São
José do Calçado, centenária, caminha devagar.
Pequena no porte e na economia. Já teve tempos de glória,
com suas fazendas de café, seus coronéis, capitães...
Desses só conheci o Capitão Cecílio, cujo
aspecto físico, por si só, impunha respeito. Tinha
como esposa a Memela do Capitão Cecílio, como
era conhecida. Brava como ela só, nos afugentava, pois
atacávamos suas mangueiras para matar a fome do meio
dia, na volta da escola e com um longo caminho a percorrer até
em casa.
Manga verde com sal grosso. Delícia!
No nosso Campo Santo, repousam os restos mortais dos Coronéis:
Teophilo Virgílio Lobo, Astolfo Virgílio Lobo,
Pedro Nolasco Vieira de Rezende.
Por essas ladeiras íngremes, hoje calçadas com
paralelepípedos, passavam carros de bois carregados de
sacas de café para o Departamento, lenha para os fogões
e fornos das padarias, arroz em casca para a máquina
do João Marcelino.
Por elas também passavam tropas, enterros.
Nestes vindos da zona rural, tendo à frente, uma tosca
cruz de madeira, com coroas de flores de papel crepom. Roxas
para os adultos, rosas ou azuis para as crianças. Elas
serviam para demarcar a cova rasa. Quase sempre não se
sabia a “causa mortis”.
Calçado de homens valentes, letrados, políticos
influentes já enaltecidos por muitos.
Quero relembrar os não citados e que também fazem
parte do “show” da vida. Dos que me recordam a infância
de menina da roça que vinha estudar na cidade “grande”.
- Vicentinho, como o próprio nome indica, miudinho, franzino,
esperto. Andava de lá para cá, subindo e descendo
a ladeira.
- Sr. Manoel do Grupo, que apontava nossos lápis, cujas
pontas se quebravam a toda hora (propositalmente), nos proporcionando
uma ida à varanda. E ele com seu canivete afiado, sempre
educado e prestativo. Com um sorriso meio comprometedor.
- João Gogó, que bebia todas e apareceu morto
debaixo da frondosa mexiriqueira, assustando a criançada
que aparecia por lá em busca das frutas ainda verdes.
- Dona Nenê Tatagiba, apaixonada por flores. Era comum
vê-la no jardim, cheirando uma por uma. Entrava na Igreja
e não fazia por menos, saía levando nos braços
as flores do altar, deixando as jarras vazias. Com certeza era
uma dádiva que os Santos lhe concediam com todo amor,
pois ela era mais uma ainda de passagem sobre a terra.
- Zezé Abdalah também deixou recordações.
- Dona Rita Silvino, que consagrou sua vida a cuidar dos padres
que vinham de outras terras exercer seu sacerdócio em
nossa pequena paróquia. Humilde. Plena na servidão.
- Dudu do Lelê, que também se foi e jamais será
esquecido.
- Zé Manada e sua companheira, a Cascuda, que dava bons
galopes na meninada que implicava com ela.
- Dona Amélia Teixeira, que fazia bonecas de pano para
vender. Como nunca foi afeita a bonecas, achava-as muito feias.
- Sr. José Hermógenes, aposentado da Prefeitura
e que também era retratista. De certa feita, eu e minha
prima Nininha, tiramos umas fotos 3 X 4, em preto e branco.
Fiquei uma “opa” (aqui me refiro à feiúra).
Minha prima ficou linda, porque era mesmo. Não concordei,
ele disse que não fazia milagre, eu também não
paguei. Dei o cano e nem peguei as fotos. Terei muito que pagar
no “além”, ainda mais se for cobrado juro
e correção monetária. Isso se o seu filho
Dr. Sinval não resolver cobrar em vida. Já pensou?
Senhor José Hermógenes tinha uma banda de Música
“A Euterpe” (nome da Deusa da música, da
mitologia Grega). Viu que importante? Ele era o maestro e seus
filhos tocavam nessa banda.
- Senhor Elpídio Sá Viana, que também era
maestro de outra banda. Seus filhos praticamente todos eram
músicos ou ainda o são. Nós chamávamos
essas Bandas de “furiosa”. O ritmo era acompanhado
pelas crianças que iam atrás cantando:
“Parará tchim, bum-bum! Parará tchim, bum-bum!”.
Ou então:
“Picolé de creme, côco, abacaxi, dá
piriri, da piriri”.
Dos viventes que ainda sobem e descem essas ladeiras e deixarão
recordações temos:
- O Paulinho da Vala, com suas passadas largas, outras vezes
absorto em seus pensamentos. Cumprimenta todos pelo nome. Sua
memória é um computador. Sabe a marca, o número
da chapa de cada carro da nossa cidade e de outros calçadenses
que moram fora.
- Temos também o Marquinhos, que agora é o “Guardião
da Igreja”. Cumpre religiosamente sua missão. Posta-se
à porta, espaventa os cachorros vira-latas, que antes
aproveitavam a porta aberta e se escondiam do sol, da chuva.
É comum ver-se o Vitinho entrando pela porta lateral
e o Marquinhos na porta da frente.
E o Padre Armando, do seu tumulo, fiscalizando os dois.
- Valdomiro, deformado fisicamente, umas dessas pessoas que
a vida negou quase tudo, a não ser o direito de viver.
- Senhor João Evangelista, com seus noventa e seis anos,
mas que ainda junta as perninhas ao som de um Bolero, no baile
da “melhor idade”.
- A Dona, octogenária e lá vai fumaça,
(pois esconde a idade) dia desses disse para mim: “- hoje
não posso dançar, tomei uns vinho”. Mas
ela nem dança mesmo, mas o “bafo” era verdadeiro.
Gente que desafia, que celebra a vida com alegria.
São amados e respeitados.
Assim é São José do Calçado, uma
cidade singular em todos os sentidos, como tantas outras. Mas
por sermos bairristas, é que a vemos melhor que as outras.
Mas seja bebendo todas (como João Gogó) ou não,
estamos todos a caminho do fim. Ainda bem, pior se não
tivesse, princípio, meio e fim.
Novembro de 2006.
Verconda Espadarote Bullus
vespadarote@hotmail.com