dilata e se comprime por efeito da respiração;enfim,tenho em minha frente um ser humano.E que me pergunta numa voz calorosa,com ligeiro sotaque estrangeiro:
-Como está passando,R...?
-Um pouco confuso.Mas,sem dúvida,sua presença me traz um certo alívioEm que lugar estou, Mesoneive?
-Você está em Além Calçado,a cidade de Calçado no Outro Mundo,no Etéreo,no Mundo Espiritual.Dê o nome que quiser.O certo é que estamos em outra dimensão,
-E essa cidade de Além Calçado é uma réplica de Calçado?
-Exatamente o contrário.Calçado é que é uma réplica de Além Calçado,uma vez que esta última já existia muito antes de a Calçado terrena ser colonizada pelos pioneiros José Francisco Furtado,Marciano Lúcio e o Caboclo Valério,conforme foi estabelecido pelo historiador Pedro Teixeira,ilustre filho da cidade,em um de seus vários livros, “São José do Calçado:A saga de uma raça capixaba”.Aqui nesta dimensão preferimos acrescentar o Além ao nome e ficou sendo Além Calçado.Isto tem uma importância prática,claro.Produzimos muita documentação oficial e nela temos de distinguir uma cidade da outra.
-Documentação?!
-A vida continua,R..., e com ela todo o cortejo de sucessos, processos,trivialidades,dramas,tragédias e comédias que a caracterizam.Poderia até não ser assim,poderia até não existir absolutamente nada no Universo deste lado-mas o fato é que existe,que você virá pare cá tão logo morra e ainda renascerá depois e depois,sempre adquirindo mais experiência e prosseguindo numa jornada sem fim.A vantagem nisso é que quanto mais nos aperfeiçoamos,mais alegres e felizes ficamos.Não fosse assim,seria uma jornada sem objetivo,absurda.
- O imbecil que vive rindo,deste modo,é mais feliz que você,Mesoneive,com sua aparência carrancuda?Você não tinha um espírito particularmente religioso quando vivo,quero dizer,quando estava em Calçado...
-Existe um contentamento interior que nenhum riso pode exprimir,que não se trai nem por um sorriso.Estude o esplendor na face de alguns anjos pintados por um grande artista e você saberá de que falo.Quanto ao fato de ter parecido um cético para vocês,que importa isso?Acreditando ou não em Deus,sendo budista, católico, protestante, espírita,muçulmano ou o que seja,todos possuimos uma substância que se destaca do corpo com a morte e tem vida própria.Ora,se existe essa coisa,ela certamente terá que estar num determinado lugar.Quando se diz que um lápis existe,pensamos logo que ele deverá estar em algum lugar,já que existe.O mesmo se dá com essa substância que,em essência,somos.
Neste ponto minha visão de Mesoneive começou a se tornar cada vez menos nítida,o som de sua voz me chegava mais amortecido aos ouvidos--até que acordei.
Entretanto,na noite seguinte,nem bem começo a dormir e sou logo transportado para Além Calçado.E Mesoneive,meu anfitrião,já me aguarda.Inevitável a comparação com Dante e Virgílio,na Divina Comédia.O nevoeiro espesso dos primeiros dias já desaparecera.Estávamos a uns três quilômetros da Vala e vínhamos conversando pelo acostamento,eu observando os estranhos e silenciosos automóveis daquele mundo,e os extensos barracões feitos de um material que parecia plástico,em ambas as margens da estrada.Perguntei logo a Mesoneive:
-O que são aqueles barracões?
-São pequenos sítios que exploram culturas hidropônicas.
-Hidro...o quê?
-Plantas comestíveis cujas raízes ao invés de serem enterradas na terra são cultivadas numa solução aquosa nutritiva.Nunca viu?
-Agora me lembro de ter ouvido falar.Que coisa ter que vir ao outro lado da vida para conhecer uma cultura hidropônica...
Mesoneive pareceu divertir-se com a minha observação.E sempre desejoso de informar e esclarecer,ajuntou:
-Você verá culturas hidropônicas aqui para todo lugar que for.Aqui em Além Calçado,na verdade,são até poucas.Saiba que tudo que comemos neste mundo vem dos vegetais.Acrescente a isso a nossa escassa mão-de-obra,que nos fez desenvolver ao máximo as técnicas de automação,a nossa preocupação com o meio ambiente,que nos faz pensar duas vezes antes de diminuir o tamanho de nossas reservas florestais e verá que não tínhamos outra saída senão aquela apontada pela razão,ou melhor,o simples bom senso que enxerga dois palmos além do nariz.Muito ao contrário de seu mundo,que caminha em largas passadas para um desastre planetário.O aquecimento global parece irreversível para alguns cientistas da Terra.A chamada Hipótese Gaia,proposta pelo inglês James Lovelock,segundo a qual a Terra seria um superorganismo vivo capaz de se auto-ajustar,reagindo aos fatores humanos introduzidos de modo a desequilibrar o seu sutil mecanismo,está de acordo com os planos divinos que regem o Universo,embora aquele cientista tenha feito deduções um tanto pessimistas com base nos dados que coletou.A Terra é uma grande mãe para todas as formas de vida,desde o vírus e as bactérias até o homem.Cada um desempenha um papel importante na economia do planeta mas,quando um desses organismos,ameaça os outros direta ou indiretamente,as leis divinas intervêm.Em último caso,quando todas as possíveis soluções fracassarem,não tenha dúvida que as mais drásticas poderão ser adotadas.Se a Inteligência que habita o Universo não puder se desenvolver na espécie humana,não tenha dúvida que a própria Terra se encarregará de exterminar o homo sapiens e permitir que nova forma de vida evolua e reassuma a posição que o Homem não soube honrar.
