Caso-1
Minha irmã mais velha, Maria Alice, sempre morou na zona
rural, sendo a mais dinâmica de nossa irmandade. Aproveitando
noite clara de lua, já que o dia fora pequeno para os
afazeres da fazenda, foi, a cavalo, com o carreiro Chico Hermenegildo,
tocar para nossa ´propriedade um gado que comprara. O
rebanho era composto de cerca de quinze reses, sendo uma vaca
mestiça com bezerro novo e, portanto, por ciúmes
da cria, estava "pegando". Iam pela estrada quando
perceberam, ao passarem uma curva, um homem a pé. Temendo
que a vaca o machucasse, gritaram: "Corra, tem vaca brava".
O homem mais que depressa, atravessou uma cerca de arame farpado
e grritou: 'Ai, rasguei o saco'. Minha irmã e o Chico
apressaram os animais e foram socorrer o acidentado. Chico Hermenegildo
apeou do cavalo e perguntou: 'O que houve'?
Veio a resposta: 'Rasguei o saco'. Novamente o Chico: 'Tá
doendo muito? Dá para aguentar até eu buscar socorro
na cidade?'. E o homem, já pau da vida, retrucou: 'Doendo
o quê? Rasguei foi o saco de milho'.
Concluiu o Chico:
'Então não leve a mal. vou rir um bocado'.
Caso-2
Mané Felizardo, já falecido, era dessas pessoas
ao redor da qual tinha sempre um caso engraçado para
acontecer. Parecia que atraía. Pai de numerosa familia,
era nosso colono e morava na casa da beira da estrada. Determinado
dia, já começando a escurecer, armava temporal
feio e uma turma grande, composta de senhoras, moças
e crianças, passava pela estrada, vindo de Calçado
em direção ás propriedades vizinhas. A
chuva já começava a cair e o destino dos pedestres
ainda distava uns trinta minutos de marcha a pé. Pediram,
então, abrigo na casa do Mané. Teresão,
sua esposa, prontamente acolheu a todos - 'Boa tarde cumadi,
bença madrinha, bençoe minina, entra pra dentro
pra não gripar". E, assim foram cumprimentando e
entrando: a casa ficou cheia. Nesse meio tempo, conversa vai,
conversa vem e chuva caindo, as mulheres muito nervosas com
o temporal, tiveram vontade de ir ao banheiro, mas o 'quartinho'
era separado do corpo da casa e a chuva ñão permitia
que saissem. A única solução foi usar o
pinico que ficava embaixo
da cama do Mané e Teresão. Mané Felizardo,
naquela altura do campeonato, já estava deitado e coberto
até a cabeça, por medo dos raios e trovões
e, para não ser visto descomposto, estava só de
cueca, escondeu-se debaixo da cama. Teresão, sem tempo
para avisar, deixou as mulheres entrarem no quarto, uma a uma.
A rotina era uma só: puxavam o pinico urinavam e o empurravam
para baixo da cama. O pinico foi enchendo e o Mané Felizardo
já todo mijado com os respingos, aguentava firme. Passado
o temporal, as visitas foram embora e sai o Mané debaixo
da cama, todo molhado. Teresão olha para ele e repreende:'Mané
, que vergonha, todo mijado de medo de chuva". Veio a resposta:
"Teresa, minha filha, não é isto que você
está pensando, não fui que mijei. Quando vi a
situação das mulheres, me enfiei embaixo da cama
e a cada empurrada no pinico eu levava as lambujas todas na
cara. Não podia nem 'piscar1 para não fazer barulho'.
No dia seguinte, Teresão chamou a Maria Alice e contou
o caso no terreirão de café. A risadaria foi geral.
