 |
|
 |
Tenho setenta e nove anos e um grave problema no coração
que irá me matar com implacável certeza.O médico
que o diagnosticou foi taxativo e,ouso dizer,parecia referir-se
a mim como a um morto.
Contudo,mais enferma está minha consciência.A confissão
que fiz a um padre a sossegou em parte.Mas,infelizmente, não
sou dotado daquela ingenuidade que acredita que uma má
ação possa ser anulada pela absolvição
de um padre.
Ainda acordo no meio da noite com o suor a porejar-me de todo
o corpo,exercendo um esforço mental na tentativa de sufocar
o quadro em que me vejo a erguer uma grande pedra e deixando-a
cair, emprestando-lhe minha força,sobre a cabeça
do homem que eu já imobilizara no chão.Quando
a removo,sinto vontade de vomitar ao ver a massa sanguinolenta
,disforme a emplastrar a terra,embebendo-a de sangue e fluidos
dos tecidos esmigalhados.
A causa desse ato tresloucado?O ciúme,a mágoa
de ter sido repelido por uma mulher a quem amava apaixonadamente.
A covardia me impediu de me entregar à Justiça
dos homens;mas com infinitas vidas por viver,certamente haverá
uma em que este meu débito será cobrado-e com
os juros devidos.Acredito,agora,que não foi esta que
está acabando a última nem tampouco a primeira.
Devo urna explicação a população
de Calçado,que tão bem me acolheu,assim como o
fez a tantos outros, em situações diferentes da
minha.Saibam quantos estirem lendo esta narrativa,da qual tirei
uma cópia para o jornal ‘A Ordem’ e outra
para a revista digital ”O Broinha”,saibam,digo,
que estou morto e que em vida assassinei um homem da maneira
mais selvagem e torpe,e que,após isto, fugi e me refugiei
em Calçado.
Recordo-me perfeitamente de minha primeira experiência.Estava
dormindo,e de repente me vi fora de meu corpo.Tinha a certeza
de estar fora de meu corpo,embora não soubesse dizer
onde estava eu.Fui tirado dessa incerteza angustiosa por uma
forma humana toda vestida de dourado.Não vejo seu rosto.Em
uma das mãos ela segura uma folha flexível de
material para mim desconhecido.Ao ser desenrolada pelo vulto
humano,produzindo um som semelhante ao de uma máquina
antiga de projetar filme.Vejo então que,à medida
que a folha é desenrolada,letras grandes de imprensa
começam a surqir nela,parecendo línguas de fogo,que
formam nomes.Sei que esses nomes estão sendo escritos
para que eu os leia,mas me recuso a fazê-lo.Aí
então me lembro de meu corpo e sinto que é o meu
único refúgio.Dirijo-me para ele mas não
o vejo;sinto só que ele está próximo de
mim e,então,como se pulasse de um trampolim,tenho a nítida
convicção de estar voltando a ele,tomando-o pelos
pés-e entro por debaixo dele como alguém que puxa
um grosso cobertor para se cobrir.Nesse ponto, me vejo sentado
na cama e muito aflito.Não sinto ter acordado de um sonho
e sim ter voltado de um lugar mais real do que o mundo em que
vivemos.Lembro-me da caverna platônica.Não,não
foi um sonho.Sei como é acordar de um sonho.Uma alucinação?Nunca
sofri de alucinação mas algo me diz que também
não foi isto.
Duas noites depois,experimento esse fenômeno novamente.Dessa
vez,porém, sou logo transportado para uma cidade que
me é familiar.Mas me sinto tão confuso e os arredores
estão envolvidos num nevoeiro tão baixo e espesso,que
minha perturbação se acentua.Sento-me numa pedra,tiro
os óculos,limpo-os bem e volto com eles para cima do
nariz.Minha confusão mental é tão grande
que penso em sair correndo em qualquer direção-melhor
que ficar ali numa expectativa que parece não ter fim.Mas,nisso,vejo
uma figura humana romper o nevoeiro e caminhar em minha direção.Sinto
que há algo de muito familiar nela.Trata-se de um homem
de estatura medïana, um tanto encurvado,de barbas brancas
e expressão fechada,grave.Por vestimenta,enverga uma
espécie de uniforme cáqui usado pela Legião
Francesa.Sim,é o Mesoneive,com a aparência que
tinha quando morreu.
Estende-me a mão ao se por a meu alcance.Hesito em estender
a minha.Sinto que irei apertar a mão gelada de um defunto.Mas
rapidamente raciocino que o fato de alguém estender-me
a mão é uma prova inequívoca de que ela
não está morta.Além do mais,tudo que posso
ver dele se assemelha tanto ao que uma pessoa de carne e osso
exibiria,que não há qualquer dtferença,mesmo
nos mínimos detalhes.Mesoneive coça as pálpebras
de um olho,os fios de sua barba se agitam ao sabor do vento,o
tórax se dilata e se comprime por efeito da respiração;enfim,tenho
em minha frente um ser humano.E que me pergunta numa voz calorosa,com
ligeiro sotaque estrangeiro:
-Como está passando,R...?
-Um pouco confuso.Mas,sem dúvida,sua presença
me traz um certo alívioEm que lugar estou, Mesoneive?
-Você está em Além Calçado,a cidade
de Calçado no Outro Mundo,no Etéreo,no Mundo Espiritual.Dê
o nome que quiser.O certo é que estamos em outra dimensão,
-E essa cidade de Além Calçado é uma réplica
de Calçado?
-Exatamente o contrário.Calçado é que é
uma réplica de Além Calçado,uma vez que
esta última já existia muito antes de a Calçado
terrena ser colonizada pelos pioneiros José Francisco
Furtado,Marciano Lúcio e o Caboclo Valério,conforme
foi estabelecido pelo historiador Pedro Teixeira,ilustre filho
da cidade,em um de seus vários livros, “São
José do Calçado:A saga de uma raça capixaba”.Aqui
nesta dimensão preferimos acrescentar o Além ao
nome e ficou sendo Além Calçado.Isto tem uma importância
prática,claro.Produzimos muita documentação
oficial e nela temos de distinguir uma cidade da outra.