Quando nos aproximávamos da ponte,reparei no rio de Além Calçado e não pude deixar de observar:
-Nós,calçadenses,estamos muito preocupados com o rio que corre em CaIçado.Dada a sua enorme importância como principal provedor do líquido vital para nossas vidas,de sua não não menos importante função de carreador de nossas impurezas físicas,de sua influência sobre o clima local,não se falando das horas de entretenimento sadio que ele nos proporcionara ao brincarmos em suas águas,ele é,para nós,como que um camarada de infância que tivesse participado de nossas brincadeiras e que agora constatássemos estar muito doente.
-Tão ou mais importante que falar é agir.Temos acompanhado os trabalhos que se desenvolvem em Calçado.Em última analise,irão,todos eles,melhorar a qualidade de vida dos que habitam Calçado.Aqui sou uma espécie de coordenador e conselheiro e em todas a reuniões de que participo sempre relembro que a Terra é como nossa casa.Tudo o quc fizermos de ruim para ela,estaremos fazendo para nós próprios.Não estaremos tão somente piorando a vida de nossos filhos e netos,o que já seria o suficiente para pensarmos mais seriamente sobre nossos atos, mas sim piorando a nossa própria vida nun futuro próximo,porque,via de regra,quase sempre reencarnamos no planeta Terra.Além do mais,o que vale para a Terra vale para todos os outros planetas habitados de nossa Via Láctea e dos bilhões de outras galáxias até agora conhecidas.
Caminhávamnos pela ponte.Por debaixo dela corria um rio largo,fundo e de águas tão puras que enxergávamos o escuro e o colorido dos peixes nadando em grandes cardumes ou solitáriosAs margens ostentavam um capim muito verde entremeado de plantas de flores muito azuis,que nos mandavam um aroma embriagante,que tinha o poder de se confundir com nossos sentimentos e recordações,e envolvê-los de tal maneira que quando sentíssemos um,os outros também se apresentariam à nossa mente,tal como ocorre com uma música que nos faz lembrar de nossa namorada.Já agora,víamos com mais atenção a fachada das moradias.
-São,todas elas,casas simples mas com um quê característico dos indivíduos que nelas descansam dos labores terrenos e se preparam,com a ajuda de instrutores que vão de casa em casa, para as suas novas ocupações nesta outra dimensão.Só o trabalho é capaz de robustecer,aperfeiçoar nossas aptidões e lançar raízes de outras que nem sequer suspeitávamos existir em nósA vida é um jogo de ação e inação;sem a primeira,não tiraremos prazer da hora de recreio;sem a relativa inação,não teremos a força necessária para o trabalho.
Reconheci e cumprimentei vários calçadenses que tinha conhecido em vida e que há muito não via.Timha um monte de perguntas para lhes fazer mas Mesoneive me pôs a andar.
-Não faltarão oportunidades para vocês conversarem.Aliás,quando você dormia,vinha frequentemente para cá,com a diferença de agora poder se lembrar de tudo que fez e ouviu ao acordar.Nós o preparamos para isso.
Já faço incursões à cidade de Além Calçado com mais tranqüilidade e com maior desembaraço.Meu anfitrião Mesoneive já está a postos,e tão logo nos reunimos,nos pomos a conversar enquanto caminhamos.Estamos agora no “altiplano” ao redor do qual,antigamente,na Calçado terrena,existia o bar do Tião Machado e casas das quais não mais me recordo e uma grande praça bastante arborizada,como centro.Para minha surpresa,em Além Calçado,as árvores ainda estavam lá,não tinham sido derrubadas,ao contrário das de Calçado,que foram substituídas por calçamento de pedra granito.Vários espíritos desencarnados ainda crianças ali se divertiam a jogar baleba(bola de gude),exatamente como eu as via fazer em Calçado.As árvores,cuja espécie já não me recordo,eram tão frondosas e compactas em sua disposição,que os moleques brincavam a qualquer hora do dia,já que o sol chegava ao chão enfraquecido,quando chegava.
-Foi uma pena terem cortado as árvores.
-Mas segundo eu soube,elas foram derrubadas por causa de um inseto chamado lacerdinha.
-Sim,o que diz é correto.O inseto incomodava de verdade.Originou-se na Ásia e foi introduzido no Brasil aí por volta de 1961. Seu nome foi uma “homenagem” de inimigos políticos do então governador do Estado da Guanabara,Carlos Lacerda.Ele se propagava no ficus,a darmos crédito a alguns estudiosos.Era de cor escura e devia ter cerca de 2 milímetros,o adulto.
-Podia jurar que era bem maior.