Caso-3
Corriam
os anos 80, não me recordo a data certa, somente sei
que era um sábado. Por volta do meio-dia, chegou um portador
com a noticia da morte do 'Seo' Lourenço, fazendeiro
na localidade de Santa Luzia, próxima a Conceição
de Muqui. Era desejo do 'Seo" Lourenço que quando
morresse - já estava enfermo há algum tempo -
minha irmã, Maria Alice, fosse avisada. Fazia questão
de sua presença. Maria Alice quando entrou para o magistério
fpo lecionar na fazenda Santa Luzia, de propriedade do casal
'Seo' Lourenço e D.Vitória e com eles morou por
mais de quatro anos. Era um casal descendente de italianos,
familia de muitos filhos e, para não fugir à regra,
todos muito trabalhadores. Minha irmã que sempre viveu
no meio rural e gostava, facilmente se adaptou ao pessoal e
todos tinham por ela grande consideração - tinham-na,
mesmo, como membro da familia. Ante a noticia, imediatamenrte
Maria Alice, muito medrosa, entrou em nosso carro, um Jeep 51,
juntamente com D.Eny e mais 3 casais moradores da nossa propriedade,
totalizando 8 pessoas adultas que foram espremidas para Conceição
de Muqui, onde o corpo estava sendo velado. Ficamos na fazenda
eu, Eulina, as crianças, meu pai e minha mãe.
Lá pela meia-noite, ouvimos o barulho do carro retornando
e fomos recebe-los. Abrimos a porta e, mais que depressa Maria
Alice e D.Eny entraram. Muito medrosa, tão logo fechara
a porta, começou a inspecionar tudo: atrás das
portas, janerlas e portas fechadas, embaixo das camas, comportamento
próprio de quem está com medo. De repente, lembrou-se
do pior - faltava desligar a luz que era fornecida por um motor
a óleo, instalado a cerca de 30 metros, nos fundos casa.
Noite sem lua, apavorada, Maria Alice apanhou a lanterna e me
chamou para ir com ela e lá fomos nós. Eu, empunhando
a lanterna e ouvindo recomendações e broncas de
minha irmã, movidas pelo medo, alegando que eu não
sabia segurar corretamente a lanterna. No meio do percurso,
havia uma moita de bananeiras e, quando a ultrapassamos sentimos
um sopro frio em nossas nucas, acompanhado de um gemido.Foi
o bastante para a lanterna voar no espaço, desprendendo
as pilhas e, s´viu e ouviu escuridão e gritaria.
Ante o susto que tomamos, apareceu a autora da brincadeira:
Eulina, minha esposa, sabedora do medo da Maria Alicee do trajeto
que faríamos, antecipou-nos e ficou à espreita
para nos assustar.
Caso-
4
Inicio
dos anos sessenta. Minha irmã, Maria Alice, lecionava
na Escola Singular das Palmeiras e morava no Alto Jardim, distante,
mais ou menos, 1 quilômetro da escola, no municipio de
Bom Jesus do Norte-ES. Certo dia, vindo a Bom Jesus e, ao retornar,
levou para roça tres sanduiches chamados de mixto-quente.
Naquele alto de serra, aquilo era novidade e
marcou época. Tão logo foi chegando e convidando
o pessoal que lá morava para comerem o tal mixto, no
que foi arguida, com desconfiança, por Chico Hermenegildo:
'Essa Maria Alice inventa cada coisa, pensa que sou bobo. Como
é que a gente vai comer aquilo?' O motivo da desconfiança
tinha lá suas razões, pois o único mixto
que conheciam era o trem de ferro que passava na estação
de Bom Jesus do Norte. Surgiu, então, o dia em que "Seu"
Wardimiro e D. Dorita foram a Bom Jesus consultar com o Dr.Edu.
O casal era idoso, mas ainda trabalhava na roça: ele,
plantando arroz, milho e feijão e ela, apalpando galinha,
cuidsando da horta e tratando de porco e cachorro. Levantaram
de madrugada, almoçaram e pegaram carona no caminhão
do leite, por volta das 7 e meia da manhã. Chegando à
cidade, foram direto para o consultório, sendo atendidos
às 11 horas aproximadamente. Terminada a consulta e já
com os remédios no embornal, ficaram aguardando que algum
carro da prefeitura os levassem de volta, o que aconteceu por
volta das 2 horas da tarde. Nesse tempo de espera, realizaram
uma ansiosa façanha:ompraram 1 mixto-quente e o levaram
para comer em casa, felizes como nunca. Logo após a chegada,
Maria Alice foi saber noticias sobre a consulta e encontrou
"Seu" Wardimiro comendo a metade do sanduiche, enquanto
a outra metade estava intacta, em frente `D.Dorita. Ante o quadro,
Maria Alice perguntou: "D.Dorita, a senhora não
vai comer o seu pedaço?" E a resposta veio logo:
"Vou sim, Maria, estou só esperando o Wardimiro
desocupar a dentadura".
Guido
Rezende
guidorezende@hotmail.com