-Documentação?!
-A vida continua,R..., e com ela todo o cortejo de sucessos,
processos,trivialidades,dramas,tragédias e comédias
que a caracterizam.Poderia até não ser assim,poderia
até não existir absolutamente nada no Universo
deste lado-mas o fato é que existe,que você virá
pare cá tão logo morra e ainda renascerá
depois e depois,sempre adquirindo mais experiência e prosseguindo
numa jornada sem fim.A vantagem nisso é que quanto mais
nos aperfeiçoamos,mais alegres e felizes ficamos.Não
fosse assim,seria uma jornada sem objetivo,absurda.
- O imbecil que vive rindo,deste modo,é mais feliz que
você,Mesoneive,com sua aparência carrancuda?Você
não tinha um espírito particularmente religioso
quando vivo,quero dizer,quando estava em Calçado...
-Existe um contentamento interior que nenhum riso pode exprimir,que
não se trai nem por um sorriso.Estude o esplendor na
face de alguns anjos pintados por um grande artista e você
saberá de que falo.Quanto ao fato de ter parecido um
cético para vocês,que importa isso?Acreditando
ou não em Deus,sendo budista, católico, protestante,
espírita,muçulmano ou o que seja,todos possuimos
uma substância que se destaca do corpo com a morte e tem
vida própria.Ora,se existe essa coisa,ela certamente
terá que estar num determinado lugar.Quando se diz que
um lápis existe,pensamos logo que ele deverá estar
em algum lugar,já que existe.O mesmo se dá com
essa substância que,em essência,somos.
Neste ponto minha visão de Mesoneive começou a
se tornar cada vez menos nítida,o som de sua voz me chegava
mais amortecido aos ouvidos--até que acordei.
Entretanto,na noite seguinte,nem bem começo a dormir
e sou logo transportado para Além Calçado.E Mesoneive,meu
anfitrião,já me aguarda.Inevitável a comparação
com Dante e Virgílio,na Divina Comédia.O nevoeiro
espesso dos primeiros dias já desaparecera.Estávamos
a uns três quilômetros da Vala e vínhamos
conversando pelo acostamento,eu observando os estranhos e silenciosos
automóveis daquele mundo,e os extensos barracões
feitos de um material que parecia plástico,em ambas as
margens da estrada.Perguntei logo a Mesoneive:
-O que são aqueles barracões?
-São pequenos sítios que exploram culturas hidropônicas.
-Hidro...o quê?
-Plantas comestíveis cujas raízes ao invés
de serem enterradas na terra são cultivadas numa solução
aquosa nutritiva.Nunca viu?
-Agora me lembro de ter ouvido falar.Que coisa ter que vir ao
outro lado da vida para conhecer uma cultura hidropônica...
Mesoneive pareceu divertir-se com a minha observação.E
sempre desejoso de informar e esclarecer,ajuntou:
-Você verá culturas hidropônicas aqui para
todo lugar que for.Aqui em Além Calçado,na verdade,são
até poucas.Saiba que tudo que comemos neste mundo vem
dos vegetais.Acrescente a isso a nossa escassa mão-de-obra,que
nos fez desenvolver ao máximo as técnicas de automação,a
nossa preocupação com o meio ambiente,que nos
faz pensar duas vezes antes de diminuir o tamanho de nossas
reservas florestais e verá que não tínhamos
outra saída senão aquela apontada pela razão,ou
melhor,o simples bom senso que enxerga dois palmos além
do nariz.Muito ao contrário de seu mundo,que caminha
em largas passadas para um desastre planetário.O aquecimento
global parece irreversível para alguns cientistas da
Terra.A chamada Hipótese Gaia,proposta pelo inglês
James Lovelock,segundo a qual a Terra seria um superorganismo
vivo capaz de se auto-ajustar,reagindo aos fatores humanos introduzidos
de modo a desequilibrar o seu sutil mecanismo,está de
acordo com os planos divinos que regem o Universo,embora aquele
cientista tenha feito deduções um tanto pessimistas
com base nos dados que coletou.A Terra é uma grande mãe
para todas as formas de vida,desde o vírus e as bactérias
até o homem.Cada um desempenha um papel importante na
economia do planeta mas,quando um desses organismos,ameaça
os outros direta ou indiretamente,as leis divinas intervêm.Em
último caso,quando todas as possíveis soluções
fracassarem,não tenha dúvida que as mais drásticas
poderão ser adotadas.Se a Inteligência que habita
o Universo não puder se desenvolver na espécie
humana,não tenha dúvida que a própria Terra
se encarregará de exterminar o homo sapiens e permitir
que nova forma de vida evolua e reassuma a posição
que o Homem não soube honrar.
Quando nos aproximávamos da ponte,reparei no rio de Além
Calçado e não pude deixar de observar:
-Nós,calçadenses,estamos muito preocupados com
o rio que corre em CaIçado.Dada a sua enorme importância
como principal provedor do líquido vital para nossas
vidas,de sua não não menos importante função
de carreador de nossas impurezas físicas,de sua influência
sobre o clima local,não se falando das horas de entretenimento
sadio que ele nos proporcionara ao brincarmos em suas águas,ele
é,para nós,como que um camarada de infância
que tivesse participado de nossas brincadeiras e que agora constatássemos
estar muito doente.
-Tão ou mais importante que falar é agir.Temos
acompanhado os trabalhos que se desenvolvem em Calçado.Em
última analise,irão,todos eles,melhorar a qualidade
de vida dos que habitam Calçado.Aqui sou uma espécie
de coordenador e conselheiro e em todas a reuniões de
que participo sempre relembro que a Terra é como nossa
casa.Tudo o quc fizermos de ruim para ela,estaremos fazendo
para nós próprios.Não estaremos tão
somente piorando a vida de nossos filhos e netos,o que já
seria o suficiente para pensarmos mais seriamente sobre nossos
atos, mas sim piorando a nossa própria vida nun futuro
próximo,porque,via de regra,quase sempre reencarnamos
no planeta Terra.Além do mais,o que vale para a Terra
vale para todos os outros planetas habitados de nossa Via Láctea
e dos bilhões de outras galáxias até agora
conhecidas.