-A memória,às vezes,nos engana... Mas,continuando o que dizia,quando o lacerdinha entrava nos olhos das pessoas costumava até deixá-las cegas por alguns segundos.Houve tanta rec!amação por parte da população que as árvores tiveram que ser sacrificadas.Soube que aqui em Além Calçado elas tiveram o mesmo destino.Porérn,quando se conseguiu a erradicação da praga,novas árvores foram plantadasEra o que Calçado deveria ter feito.Todos os esforços são válidos para a preservação das áreas arborizadas.
E debaixo das árvores ficamos por um bom tempo,observando as crianças em suas brincadeiras,até que achei que era hora de me despedir de Mesoneive.
De outra feita, Mesoneive e eu estávamos na praça.Conversávamos e observávamos tudo a nosso redor,quando ele disse de um modo mais enfático:
-Como deve saber, o naturalista inglês Darwin acumulou tantos fatos sobre os animais e o homem em seus iivros,que foi inevitável concluir de tudo que as espécies animais se transformam fisicamente ao longo do tempo.Ora,de tudo o que tenho visto e estudado nesta dimensão,sou também levado a concluir que o homem continua a se transformar.Que a interrupção momentânea provocada pela sua morte,não quebra o fio da meada.O princípio inteligente,a alma ou qualquer outra palavra que você lhe queira dar,segue sua vida neste plano atraído por aquilo que mais acalentou em sua mente.”Onde está seu coração,lá estará o seu tesouro,já dizia um poeta.Demora aqui por um tempo maior ou menor e volta à dimensão mais densa para continuar sua evolução.
-Acontece o mesmo com todos os animais?
-Acho que sim.Pelo menos,tenho estudado uma cadela calçadense por vários anos e constatado que sua inteligência,por exemplo,aumenta mais,de cada vez que ela retorna de uma vida na Terra.Chame por Bolinha.
Gritei pelo nome Bolinha e vi logo um cão da raça Irish setter vir correndo em nossa direção.Diante de mim,deu um latido e abanou alegremente o rabo,como se me conhecesse.Tinha pelagem abundante,castanha,olhos brilhantes e inteligentes,uns 60 centímetros de altura-enfim,uma bela cadela.
-Ela é completamente diferente da Bolinha que conheci.Por quê ela atendeu quando gritei o nome Bolinha?É mesmo a Bolinha?
-Não disse que os animais também evoluem?Ela guarda todos os nomes que já 1he puseram.Já tomou a forma de quase todas as raças de cachorro,em cada uma delas encontrando um corpo no qual pudesse mais facilmente desenvolver as qualidade mentais e físicas que diferenciam uma raça canina de outra,mas sem perda de sua individualidade.Os cachorros sem dono aqui,os chamados vira-latas,recebem tudo de que necessitam da comunidade.Em troca,eles prestam serviço de grande utilidade.Por exempio,se chega à nossa cidade uma pessoa que nunca veio aqui,os cachorros,com seu excelente faro,aqui ainda mais aguçado,logo se aproximam dela.Ora,em muitas cidades daqui já é corriqueiro os cachorros mostrarem o lugar para o qual alguém deseja ir mas não sabe onde fica.Basta,então,dizer o nome do lugar e serão atendidos por esses úteis serviçais dos humanos.Faça você uma experiência.
Quis logo por à prova o talento do animal.E disse:
-Para o Grupo Escolar Manoel Franco,Bolinha!
Mas nem bem terminara de dizer todo o nome do colégio para a cadela latir, como se houvesse entendido meu desejo.Apontou a cabeça para uma direção e latiu novamente,olhando para min,cauda agitada de excitação.Eu a segui,Mesoneive me acompanhando.
Lá em cima estava a imponente fachada do Grupo Escolar.Aos pés dele,o grande quadrilátero cujo centro estava ocupado por um tabuleiro gigante de xadrez que qualquer um pode usar.Quem não sabe jogar,pode aprender com as próprias peças.Todas elas nasceram da nanotecnologia,a tecnologia de fabricar coisas minúsculas(um motor,por exemplo),aliada à inteligência artificial,aqui muito mais avançadas que no plano terreno,que apenas engatinha,nesta área.As peças,na verdade,são robôs em miniatura, dotados de grande inteligência e plasticidade de expressão.O rei,a rainha,o cavalo,o bispo parecem estar vivos.Na verdade, eles podem conversar com os jogadores,sugerir jogadas,fazer uma análise de cada lance ou partida.Ou podem simplesmente ficar calados,dependendo do gosto de cada jogador.
-Para a direita,Bolinha.
E a Bolinha latiu em resposta e trotou para o lado direito do Grupo Escolar.Ouvimos uma cantilena de vozes infantis.Mesoneive parecia recordar-se de acontecimentos muito distantes,talvez de sua meninice na França.Mas acabou por falar:
-São natimortos aprendendo a tabuadaMesmo aqui ainda começamos do começo,com a vantagem de o aprendizado ser muito mais acelerado e feito numa idade mais precoce.
Chamei a Bolinha e fiz festa em sua cabeça enquanto lhe dava um petisco que Mesoneive carregava no bo!so.Depois que ela comeu sua recompensa,eu lhe disse que voltasse para a praça.Ela latiu e saiu em disparada,não antes de me lamber a mão e efusivamente agitar sua cauda em saudação.
