CARNEIRO INFERNAL



Os funcionários do INSS de Bom Jesus se reuniram na residência de Norberto Seródio Boechat, em Pirapetinga, para momentos de confraternização, quando um carneiro seria assado. Mas não foi um carneiro qualquer, nem um assado comum, desses que, há milênios, a humanidade está acostumada a ver. É claro que, desde que o homem descobriu o fogo, tem sabido assar carneiro ou qualquer outro quadrúpede, mas este em questão merece esta reportagem pela intrincada, especializada e misteriosa preparação. Começa a ser temperado com 48 horas de antecedência e, na manhã da festa, o ventre é recheado com arroz e lentilhas semi cozidos. É colocado, então, numa fornalha especial, denominada "tambor" que lembra mais uma locomotiva, algo que faria inveja a Júlio Verne ou ao nosso grande cientista, Benevides. O fogo foi aceso, debaixo do fantástico artefato, às 12 horas e, às 18 horas, o infeliz animal ainda estava cru. Não por falta de calor, pois o termômetro - isso mesmo, a geringonça tem até termômetro - marcava constantemente 200 graus centígrados e consumiu 5 metros cúbicos de lenha. Tamanho era o calor emitido que os responsáveis explicavam que não poderiam se responsabilizar pela segurança dos presentes, pois numa das efemérides, a energia gerada foi tamanha que o forno saiu em disparada, deixando o carneiro para trás. A expectativa era geral. Outro convidado dizia que a demora do processo era exatamente para permitir que os festeiros pudessem beber o bastante para aguentar o assado. Já era noite quando o bicho foi exposto, para gáudio geral e alívio dos ansiosos. Em tudo não foi um carneiro qualquer, como já disse, pois teve presença de candidato a prefeito, vereador, cabos eleitorais e até da ex-governadora Benedita. O fato é que ficou conhecido como carneiro atômico pelo medo dos presentes de que aquela coisa toda pudesse explodir e levar Pirapetinga pelos ares. Eu confesso, chegava perto, olhava e saía o mais rapidamente possível pois, mais de uma vez, percebí a maquinaria tremendo, como se fosse entrar em convulsão. No entanto, o mais importante da tarde foi a imensa alegria de ouvir Guido Rezende, com sua voz de tenor, cantar um hino de sua autoria em homenagem a Pirapetinga. Apesar do nível de etanol que pairava no ar, os aplausos foram sinceros e mostraram o quanto ele é querido por nossa terra. Esta matéria foi escrita pelo Dr. Norberto Seródio Boechat, filho de Agostinho Boechat e Iracema Seródio Boechat. Êle é natural de Pirapetinga e reside em Niterói, onde exerce a medicina. É um grande companheiro e amigo que fiz nas minhas andanças - políticas ou etílicas - que faço constantemente pelo interior do municipio de Bom Jesus do Itabapoana.

PEDRINHO CONDÉ

Pedrinho Condé, casado, familia numerosa, era nosso colono na lavoura de café. Numa tarde de sábado, missa na Igreja das Palmeiras, fazenda do Sr,Walder Vieira, nosso vizinho, e fomos todos para lá. Padre Gabriel, de Bom Jesus do Norte, já havia iniciado os rituais. Finda a cerimônia, fomos para a casa do Santo, juntamente com o vigário, tomar cerveja com tira-gosto de frango caipira frito e uma purinha. É bom esclarecer que Santo é o apelido do colono do Sr.Walder e morava numa casa vizinha à Igreja. Enquanto isso, corria lá fora um animado leilão de bezerros e barracas de salgados e bebidas. Terminadas as prendas, Ademar, nosso colono e tesoureiro da capela, foi fechar o caixa e chamou o Pedrinho para ajudar. Ademar foi logo dizendo: "Soma daí, compadre - leilão de bezerros deu tantos cruzeiros.." Pedrinho respondeu: "Hã". Ademar: "leilão de leitão deu tantos cruzeiros(não me recordo valores)..." e Pedrinho: "Hã". Barraca de pastel deu tanto" e Pedrinho novamente: "Hã". Ademar:"barraca de bebida e salgado teu tanto". De novo Pedrinho respondeu: "Hã". Ademar: Acabou compadre. Quanto rendeu? E este, olhando para o alto, como que calculando o total, disse com toda convicção: "Ih compadre, quanto não sei não, mas deu muito dinheiro".

Guido Rezende
guidorezende@hotmail.com



 

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