Caminhávamnos pela ponte.Por debaixo dela corria um rio
largo,fundo e de águas tão puras que enxergávamos
o escuro e o colorido dos peixes nadando em grandes cardumes
ou solitáriosAs margens ostentavam um capim muito verde
entremeado de plantas de flores muito azuis,que nos mandavam
um aroma embriagante,que tinha o poder de se confundir com nossos
sentimentos e recordações,e envolvê-los
de tal maneira que quando sentíssemos um,os outros também
se apresentariam à nossa mente,tal como ocorre com uma
música que nos faz lembrar de nossa namorada.Já
agora,víamos com mais atenção a fachada
das moradias.
-São,todas elas,casas simples mas com um quê característico
dos indivíduos que nelas descansam dos labores terrenos
e se preparam,com a ajuda de instrutores que vão de casa
em casa, para as suas novas ocupações nesta outra
dimensão.Só o trabalho é capaz de robustecer,aperfeiçoar
nossas aptidões e lançar raízes de outras
que nem sequer suspeitávamos existir em nósA vida
é um jogo de ação e inação;sem
a primeira,não tiraremos prazer da hora de recreio;sem
a relativa inação,não teremos a força
necessária para o trabalho.
Reconheci e cumprimentei vários calçadenses que
tinha conhecido em vida e que há muito não via.Timha
um monte de perguntas para lhes fazer mas Mesoneive me pôs
a andar.
-Não faltarão oportunidades para vocês conversarem.Aliás,quando
você dormia,vinha frequentemente para cá,com a
diferença de agora poder se lembrar de tudo que fez e
ouviu ao acordar.Nós o preparamos para isso.
Já faço incursões à cidade de Além
Calçado com mais tranqüilidade e com maior desembaraço.Meu
anfitrião Mesoneive já está a postos,e
tão logo nos reunimos,nos pomos a conversar enquanto
caminhamos.Estamos agora no “altiplano” ao redor
do qual,antigamente,na Calçado terrena,existia o bar
do Tião Machado e casas das quais não mais me
recordo e uma grande praça bastante arborizada,como centro.Para
minha surpresa,em Além Calçado,as árvores
ainda estavam lá,não tinham sido derrubadas,ao
contrário das de Calçado,que foram substituídas
por calçamento de pedra granito.Vários espíritos
desencarnados ainda crianças ali se divertiam a jogar
baleba(bola de gude),exatamente como eu as via fazer em Calçado.As
árvores,cuja espécie já não me recordo,eram
tão frondosas e compactas em sua disposição,que
os moleques brincavam a qualquer hora do dia,já que o
sol chegava ao chão enfraquecido,quando chegava.
-Foi uma pena terem cortado as árvores.
-Mas segundo eu soube,elas foram derrubadas por causa de um
inseto chamado lacerdinha.
-Sim,o que diz é correto.O inseto incomodava de verdade.Originou-se
na Ásia e foi introduzido no Brasil aí por volta
de 1961. Seu nome foi uma “homenagem” de inimigos
políticos do então governador do Estado da Guanabara,Carlos
Lacerda.Ele se propagava no ficus,a darmos crédito a
alguns estudiosos.Era de cor escura e devia ter cerca de 2 milímetros,o
adulto.
-Podia jurar que era bem maior.
-A memória,às vezes,nos engana... Mas,continuando
o que dizia,quando o lacerdinha entrava nos olhos das pessoas
costumava até deixá-las cegas por alguns segundos.Houve
tanta rec!amação por parte da população
que as árvores tiveram que ser sacrificadas.Soube que
aqui em Além Calçado elas tiveram o mesmo destino.Porérn,quando
se conseguiu a erradicação da praga,novas árvores
foram plantadasEra o que Calçado deveria ter feito.Todos
os esforços são válidos para a preservação
das áreas arborizadas.
E debaixo das árvores ficamos por um bom tempo,observando
as crianças em suas brincadeiras,até que achei
que era hora de me despedir de Mesoneive.
De outra feita, Mesoneive e eu estávamos na praça.Conversávamos
e observávamos tudo a nosso redor,quando ele disse de
um modo mais enfático:
-Como deve saber, o naturalista inglês Darwin acumulou
tantos fatos sobre os animais e o homem em seus iivros,que foi
inevitável concluir de tudo que as espécies animais
se transformam fisicamente ao longo do tempo.Ora,de tudo o que
tenho visto e estudado nesta dimensão,sou também
levado a concluir que o homem continua a se transformar.Que
a interrupção momentânea provocada pela
sua morte,não quebra o fio da meada.O princípio
inteligente,a alma ou qualquer outra palavra que você
lhe queira dar,segue sua vida neste plano atraído por
aquilo que mais acalentou em sua mente.”Onde está
seu coração,lá estará o seu tesouro,já
dizia um poeta.Demora aqui por um tempo maior ou menor e volta
à dimensão mais densa para continuar sua evolução.
-Acontece o mesmo com todos os animais?
-Acho que sim.Pelo menos,tenho estudado uma cadela calçadense
por vários anos e constatado que sua inteligência,por
exemplo,aumenta mais,de cada vez que ela retorna de uma vida
na Terra.Chame por Bolinha.
Gritei pelo nome Bolinha e vi logo um cão da raça
Irish setter vir correndo em nossa direção.Diante
de mim,deu um latido e abanou alegremente o rabo,como se me
conhecesse.Tinha pelagem abundante,castanha,olhos brilhantes
e inteligentes,uns 60 centímetros de altura-enfim,uma
bela cadela.
-Ela é completamente diferente da Bolinha que conheci.Por
quê ela atendeu quando gritei o nome Bolinha?É
mesmo a Bolinha?