Voltando,entramos na bela construção,que se esparramava de uma ponta a outra da larga praça Governador Bley.À nossa direita estava a sala da diretora e um aviso,que dizia:”Qualquer problema,favor dirigir-se à Professora Rita,sala n° 5.Ouvimos logo o burburinho das crianças em suas idas e vindas aos banheiros.Dobramos à direita e chegamos à sala que procurávamos.Lemos numa placa:”Classe Profª.Merinha”.
Uma jovem professora interrompeu suas preleções para atender Mesoneive.Quando a vi,senti tudo em redor começar a rodar.Como o Mesoneive pudera me trazer ali?!Que brincadeira mais cruel!
A professora Rita era ninguém mais ninguém menos que a mulher por quem eu cometera o crime que destruíra minha vida.Ela não me reconheceu.Eu,porém,a reconheci assim que a vi.Rapidamente antigas recordações voltaram à minha mente.O laranjal cujas frutas tinham a coloração loira de seus cabelos.A sua imagem se tornou mais nítida e pude vê-la a sentar-se no chão com a graça que lhe era peculiar.Vi-me sentado à sua frente e a vê-la espremer a laranja que colhera e lhe dera descascada.Seu lindo rosto ovalado abrigava olhos de cor azul,não muito encravados nas órbitas;o nariz não era pontudo como esses que parecem poder furar uma folha de papel;descia um pouquinho esparramado lateralmente;os lábios era regulares,finos e o sorriso tinha o poder de dobrar todas as minhas vontades recalcitrantes,fazendo-me anuir a todos os seus desejos.O queixo tinha uma covinha minúscula que eu adorava examinar,acabando por puxá-lo para baixo-o que a fazia fingir que estava zangada comigo.Era o sinal para lhe dar um beijo.Como eu adorava cada parte de seu corpo!Os braços roliços,as espáduas e o busto sardentos,as pernas esbeltas,nervosas e aqueles sapatinhos cor de rosa com duas fileiras imitando flores e plantinhas penetravam meu coração e uma onda de ternura saia de mim e a envolvia.Procurei,entretanto, afastar todas essas miragens e concentrar-me no que via ali na classe;do contrário enlouqueceria.
Soube que aquela classe destinava-se à recordação dos ensinamentos terrenos,como preparação para a aquisição dos novos conhecimentos,mais avançados,daquela dimensão.Enquanto os dois confabulavam,examinei a classe.Eram cerca de 20 crianças de ambos os sexos.Os meninos trajavam bermuda azul e blusa branca e as meninas podiam escolher entre a saia e a bermuda.Ao lado de todas as carteiras havia um pedestal com um poleiro e sobre este um papagaio em tudo parecido com o que conhecíamos.Os cadernos tinham sido substituidos por uma espécie de notebook,na falta em que me encontro de compará-lo com qualquer outro objeto terreno.
-É um prazer recebê-los.A diretora já havia me prevenido da visita de vocês;infelizmente,ela se encontra acamada mas me disse para auxiliá-los no que for possível.Assim,fiquem à vontade,examinem o que quiserem e me chamem,se precisarem de ajuda.
-Obrigado,Rita.Por favor,continue sua aula.
- Prazer em conhecê-ia,professora Rita.
Não me contive e logo perguntei a Mesoneive sobre os papagaios.
-Aqueles papagaios são outra criação da nossa avançada nanotecnologia aliada à inteligência artificial.Antes de serem fabricados,foi feita uma extensa pesquisa de opinião entre os alunos para saber quais os animais de que eles mais gostavam.Claro que o primeiro colocado foi o cachorro.O segundo foi o papagaio.Então,optamos pelo papagaio,mais adequado para os fins que tínhamos em vista.Eles podem voar e acompanhar os estudantes empoleirados em seus ombros;com suas garras e bico podem pegar coisas e passá-las com facilidade para seus donos.Podem imitar a voz humana.Não é preciso dizer que as crianças os adoram e os levam para todos lugares.Cada estudante tem o seu e pode levá-lo para casa,sair com ele para onde bem entender.
- Parece que as crianças se esqueceram do papagaio de verdade...
-Não, não se esqueceram.Eles são a origem de tudo.As máquinas produzidas pelos humanos serão sempre máquinas.As vantagens delas sobre aquelas criadas pela natureza estão no fato de realizarem determinadas operações com extrema rapidez e sem se fatigarem.Guardam um volume enorme de conhecimento que pode ser disponibilizado a qualquer momento e todo ele compulsado.Veja o dicionário.Ele mantém em ordem uma quantidade de definições de palavras que cérebro humano algum consegue armazenar e dá,quando bem manuseado,respostas rápidas.Mas nunca deixará de ser um dicionário,ou uma máquina.Tomando um termo da física,diremos que o conhecimento está contido nele de uma forma estática enquanto que,na inteligência a que chamaremos de natural,os conhecimentos se encontram em forma dinâmlca.Machado de Assis e Shakespeare não precisaram de todas as palavras contidas num dicionário para compor suas obras.Além do mais,a evolução sempre ocorre primeiro na inteligência natural e só depois, por mediação desta inteligência,ela é imitada na inteligência artificial.Pelo menos,assim tem acontecido.As novas máquinas são como dicionários bem mais complexos.Não,não os papagaios de verdade não foram esquecidos.Porém,como criaturas vivas,criações da Natureza,eles seguem a sua vida evolutiva e não é correto constrangê-los para que se adaptem à satisfação de nossos desejos.Eles não foram domesticados como os cãesAqui,como não são caçados e maltratados por ninguém,eles se aproximam de nós sem qualquer medo e nos alegram com suas engraçadas algazarras.Eles possuem uma individualidade que deve ser respeitada--aliás,assim deveríamos proceder para com todas as criaturas viventes.O princípio inteligente que as anima,daqui a alguns milhões de anos,se tornará uma criatura humana como você e eu,depois de atravessar toda a escala zoológica,depois de assimilar toda a gama de inteligência e sensibilidade.