-Não disse que os animais também evoluem?Ela guarda
todos os nomes que já 1he puseram.Já tomou a forma
de quase todas as raças de cachorro,em cada uma delas
encontrando um corpo no qual pudesse mais facilmente desenvolver
as qualidade mentais e físicas que diferenciam uma raça
canina de outra,mas sem perda de sua individualidade.Os cachorros
sem dono aqui,os chamados vira-latas,recebem tudo de que necessitam
da comunidade.Em troca,eles prestam serviço de grande
utilidade.Por exempio,se chega à nossa cidade uma pessoa
que nunca veio aqui,os cachorros,com seu excelente faro,aqui
ainda mais aguçado,logo se aproximam dela.Ora,em muitas
cidades daqui já é corriqueiro os cachorros mostrarem
o lugar para o qual alguém deseja ir mas não sabe
onde fica.Basta,então,dizer o nome do lugar e serão
atendidos por esses úteis serviçais dos humanos.Faça
você uma experiência.
Quis logo por à prova o talento do animal.E disse:
-Para o Grupo Escolar Manoel Franco,Bolinha!
Mas nem bem terminara de dizer todo o nome do colégio
para a cadela latir, como se houvesse entendido meu desejo.Apontou
a cabeça para uma direção e latiu novamente,olhando
para min,cauda agitada de excitação.Eu a segui,Mesoneive
me acompanhando.
Lá em cima estava a imponente fachada do Grupo Escolar.Aos
pés dele,o grande quadrilátero cujo centro estava
ocupado por um tabuleiro gigante de xadrez que qualquer um pode
usar.Quem não sabe jogar,pode aprender com as próprias
peças.Todas elas nasceram da nanotecnologia,a tecnologia
de fabricar coisas minúsculas(um motor,por exemplo),aliada
à inteligência artificial,aqui muito mais avançadas
que no plano terreno,que apenas engatinha,nesta área.As
peças,na verdade,são robôs em miniatura,
dotados de grande inteligência e plasticidade de expressão.O
rei,a rainha,o cavalo,o bispo parecem estar vivos.Na verdade,
eles podem conversar com os jogadores,sugerir jogadas,fazer
uma análise de cada lance ou partida.Ou podem simplesmente
ficar calados,dependendo do gosto de cada jogador.
-Para a direita,Bolinha.
E a Bolinha latiu em resposta e trotou para o lado direito do
Grupo Escolar.Ouvimos uma cantilena de vozes infantis.Mesoneive
parecia recordar-se de acontecimentos muito distantes,talvez
de sua meninice na França.Mas acabou por falar:
-São natimortos aprendendo a tabuadaMesmo aqui ainda
começamos do começo,com a vantagem de o aprendizado
ser muito mais acelerado e feito numa idade mais precoce.
Chamei a Bolinha e fiz festa em sua cabeça enquanto lhe
dava um petisco que Mesoneive carregava no bo!so.Depois que
ela comeu sua recompensa,eu lhe disse que voltasse para a praça.Ela
latiu e saiu em disparada,não antes de me lamber a mão
e efusivamente agitar sua cauda em saudação.
Voltando,entramos na bela construção,que se esparramava
de uma ponta a outra da larga praça Governador Bley.À
nossa direita estava a sala da diretora e um aviso,que dizia:”Qualquer
problema,favor dirigir-se à Professora Rita,sala n°
5.Ouvimos logo o burburinho das crianças em suas idas
e vindas aos banheiros.Dobramos à direita e chegamos
à sala que procurávamos.Lemos numa placa:”Classe
Profª.Merinha”.
Uma jovem professora interrompeu suas preleções
para atender Mesoneive.Quando a vi,senti tudo em redor começar
a rodar.Como o Mesoneive pudera me trazer ali?!Que brincadeira
mais cruel!
A professora Rita era ninguém mais ninguém menos
que a mulher por quem eu cometera o crime que destruíra
minha vida.Ela não me reconheceu.Eu,porém,a reconheci
assim que a vi.Rapidamente antigas recordações
voltaram à minha mente.O laranjal cujas frutas tinham
a coloração loira de seus cabelos.A sua imagem
se tornou mais nítida e pude vê-la a sentar-se
no chão com a graça que lhe era peculiar.Vi-me
sentado à sua frente e a vê-la espremer a laranja
que colhera e lhe dera descascada.Seu lindo rosto ovalado abrigava
olhos de cor azul,não muito encravados nas órbitas;o
nariz não era pontudo como esses que parecem poder furar
uma folha de papel;descia um pouquinho esparramado lateralmente;os
lábios era regulares,finos e o sorriso tinha o poder
de dobrar todas as minhas vontades recalcitrantes,fazendo-me
anuir a todos os seus desejos.O queixo tinha uma covinha minúscula
que eu adorava examinar,acabando por puxá-lo para baixo-o
que a fazia fingir que estava zangada comigo.Era o sinal para
lhe dar um beijo.Como eu adorava cada parte de seu corpo!Os
braços roliços,as espáduas e o busto sardentos,as
pernas esbeltas,nervosas e aqueles sapatinhos cor de rosa com
duas fileiras imitando flores e plantinhas penetravam meu coração
e uma onda de ternura saia de mim e a envolvia.Procurei,entretanto,
afastar todas essas miragens e concentrar-me no que via ali
na classe;do contrário enlouqueceria.
Soube que aquela classe destinava-se à recordação
dos ensinamentos terrenos,como preparação para
a aquisição dos novos conhecimentos,mais avançados,daquela
dimensão.Enquanto os dois confabulavam,examinei a classe.Eram
cerca de 20 crianças de ambos os sexos.Os meninos trajavam
bermuda azul e blusa branca e as meninas podiam escolher entre
a saia e a bermuda.Ao lado de todas as carteiras havia um pedestal
com um poleiro e sobre este um papagaio em tudo parecido com
o que conhecíamos.Os cadernos tinham sido substituidos
por uma espécie de notebook,na falta em que me encontro
de compará-lo com qualquer outro objeto terreno.
-É um prazer recebê-los.A diretora já havia
me prevenido da visita de vocês;infelizmente,ela se encontra
acamada mas me disse para auxiliá-los no que for possível.Assim,fiquem
à vontade,examinem o que quiserem e me chamem,se precisarem
de ajuda.
-Obrigado,Rita.Por favor,continue sua aula.
- Prazer em conhecê-ia,professora Rita.
Não me contive e logo perguntei a Mesoneive sobre os
papagaios.
-Aqueles papagaios são outra criação da
nossa avançada nanotecnologia aliada à inteligência
artificial.Antes de serem fabricados,foi feita uma extensa pesquisa
de opinião entre os alunos para saber quais os animais
de que eles mais gostavam.Claro que o primeiro colocado foi
o cachorro.O segundo foi o papagaio.Então,optamos pelo
papagaio,mais adequado para os fins que tínhamos em vista.Eles
podem voar e acompanhar os estudantes empoleirados em seus ombros;com
suas garras e bico podem pegar coisas e passá-las com
facilidade para seus donos.Podem imitar a voz humana.Não
é preciso dizer que as crianças os adoram e os
levam para todos lugares.Cada estudante tem o seu e pode levá-lo
para casa,sair com ele para onde bem entender.
- Parece que as crianças se esqueceram do papagaio de
verdade...
-Não, não se esqueceram.Eles são a origem
de tudo.As máquinas produzidas pelos humanos serão
sempre máquinas.As vantagens delas sobre aquelas criadas
pela natureza estão no fato de realizarem determinadas
operações com extrema rapidez e sem se fatigarem.Guardam
um volume enorme de conhecimento que pode ser disponibilizado
a qualquer momento e todo ele compulsado.Veja o dicionário.Ele
mantém em ordem uma quantidade de definições
de palavras que cérebro humano algum consegue armazenar
e dá,quando bem manuseado,respostas rápidas.Mas
nunca deixará de ser um dicionário,ou uma máquina.Tomando
um termo da física,diremos que o conhecimento está
contido nele de uma forma estática enquanto que,na inteligência
a que chamaremos de natural,os conhecimentos se encontram em
forma dinâmlca.Machado de Assis e Shakespeare não
precisaram de todas as palavras contidas num dicionário
para compor suas obras.Além do mais,a evolução
sempre ocorre primeiro na inteligência natural e só
depois, por mediação desta inteligência,ela
é imitada na inteligência artificial.Pelo menos,assim
tem acontecido.As novas máquinas são como dicionários
bem mais complexos.Não,não os papagaios de verdade
não foram esquecidos.Porém,como criaturas vivas,criações
da Natureza,eles seguem a sua vida evolutiva e não é
correto constrangê-los para que se adaptem à satisfação
de nossos desejos.Eles não foram domesticados como os
cãesAqui,como não são caçados e
maltratados por ninguém,eles se aproximam de nós
sem qualquer medo e nos alegram com suas engraçadas algazarras.Eles
possuem uma individualidade que deve ser respeitada--aliás,assim
deveríamos proceder para com todas as criaturas viventes.O
princípio inteligente que as anima,daqui a alguns milhões
de anos,se tornará uma criatura humana como você
e eu,depois de atravessar toda a escala zoológica,depois
de assimilar toda a gama de inteligência e sensibilidade.
-Por quê aqueles garotos lá no pátio estão
isolados?O que fazem eles?
-Vamos perguntar a um deles.
Do corredor divisamos toda a extensão do pátio(em
Além Calçado,arborizado) do Grupo Escolar Manoel
Franco,com a quadra de jogos.O pau de sebo já fora erguido,as
bandeirinhas tremulavam ao vento e as lenhas das fogueiras já
tinham sido dispostas no arranjo bem conhecido,uma vez que as
festas juninas se aproximavam.
E fomos até um dos garotos,que tinha lá os seus
dez anos de idade;magro,cabelos negros revoltos,expressão
do rosto concentrada.Estava sentado num tronco de uma árvore,tinha
seu notebook e seu papagaio tutor pousado em seu ombro.Mesoneive
ergueu a cabeça e lhe perguntou como se chamava.Disse
chamar-se João.Perguntamos o que fazia.Respondeu o garoto:
-Estou preparando o meu dever de casa.Estou observando aquele
casal de pombos que fez ninho naquela caixa presa à parede
externa do banheiro masculino.
-Não está muito distante?
-Que nada!Meu caderno...
-Seu notebook,quer dizer...
-Bem,nós o chamamos de Caderno.Meu Caderno tem um possante
telescópio embutido nele,logo aqui em baixo.Estou vendo
na tela os pombos como se eles estivessem em minhas mãos.E
escrevo no Caderno o que eles fazem,com a ajuda do Pacheco.Eu
e o Pacheco estamos sempre trocando idéias sobre o que
escrevo.Nem sempre ele está com a razão...
-E Pacheco é o papagaio?
_É.Você não mora em Além Calçado?Pacheco
é o nome que dei ao meu papagaio tutor-Pt Pacheco.
Aqui,o tutor Pacheco,exibindo-se,subiu até o topo da
árvore,valendo-se das garras e bico e,lá das grimpas,voou
mais alto e deu um mergulho de ponta cabeça em direção
ao chão,endireitando-se quase a tocar nele,enquanto dizia:
-Seja bem-vindo,forasteiro!Quer que lhe conte a história
de Além Calçado?Ou talvez queira que lhe demonstre
um teorema matemático?Ou lhe conte uma piada de português?É
só perguntar,estou a seu dispor.