-Por quê aqueles garotos lá no pátio estão isolados?O que fazem eles?
-Vamos perguntar a um deles.
Do corredor divisamos toda a extensão do pátio(em Além Calçado,arborizado) do Grupo Escolar Manoel Franco,com a quadra de jogos.O pau de sebo já fora erguido,as bandeirinhas tremulavam ao vento e as lenhas das fogueiras já tinham sido dispostas no arranjo bem conhecido,uma vez que as festas juninas se aproximavam.
E fomos até um dos garotos,que tinha lá os seus dez anos de idade;magro,cabelos negros revoltos,expressão do rosto concentrada.Estava sentado num tronco de uma árvore,tinha seu notebook e seu papagaio tutor pousado em seu ombro.Mesoneive ergueu a cabeça e lhe perguntou como se chamava.Disse chamar-se João.Perguntamos o que fazia.Respondeu o garoto:
-Estou preparando o meu dever de casa.Estou observando aquele casal de pombos que fez ninho naquela caixa presa à parede externa do banheiro masculino.
-Não está muito distante?
-Que nada!Meu caderno...
-Seu notebook,quer dizer...
-Bem,nós o chamamos de Caderno.Meu Caderno tem um possante telescópio embutido nele,logo aqui em baixo.Estou vendo na tela os pombos como se eles estivessem em minhas mãos.E escrevo no Caderno o que eles fazem,com a ajuda do Pacheco.Eu e o Pacheco estamos sempre trocando idéias sobre o que escrevo.Nem sempre ele está com a razão...
-E Pacheco é o papagaio?
_É.Você não mora em Além Calçado?Pacheco é o nome que dei ao meu papagaio tutor-Pt Pacheco.
Aqui,o tutor Pacheco,exibindo-se,subiu até o topo da árvore,valendo-se das garras e bico e,lá das grimpas,voou mais alto e deu um mergulho de ponta cabeça em direção ao chão,endireitando-se quase a tocar nele,enquanto dizia:
-Seja bem-vindo,forasteiro!Quer que lhe conte a história de Além Calçado?Ou talvez queira que lhe demonstre um teorema matemático?Ou lhe conte uma piada de português?É só perguntar,estou a seu dispor.
O papagaio tutor Pacheco tinha o timbre de voz de um verdadeiro papagaio,só que,a contrário de seu modelo original,entendia-se perfeitamente o que ele falava.Tinha ainda os seus trejeitos e manhas,e o superava em inteligência,embora a sua fosse artificial.Tudo nele era tão bem acabado que poderia enganar facilmente um experiente ornitologista.Fora construido com base na espécie A.Amazonica.Seu tamanho excedia em 20 centímetros seu modelo original,cujo maior exemplar tinha uns 40 centímetros,da ponta do rabo a cabeça.A fronte do Pt Pacheco era de um azul claro,a garganta,a face e o alto da cabeça larga e grande eram amarelos,sendo o restante colorido com todos os cambiantes do verde,exceto os encontros das asas,que eram vermelhos.O curto rabo quadrado era um entremeado de cores.O bico robusto e curvo,com a parte superior levemente amarelada,repousava sobre a parte inferior,menor de um terço.Enquanto falava suas penas se eriçavam,ora as do topete,ora as do dorso,da nuca;as do rabo às vezes se abriam em leque;espreguiçava as asas;arrumava todas com um agitar de todo corpo semelhante ao do cachorro que se livre da água depois do banho;seus olhos eram brilhantes ,de íris marrom escura e ele as comprimia ou as aumentava conforme a importância do que dizia,como a dar ênfase.Ainda que não mexesse um só músculo,uma só pena,o Pt Pacheco tinha a imponência e graça das aves de rapina que enfeitam as armas e brasões de nações ou tradicionais famílias do velho continente que se gabam de seus feitos e querem ostentar poderio.
-Pacheco e o Caderno,quando se trata de demonstrar um teorema de geometria,trabalham em conjunto.E a prova pode ser repetida um sem número de vezes,até o estudante entender e gravar todos os passos dela.As representações são jogadas na tela do Caderno,em três dimensões ou podem ser reproduzidas holograficamente no espaço.Confesso que sou particularmente interessado nestas demonstrações...Pode me dar o seu Caderno para eu mostrá-lo a esse meu amigo,João?
-Claro-disse João-Tome.Estou com o trabalho adiantado.Devo terminá-lo amanhã ou depois.
-Leia o que já está escrito na tela.