O papagaio tutor Pacheco tinha o timbre de voz de um verdadeiro
papagaio,só que,a contrário de seu modelo original,entendia-se
perfeitamente o que ele falava.Tinha ainda os seus trejeitos
e manhas,e o superava em inteligência,embora a sua fosse
artificial.Tudo nele era tão bem acabado que poderia
enganar facilmente um experiente ornitologista.Fora construido
com base na espécie A.Amazonica.Seu tamanho excedia em
20 centímetros seu modelo original,cujo maior exemplar
tinha uns 40 centímetros,da ponta do rabo a cabeça.A
fronte do Pt Pacheco era de um azul claro,a garganta,a face
e o alto da cabeça larga e grande eram amarelos,sendo
o restante colorido com todos os cambiantes do verde,exceto
os encontros das asas,que eram vermelhos.O curto rabo quadrado
era um entremeado de cores.O bico robusto e curvo,com a parte
superior levemente amarelada,repousava sobre a parte inferior,menor
de um terço.Enquanto falava suas penas se eriçavam,ora
as do topete,ora as do dorso,da nuca;as do rabo às vezes
se abriam em leque;espreguiçava as asas;arrumava todas
com um agitar de todo corpo semelhante ao do cachorro que se
livre da água depois do banho;seus olhos eram brilhantes
,de íris marrom escura e ele as comprimia ou as aumentava
conforme a importância do que dizia,como a dar ênfase.Ainda
que não mexesse um só músculo,uma só
pena,o Pt Pacheco tinha a imponência e graça das
aves de rapina que enfeitam as armas e brasões de nações
ou tradicionais famílias do velho continente que se gabam
de seus feitos e querem ostentar poderio.
-Pacheco e o Caderno,quando se trata de demonstrar um teorema
de geometria,trabalham em conjunto.E a prova pode ser repetida
um sem número de vezes,até o estudante entender
e gravar todos os passos dela.As representações
são jogadas na tela do Caderno,em três dimensões
ou podem ser reproduzidas holograficamente no espaço.Confesso
que sou particularmente interessado nestas demonstrações...Pode
me dar o seu Caderno para eu mostrá-lo a esse meu amigo,João?
-Claro-disse João-Tome.Estou com o trabalho adiantado.Devo
terminá-lo amanhã ou depois.
-Leia o que já está escrito na tela.
Peguei o Caderno e comecei a ler a composição
do garoto João:Observando um Casal de Pombos(era seu
título).Dia Primeiro: Um casal de pombos fez ninho numa
caixa de madeira.Pronto o ninho,pai e mãe ficaram aguardando
que um filhote de pombo morresse em Calçado para o acolherem
em Além Calçado,pois assim está gravado
em seus instintos.Não demorou muito para que uma nuvenzinha
azulada se formasse sobre o ninho.Ela se contorcia,se adensava
e se distendia,até que se imobilizava e ia desaparecendo,para
em seu lugar surgirem dois filhotes fraquihos,que começaram
a piar,onde nada havia antes.Seus novos pais punham-se logo
a cuidar deles.Um deles voava para buscar comida enquanto o
outro arrumava as penugens em desalinho de seus filhotes.Segundo
dia:Como não vejo comida nos bicos dos pais,sou levado
a acreditar que ela é regurgitada aos filhotes,que escancaram
seus bicos para que seus pais neles introduzam a comida.Já
agora,eles têm melhor aspecto.Crescem com rapidez.Já
arrumam com o bico a própria plumagem.Emitem já
pios audíveis quando são alimentados.Terceiro
dia:Seus pais já os deixam sozinhos por mais tempo agora.Embora
possuam força suficiente nas pernas para se porem de
pé,mantém-se afastados da beira da caixa.Um dos
filhotes não gosta de estar todo o tempo debaixo da mãe
e sai para observar as coisas em redor.Quarto dia:Os filhotes
já estão com a plumagem com a qual,acredito,deixarão
o ninho.Um dos pais,ao regurgitar a comida,estremece o corpo
desde o bico até a cauda.Esse,não sei se macho
ou fêmea,parece dominar melhor a técnica,pois fica
mais tempo fora do ninho e quando retorna,passa mais tempo a
regurgitar.Quinto dia:Os filhotes levantam ao máximo
suas asas e as batem,exercitando-se para a futura vida alada,que
está próxima,estando suas penas completamente
implantadas.
Devolvi o Caderno a João e lhe dei parabéns pelo
trabalho.
-Ele tem ótima capacidade de observação,sem
dúvida,e já exibe um belo estilo e correção
gramatical também.Mas até que ponto esse trabalho
é obra dele e não do Pt,o papagaio tutor?
-Bem,não há dúvida que o garoto tem um
futuro promissor,literariamente falando.Mas vou lhe dizer qual
foi a participação do Pt.As crianças os
aceitam porque eles imitam os papagaios de verdade,com muita
aproximação do real--não me canso de salientar
o poder que a afetividade tem,ainda quando sua origem é
uma máquina.O Pt tem as definições mais
aceitáveis para um número enorme de palavras,tem
toda a maquinaria lógica nele inserida,a qual escolhe
e decide o que fazer do mesmo modo que acontece nos computadores.Ora,certamente
ele tem as definições para “pombo”
e “gavião”.Quando o garoto João manifestou
seu desejo de escrever sobre o casal de pombos,o Pt deve tê-lo
crivado de perguntas,tais como:Essa ave não será
um gavião?Em que um gavião difere de um pombo?,etc.Quando
o Pt Pacheco “viu” que a maioria das respostas dadas
pelo João se casava com aquelas armazenadas nele sob
a definição de “pombo”,passou a considerar
esse objeto exterior como um pombo.Ora,existe um volume enciclopédico
de conhecimentos acerca da história natural dos pombos.Assim,ele
pode ajudar a aclarar todos os fatos sobre o comportamento dessa
ave para o João,como o da regurgitação
de comida,por exemplo.Mas foi o João quem primeiro notou
os movimentos da regurgitação e sobre ele questionou
o Pt Pacheco.
E no outro dia-na outra noite,para mim-encontrei-me com Mesoneive
em frente ao Grupo Escolar.Depois de nos cumprimentarmos,ele
me disse que mostraria um lugar interessante.À nossa
esquerda,onde,em Calçado,existia um posto de saúde,fora
construida uma espécie de galpão,em Além
Calçado,de onde saia um bondinho com capacidade para
seis pessoas,e por ele fizemos,pelo ar,rapidamente,o percurso
do Grupo Escolar até um edifício de 10 andares,situado
ao lado do Hospital de Além Calçado.
-No lugar para onde estamos indo são desenhados os corpos
que tomaremos quando voltarmos ao plano terreno.O edifício
é,todo ele,administrado por uma seção do
Computador Central,que tem uma importância bem grande
para a nossa cidade,e mais alguns robôs de arquitetura
mais simples,desses que recolhem o lixo da cidade,por exemplo.