Peguei o Caderno e comecei a ler a composição do garoto João:Observando um Casal de Pombos(era seu título).Dia Primeiro: Um casal de pombos fez ninho numa caixa de madeira.Pronto o ninho,pai e mãe ficaram aguardando que um filhote de pombo morresse em Calçado para o acolherem em Além Calçado,pois assim está gravado em seus instintos.Não demorou muito para que uma nuvenzinha azulada se formasse sobre o ninho.Ela se contorcia,se adensava e se distendia,até que se imobilizava e ia desaparecendo,para em seu lugar surgirem dois filhotes fraquihos,que começaram a piar,onde nada havia antes.Seus novos pais punham-se logo a cuidar deles.Um deles voava para buscar comida enquanto o outro arrumava as penugens em desalinho de seus filhotes.Segundo dia:Como não vejo comida nos bicos dos pais,sou levado a acreditar que ela é regurgitada aos filhotes,que escancaram seus bicos para que seus pais neles introduzam a comida.Já agora,eles têm melhor aspecto.Crescem com rapidez.Já arrumam com o bico a própria plumagem.Emitem já pios audíveis quando são alimentados.Terceiro dia:Seus pais já os deixam sozinhos por mais tempo agora.Embora possuam força suficiente nas pernas para se porem de pé,mantém-se afastados da beira da caixa.Um dos filhotes não gosta de estar todo o tempo debaixo da mãe e sai para observar as coisas em redor.Quarto dia:Os filhotes já estão com a plumagem com a qual,acredito,deixarão o ninho.Um dos pais,ao regurgitar a comida,estremece o corpo desde o bico até a cauda.Esse,não sei se macho ou fêmea,parece dominar melhor a técnica,pois fica mais tempo fora do ninho e quando retorna,passa mais tempo a regurgitar.Quinto dia:Os filhotes levantam ao máximo suas asas e as batem,exercitando-se para a futura vida alada,que está próxima,estando suas penas completamente implantadas.
Devolvi o Caderno a João e lhe dei parabéns pelo trabalho.
-Ele tem ótima capacidade de observação,sem dúvida,e já exibe um belo estilo e correção gramatical também.Mas até que ponto esse trabalho é obra dele e não do Pt,o papagaio tutor?
-Bem,não há dúvida que o garoto tem um futuro promissor,literariamente falando.Mas vou lhe dizer qual foi a participação do Pt.As crianças os aceitam porque eles imitam os papagaios de verdade,com muita aproximação do real--não me canso de salientar o poder que a afetividade tem,ainda quando sua origem é uma máquina.O Pt tem as definições mais aceitáveis para um número enorme de palavras,tem toda a maquinaria lógica nele inserida,a qual escolhe e decide o que fazer do mesmo modo que acontece nos computadores.Ora,certamente ele tem as definições para “pombo” e “gavião”.Quando o garoto João manifestou seu desejo de escrever sobre o casal de pombos,o Pt deve tê-lo crivado de perguntas,tais como:Essa ave não será um gavião?Em que um gavião difere de um pombo?,etc.Quando o Pt Pacheco “viu” que a maioria das respostas dadas pelo João se casava com aquelas armazenadas nele sob a definição de “pombo”,passou a considerar esse objeto exterior como um pombo.Ora,existe um volume enciclopédico de conhecimentos acerca da história natural dos pombos.Assim,ele pode ajudar a aclarar todos os fatos sobre o comportamento dessa ave para o João,como o da regurgitação de comida,por exemplo.Mas foi o João quem primeiro notou os movimentos da regurgitação e sobre ele questionou o Pt Pacheco.
E no outro dia-na outra noite,para mim-encontrei-me com Mesoneive em frente ao Grupo Escolar.Depois de nos cumprimentarmos,ele me disse que mostraria um lugar interessante.À nossa esquerda,onde,em Calçado,existia um posto de saúde,fora construida uma espécie de galpão,em Além Calçado,de onde saia um bondinho com capacidade para seis pessoas,e por ele fizemos,pelo ar,rapidamente,o percurso do Grupo Escolar até um edifício de 10 andares,situado ao lado do Hospital de Além Calçado.
-No lugar para onde estamos indo são desenhados os corpos que tomaremos quando voltarmos ao plano terreno.O edifício é,todo ele,administrado por uma seção do Computador Central,que tem uma importância bem grande para a nossa cidade,e mais alguns robôs de arquitetura mais simples,desses que recolhem o lixo da cidade,por exemplo.
Ao contemplar Além Calçado do alto achei-a ainda mais bela.Uma mera mudança de posição no espaço em relação à cidade já fora responsável por uma melhor apreciação dela.Fiquei então a pensar em como mudaria minha perspectiva de vida quando retornasse para aquela dimensão ao morrer,e nas palavras de meu amigo que me assegurou que para muitos a visão se tornava mais profunda,a física e a mental.A metáfora era perfeita e nada incomum.Basta alguém subir um lugar alto e lá de cima contemplar a paisagem ao redor.Havia sem dúvida um impacto em nossa mente independente de nossa vontade.