Ao contemplar Além Calçado do alto achei-a ainda
mais bela.Uma mera mudança de posição no
espaço em relação à cidade já
fora responsável por uma melhor apreciação
dela.Fiquei então a pensar em como mudaria minha perspectiva
de vida quando retornasse para aquela dimensão ao morrer,e
nas palavras de meu amigo que me assegurou que para muitos a
visão se tornava mais profunda,a física e a mental.A
metáfora era perfeita e nada incomum.Basta alguém
subir um lugar alto e lá de cima contemplar a paisagem
ao redor.Havia sem dúvida um impacto em nossa mente independente
de nossa vontade.
Lá do alto,os jardins de Além Calçado ,todos
formando variadas figuras geométricas,eram de uma beleza
estonteante.À esquerda,um pouco além de uma colina
verdejante,sobressaia a pedra do Jaspe,um sulco dividindo-a
em duas metades ligeiramente desiguais,em tons azulados menos
intensos do que aqueles do céu matutino.Pedras bem menores
se elevavam à sua direita e à sua esquerda,como
filhas anãs duma mãe majestosa.E já dentro
da cidade,examinava eu a linha avermelhada e escura dos telhados
das casas que subiam a ladeira até a Igreja,ou,continuando
para a esquerda,até o Colégio.Entre os dois grandes
jardins,debaixo de árvores frondosas,agora livres da
praga dos lacerdinhas,brincavam as crianças,conversavam
os velhos,relembrando a vasta quantidade de casos acumulados
ao longo de inúmeras existências.À direita,estendia-se
ao longe a outra estrada pela qual se chegava à cidade,os
pastos nos quais vcas pachorrentamente se alimentavam do capim
que crescia com vigor,trançando-o na boca e o arrancando
com suas línguas poderosas.O rio,límpido,largo,corria
sinuoso,acompanhando a estrada em certos trechos.Nas suas margens
um brilho metálico me despertou a atenção.O
bondinho possuia telescópios de observação
de todos os lados.Aproximei-me de um e o assestei para o alvo.Era
um robô que acertava o capim alto que invadia o rio,aparando-o.Um
outro robô,na outra margem,fazia o mesmo serviço.Não
tinham forma humana nem precisavam ter.De uma caixa retangular
,de aparência maciça,sobre rodas de trator,pendia
uma grande tesoura,que ia sendo habilmente manejada pelos braços
robóticos.Perguntei a Mesoneive,numa pausa mais prolongada
de sua conversa com os passageiros,sobre os robôs.Ele
me disse que eles limpavam o rio desde o seu nascedouro até
ao ponto em que ele deixava de ser o rio Além Calçado;que
existiam outros robôs a serviço do rio: um que
o dragava,outro que recolhia recolhia amostras de suas águas
em diferentes segmentos dele,e a examinava,passando a seguir
os dados para o Computador Central;que havia um outro encarregado
de pegar peixes,retirar-lhes gotas de sangue e submetê-lo
a testes,e cujos resultados seguiam igual destino;que havia
outro,construido pelos estudantes mais hábeis do Colégio,que
imitava a forma de um peixe.Era provido de uma câmera
de filmar e assim varria grandes extensões do fundo do
rio à cata de cenas da vida dos peixes em seu próprio
habitat.Um exercício escolar e ao mesmo tempo um estudo
da vida natural dos peixes;que calçadenses preocupados
com a saúde do rio,quando dormiam,vinham logo ter com
os habitantes de Além Calçado,especializados em
técnicas de despoluição e ficavam longas
horas a conversar.Desse intercâmbio brotavam idéias
e planos interessantes.
Uma jóia faiscante,a cidade,que era agora fartamente
iluminada pelo mesmo Sol amarelado de quinta grandeza.Segundo
alguns,quando nossos olhos se libertarem de vez de todas as
peias grosseiras impostas pelo nosso corpo,o Sol se mostrará
ainda mais belo,outras cores surgindo de sua mais tórrida
superfície.Veio-me à mente o Mito da Caverna,
de Platão.Ao olhar a meu redor,notei que não só
a expressão do olhar de Mesoneive,o qual finalizava a
conversa,era de arrebatamento mudo,mas que também os
quatro passageiros,moradores de cidade,igualmente se mostravam
extasiados,em diferentes graus embora.
E mais alguns instantes e descemos na estação
de destino,que ficava por sobre a laje do pórtico de
entrada para o hospital,sustentado por quatro colunas graciosas.Ao
sairmos,sentimos logo o aroma agradável dos eucaliptos
e o som melodioso de seus galhos e folhas açoitados pelo
vento,que ali soprava mais forte.
Apesar de idoso,conservava Mesoneive um notável vigor
físico e uma extrema vivacidade intelectual.Ajudamos
os quatro passageiros a descer do bondinho,pois todos estavam
bastante fracos e iam rememorar alguns fatos de suas vidas passadas.Não
era mera curiosidade da parte deles que os levava lá
e sim a experiencia prática.Era útil repassar
os erros passados para não os cometer novamente no futuro.
O edifício que abrigava a CCD era uma construção
cilíndrica de dez andares e não chama a atenção
exceto pelo fato de ser o único edifício de mais
de dois andares na cidade.Por cima da porta de entrada, o nome
da instituição que ali funciona está escrito
em letras douradas:Central de Corpos e Destinos.Era ali que
os corpos humanos eram desenhados.Todos os habitantes de Calçado
e Além Calçado,isto é,os encarnados e os
desencarnados,possuiam extensos arquivos no Computador Central,no
qual suas características físicas e mentais eram
armazenadas,assim como cada detalhe de suas vidas--não
só aquelas referentes a uma existencia e sim a todas,desde
que o Homem se pôs em posição ereta nas
savanas africanas até hoje.Evidentemente,os seres humanos
guardavam em suas memórias muito mais—quase se
poderia dizer infinitamente mais—sobre suas próprias
vidas do que os computadores podiam armazenar.