Lá do alto,os jardins de Além Calçado ,todos formando variadas figuras geométricas,eram de uma beleza estonteante.À esquerda,um pouco além de uma colina verdejante,sobressaia a pedra do Jaspe,um sulco dividindo-a em duas metades ligeiramente desiguais,em tons azulados menos intensos do que aqueles do céu matutino.Pedras bem menores se elevavam à sua direita e à sua esquerda,como filhas anãs duma mãe majestosa.E já dentro da cidade,examinava eu a linha avermelhada e escura dos telhados das casas que subiam a ladeira até a Igreja,ou,continuando para a esquerda,até o Colégio.Entre os dois grandes jardins,debaixo de árvores frondosas,agora livres da praga dos lacerdinhas,brincavam as crianças,conversavam os velhos,relembrando a vasta quantidade de casos acumulados ao longo de inúmeras existências.À direita,estendia-se ao longe a outra estrada pela qual se chegava à cidade,os pastos nos quais vcas pachorrentamente se alimentavam do capim que crescia com vigor,trançando-o na boca e o arrancando com suas línguas poderosas.O rio,límpido,largo,corria sinuoso,acompanhando a estrada em certos trechos.Nas suas margens um brilho metálico me despertou a atenção.O bondinho possuia telescópios de observação de todos os lados.Aproximei-me de um e o assestei para o alvo.Era um robô que acertava o capim alto que invadia o rio,aparando-o.Um outro robô,na outra margem,fazia o mesmo serviço.Não tinham forma humana nem precisavam ter.De uma caixa retangular ,de aparência maciça,sobre rodas de trator,pendia uma grande tesoura,que ia sendo habilmente manejada pelos braços robóticos.Perguntei a Mesoneive,numa pausa mais prolongada de sua conversa com os passageiros,sobre os robôs.Ele me disse que eles limpavam o rio desde o seu nascedouro até ao ponto em que ele deixava de ser o rio Além Calçado;que existiam outros robôs a serviço do rio: um que o dragava,outro que recolhia recolhia amostras de suas águas em diferentes segmentos dele,e a examinava,passando a seguir os dados para o Computador Central;que havia um outro encarregado de pegar peixes,retirar-lhes gotas de sangue e submetê-lo a testes,e cujos resultados seguiam igual destino;que havia outro,construido pelos estudantes mais hábeis do Colégio,que imitava a forma de um peixe.Era provido de uma câmera de filmar e assim varria grandes extensões do fundo do rio à cata de cenas da vida dos peixes em seu próprio habitat.Um exercício escolar e ao mesmo tempo um estudo da vida natural dos peixes;que calçadenses preocupados com a saúde do rio,quando dormiam,vinham logo ter com os habitantes de Além Calçado,especializados em técnicas de despoluição e ficavam longas horas a conversar.Desse intercâmbio brotavam idéias e planos interessantes.
Uma jóia faiscante,a cidade,que era agora fartamente iluminada pelo mesmo Sol amarelado de quinta grandeza.Segundo alguns,quando nossos olhos se libertarem de vez de todas as peias grosseiras impostas pelo nosso corpo,o Sol se mostrará ainda mais belo,outras cores surgindo de sua mais tórrida superfície.Veio-me à mente o Mito da Caverna, de Platão.Ao olhar a meu redor,notei que não só a expressão do olhar de Mesoneive,o qual finalizava a conversa,era de arrebatamento mudo,mas que também os quatro passageiros,moradores de cidade,igualmente se mostravam extasiados,em diferentes graus embora.
E mais alguns instantes e descemos na estação de destino,que ficava por sobre a laje do pórtico de entrada para o hospital,sustentado por quatro colunas graciosas.Ao sairmos,sentimos logo o aroma agradável dos eucaliptos e o som melodioso de seus galhos e folhas açoitados pelo vento,que ali soprava mais forte.
Apesar de idoso,conservava Mesoneive um notável vigor físico e uma extrema vivacidade intelectual.Ajudamos os quatro passageiros a descer do bondinho,pois todos estavam bastante fracos e iam rememorar alguns fatos de suas vidas passadas.Não era mera curiosidade da parte deles que os levava lá e sim a experiencia prática.Era útil repassar os erros passados para não os cometer novamente no futuro.
O edifício que abrigava a CCD era uma construção cilíndrica de dez andares e não chama a atenção exceto pelo fato de ser o único edifício de mais de dois andares na cidade.Por cima da porta de entrada, o nome da instituição que ali funciona está escrito em letras douradas:Central de Corpos e Destinos.Era ali que os corpos humanos eram desenhados.Todos os habitantes de Calçado e Além Calçado,isto é,os encarnados e os desencarnados,possuiam extensos arquivos no Computador Central,no qual suas características físicas e mentais eram armazenadas,assim como cada detalhe de suas vidas--não só aquelas referentes a uma existencia e sim a todas,desde que o Homem se pôs em posição ereta nas savanas africanas até hoje.Evidentemente,os seres humanos guardavam em suas memórias muito mais—quase se poderia dizer infinitamente mais—sobre suas próprias vidas do que os computadores podiam armazenar.
Tomamos o elevador e fomos então para o andar onde os corpos humanos eram desenhados.Entramos num vasto recinto que mais parecia com um escritório de arquitetura.Só que,ao invés das pranchetas,víamos várias espécies de lousas de desenho alinhadas.Por sobre elas desciam do teto baixo aparelhos articulados terminados em pontas,como os dos dentistas.Os técnicos,de pé,dentro de jalecos impecavelmente brancos,manejavam esses aparelhos,e deles saia uma luz colorida que ia atingir folhas plastificadas,que ficavam no fundo da lousa,em camadas sobrepostas,e nas quais eram feitas marcações.
Mesoneive parecia também ser bem relacionado ali,pois muitos técnicos o cumprimentaram e acabamos por chegar mais próximos a um deles para vermos o que era feito.Olhei para o fundo da lousa de desenho e tive um tremendo susto.Lá estava uma criança que aparentava ter a idade de um velho.Sua cabeça era horrivelmente grande,com pouquíssimos cabelos,seus membros miseravelmente atrofiados.A única coisa viva na criação eram os olhos,que se moviam rapidamente para todos os lados,como que tomada de pavor,sem nada compreender,sem nada poder compreender.A boca assemelhava-se à de um peixe voraz e às vezes dava a impressão de que ia abrir-se e abocanhar aquilo que a assustava.O nariz não existia,deixando à mostra dois pequenos orifícios por onde o ar era sugado com um som sibilante.
-Trata-se apenas da imagem animada de uma criança com hidrocefalia congênita,de origem genética.Caso um tanto raro.Muito deformada sim,mas humana.Todos os órgãos internos,desde o mais simples ao mais complexo,estão representados aí.Nada foi esquecido.
-Meu caro Antunes,qual a programação especial para esse corpo?-o técnico Antunes,depondo sobre a lousa de desenho um instrumento que estava usando,disse:
-Bem,a criança nascerá com hidrocefalia e morrerá aos 13 anos de idade.Sofrerá bastante desde seu nascimento;terá frequentes consvulsões,engasgos,crises respiratórias,arritmias cardíacas;devido ao retardo mental acentuado,não poderá aprender praticamente nada;terá uma vida vegetativa;mesmo que cirurgias sejam tentadas para drenar o excesso de líquido dentro da caixa craniana,tudo será em vão,pois o líquido encherá novamente as cavidades.
Agora,o técnico,com uma espécie de caneta,ia tocando na tela da lousa de desenho,dotada de ultra sensibilidade ao toque,perto da qual a tela de de nossos computadores dotados da mesma função parecia uma pedra bruta;à esquerda,no layout gráfico do software,numa tira de uns dedos de largura,apareciam todas as opções à disposição do operador.O técnico tocava rapidamente no menu e depois tocava na tela da lousa de desenho e surgia um órgão com toda riqueza de detalhes.Assim,vimos aquele futuro cérebro enfermo por todos os ângulos,com todas opções de tamanho,desde a intimidade de seu arranjo molecular,passando pela selva de seus bilhões de neurônios em plena atividade virtual,ate às suas interações com os outros órgãos.Pude ver então as células nos seus mínimos detalhes.Outro toque e apareceram os genes que alojavam as informações para a feitura daquele horrendo corpo.Um,em particular,revelava aberrações em sua configuração,em destaque.Toda informação deles era apresentada em fórmulas bioquímicas,biofícas e matemáticas,em outra sequencia;em figuras geométricas tão complicadas que fiquei a meditar por instantes em como alguém poderia apreender tudo aquilo,terminada a breve simulação.Não encontrei uma só fórmula conhecida.Aquilo tudo parecia estar escrito em chinês para mim.Mas afinal,depois de considerar tudo que havia visto,pensei na estranha armadilha que a natureza preparava com todos os requintes de crueldade para alguém,e senti uma profunda tristeza me apertar o coração.
-A vida segue estranhos caminhos.Não se deixe abater pelo que viu.Existe sempre uma luz depois do túnel,como se diz.
Houve um momento de silêncio,depois do qual Mesoneive apertou a mão do técnico Antunes.
-Desculpe-me tê-lo interrompido em seu trabalho-disse.
Ao sair do prédio,tive uma sensação de alívio de quem tivesse visto um filme de terror,cuja desagrável impressão fosse apagada pela luz do dia.Descemos uma rampa e caminhamos em direção ao mirante do hospital.Os robôs,na sua faina,já tinham desaparecido de nossa visão.Certamente continuavam seu trabalho de proteção e embelezamento do rio,longe do alcance de nossos olhos.
Por fim,Mesoneive,quebrando o silêncio,me perguntou:
-Sabe de quem será aquele corpo cujo desenho você viu?-Olhei para ele em muda interrogação.-Será o seu-disse ele.E antes que lhe pudesse dizer qualquer coisa,ajuntou:-Ânimo,meu amigo!Você já percorreu o terreno mais árido de sua redenção:já se arrependeu sinceramente do crime que praticou.Só lhe resta agora perdoar-se a si próprio.Para essa meta ser atingida com total eficácia,no entanto,você terá que sofrer na própria carne a dor que causou a outro.As coisas funcionam desta maneira.Somente sofrendo o que fizemos sofrer é que aprendemos a lição.Já os antigos hindus conheciam este mecanismo de causa e efeito e lhe davam o nome de Karma.Trata-se de uma lei da natureza tão real e imperativa quanto a da gravidade.Por quê existiriam leis para os corpos materiais e deixariam de existir para o mundo moral dos humanos?Não lhe pareceria estranho que assim fosse?Por outro lado,talvez você me pergunte a razão de eu lhe haver mostrado esses aspectos da vida e não outros.Digo-lhe logo,sem delongas,que lhe mostrei um pedacinho do futuro que o espera,com tudo que mais lhe interessa e que você poderá possuir,depois que se regenerar e fizer por merecer.


Carlos Rezende

 



 

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