Tomamos o elevador e fomos então para o andar onde os
corpos humanos eram desenhados.Entramos num vasto recinto que
mais parecia com um escritório de arquitetura.Só
que,ao invés das pranchetas,víamos várias
espécies de lousas de desenho alinhadas.Por sobre elas
desciam do teto baixo aparelhos articulados terminados em pontas,como
os dos dentistas.Os técnicos,de pé,dentro de jalecos
impecavelmente brancos,manejavam esses aparelhos,e deles saia
uma luz colorida que ia atingir folhas plastificadas,que ficavam
no fundo da lousa,em camadas sobrepostas,e nas quais eram feitas
marcações.
Mesoneive parecia também ser bem relacionado ali,pois
muitos técnicos o cumprimentaram e acabamos por chegar
mais próximos a um deles para vermos o que era feito.Olhei
para o fundo da lousa de desenho e tive um tremendo susto.Lá
estava uma criança que aparentava ter a idade de um velho.Sua
cabeça era horrivelmente grande,com pouquíssimos
cabelos,seus membros miseravelmente atrofiados.A única
coisa viva na criação eram os olhos,que se moviam
rapidamente para todos os lados,como que tomada de pavor,sem
nada compreender,sem nada poder compreender.A boca assemelhava-se
à de um peixe voraz e às vezes dava a impressão
de que ia abrir-se e abocanhar aquilo que a assustava.O nariz
não existia,deixando à mostra dois pequenos orifícios
por onde o ar era sugado com um som sibilante.
-Trata-se apenas da imagem animada de uma criança com
hidrocefalia congênita,de origem genética.Caso
um tanto raro.Muito deformada sim,mas humana.Todos os órgãos
internos,desde o mais simples ao mais complexo,estão
representados aí.Nada foi esquecido.
-Meu caro Antunes,qual a programação especial
para esse corpo?-o técnico Antunes,depondo sobre a lousa
de desenho um instrumento que estava usando,disse:
-Bem,a criança nascerá com hidrocefalia e morrerá
aos 13 anos de idade.Sofrerá bastante desde seu nascimento;terá
frequentes consvulsões,engasgos,crises respiratórias,arritmias
cardíacas;devido ao retardo mental acentuado,não
poderá aprender praticamente nada;terá uma vida
vegetativa;mesmo que cirurgias sejam tentadas para drenar o
excesso de líquido dentro da caixa craniana,tudo será
em vão,pois o líquido encherá novamente
as cavidades.
Agora,o técnico,com uma espécie de caneta,ia tocando
na tela da lousa de desenho,dotada de ultra sensibilidade ao
toque,perto da qual a tela de de nossos computadores dotados
da mesma função parecia uma pedra bruta;à
esquerda,no layout gráfico do software,numa tira de uns
dedos de largura,apareciam todas as opções à
disposição do operador.O técnico tocava
rapidamente no menu e depois tocava na tela da lousa de desenho
e surgia um órgão com toda riqueza de detalhes.Assim,vimos
aquele futuro cérebro enfermo por todos os ângulos,com
todas opções de tamanho,desde a intimidade de
seu arranjo molecular,passando pela selva de seus bilhões
de neurônios em plena atividade virtual,ate às
suas interações com os outros órgãos.Pude
ver então as células nos seus mínimos detalhes.Outro
toque e apareceram os genes que alojavam as informações
para a feitura daquele horrendo corpo.Um,em particular,revelava
aberrações em sua configuração,em
destaque.Toda informação deles era apresentada
em fórmulas bioquímicas,biofícas e matemáticas,em
outra sequencia;em figuras geométricas tão complicadas
que fiquei a meditar por instantes em como alguém poderia
apreender tudo aquilo,terminada a breve simulação.Não
encontrei uma só fórmula conhecida.Aquilo tudo
parecia estar escrito em chinês para mim.Mas afinal,depois
de considerar tudo que havia visto,pensei na estranha armadilha
que a natureza preparava com todos os requintes de crueldade
para alguém,e senti uma profunda tristeza me apertar
o coração.
-A vida segue estranhos caminhos.Não se deixe abater
pelo que viu.Existe sempre uma luz depois do túnel,como
se diz.
Houve um momento de silêncio,depois do qual Mesoneive
apertou a mão do técnico Antunes.
-Desculpe-me tê-lo interrompido em seu trabalho-disse.
Ao sair do prédio,tive uma sensação de
alívio de quem tivesse visto um filme de terror,cuja
desagrável impressão fosse apagada pela luz do
dia.Descemos uma rampa e caminhamos em direção
ao mirante do hospital.Os robôs,na sua faina,já
tinham desaparecido de nossa visão.Certamente continuavam
seu trabalho de proteção e embelezamento do rio,longe
do alcance de nossos olhos.
Por fim,Mesoneive,quebrando o silêncio,me perguntou:
-Sabe de quem será aquele corpo cujo desenho você
viu?-Olhei para ele em muda interrogação.-Será
o seu-disse ele.E antes que lhe pudesse dizer qualquer coisa,ajuntou:-Ânimo,meu
amigo!Você já percorreu o terreno mais árido
de sua redenção:já se arrependeu sinceramente
do crime que praticou.Só lhe resta agora perdoar-se a
si próprio.Para essa meta ser atingida com total eficácia,no
entanto,você terá que sofrer na própria
carne a dor que causou a outro.As coisas funcionam desta maneira.Somente
sofrendo o que fizemos sofrer é que aprendemos a lição.Já
os antigos hindus conheciam este mecanismo de causa e efeito
e lhe davam o nome de Karma.Trata-se de uma lei da natureza
tão real e imperativa quanto a da gravidade.Por quê
existiriam leis para os corpos materiais e deixariam de existir
para o mundo moral dos humanos?Não lhe pareceria estranho
que assim fosse?Por outro lado,talvez você me pergunte
a razão de eu lhe haver mostrado esses aspectos da vida
e não outros.Digo-lhe logo,sem delongas,que lhe mostrei
um pedacinho do futuro que o espera,com tudo que mais lhe interessa
e que você poderá possuir,depois que se regenerar
e fizer por merecer.
Carlos Rezende