Coletânea de Contos


VELHOS TEMPOS, BELOS DIAS!





Era final de ano, ocasião em que reuníamos nossos colonos e suas famílias para confraternização. Eram em grande número: Ademar, Tãozinho Brandão, Eduardo, Sô Bim, Zé Silva, Bastião Cristino, Luizinho, Pedrinho Conde, João da Aparecidinha, Chico, Zezinho, além do pessoal do “Seo” Waldemar, colono do Sr.Walder Vieira e que morava no confronto de cerca. Totalizava, aproximadamente, umas 50 pessoas. Fazíamos uma “janta” {jantar é coisa da cidade}. A comida era frango, arroz, tutu de feijão com lingüiça de porco, macarrão, farofa, tudo feito pela Teresão. Tinha também, já ia esquecendo, o pastel do Teresão com “cacunda” de carne moída. Para beber, vinho e cachaça.

Com o passar das horas, fatos engraçados se sucediam: Ademar, que já não estava se equilibrando nas pernas e, ante a aproximadação de meu pai, respeitosamente, sentou-se no tanque da cozinha, só que este estava cheio de água. Zé Silva, na hora de ir embora, não achava a rédea do animal. Havia montado de frente para trás. Zezinho, nosso sanfoneiro, recebia repreensão do papai:”Você não toca merda nenhuma. Toda música é a mesma coisa”. Zuca, casada com Luizinho Fisguei, dançava rebolando, dizendo ser a “Greta” – dançarina e cantora da televisão. João da Aparecidinha, morador da casa do terreirão em frente à fazenda, sentindo o estômago enjoado e, acreditando wstar dentro de sua casa, abriu a janela pelo lado de fora e vomitou para dentro. Minha irmã Maria Alice, que sempre foi capeta puro, para ver o circo pegar fogo, misturava cachaça nos garrafões de vinho. Sô Bim, coitado, o único que não bebia, andava de um lado para outro, preocupado com os tombos inevitáveis dos companheiros.

A farra ia até tarde e, apesar do excesso de bebida, a festa sempre corria num clima de respeito e harmonia. Nunca houve desentendimentos. No dia seguinte, reuníamos no terreirão para relembrar os fatos e um fazer “hora” com a cara do outro.
Velhos tempos, belos dias!



ELEIÇÕES MUNICIPAIS - 1



Não me recordo o ano, somente sei que estava no período de escolha dos candidatos a prefeito de Bom Jesus do Norte. Milton Áreas, então prefeito, queria mostrar para Gerson Camata, sua força política no município, fazendo seu sucessor.

Na convenção, foram escolhidos e aprovados 3 candidatos: João Pedrosa, Firmino e, o terceiro nome, não poderia ser outra senão ..... Maria Alice., minha irmã. Acordo feito, sabia-se que a soma dos votos dos 3 candidatos, sendo superior à do adversário, o eleito seria o mais votado da coligação. Parecia até covardia, 3 contra 1. Porém, do outro lado o candidato a prefeito era Umberto Messias com Dr.Edu de vice. É perfeitamente dispensável dizer da força política de ambos.

Campanha solta, especulações, pesquisas, fofocas etc. Um dia, Justino Cordeiro, viu-me abastecendo meu carro em seu posto, chamou-me em seu escritório e foi fazer a distribuição dos votos. “Guido, a parenta tem uns 600 votos?” respondi “Tem sim. Talvez um pouco menos”. Justino continuou: “Vamos colocar 500 votos. João Pedrosa, que já foi vereador, uns 700 votos e o Firmino, certamente o mais votado dos 3, uns 1.000 votos. Somando a votação dos 3, dá 2.200 votos. O total de eleitores aqui não supera 3.400. Acredito que, com muito otimismo, o total de votos válidos, chegue na casa dos 3.200 votos”. Concluindo, deu um murro na mesa e jogando a caneta para cima, exclamou: “Ta ganha a eleição. Ninguém tira esta da gente”. Ainda ponderei que o outro ladoera fortíssimo, mas não teve jeito de frear o entusiasmo do companheiro.

Começam as visitas nas residências, tanto na cidade como na zona rural. Os comícios eram poucos. Maria Alice, sem saber falar em público, recorre à Nádia Teixeira de Rezende, viúva do nosso primo Oscar, para escrever seus discursos. Nádia, com toda sua competência, facilidade e boa vontade, aceita a incumbência.
Numa sexta-feira à noite, como de hábito, fomos para a roça, onde minha irmã morava. Chegando, deparamos com a Maria Alice, se “familiarizando” com o discurso, para evitar tropeços, na leitura. Começou assim: “DESCURSO’. Caímos na risada e ela perguntou: “Estão rindo de quê”? Após as gargalhadas, explicamos: Não é preciso dizer discurso, muito menos “descurso”. O comicio foi um sucesso, na praça principal, presença do Camata , e seu discurso muito bem escrito e lido. Faço um parênteses para dizer que uma das filhas da Nádia, de passagem para Calçado, reconheceu a redação de sua mãe e ficou até o final.

Campanha acirrada, eu, já não agüentava mais beber café adoçado com garapa, requentado, na zona rural.

Último comício, bairro “Silvana” – maior colégio eleitoral do município. Casa cheia. Palanque animado. Após vários oradores, anunciaram as falas dos candidatos a prefeito. Primeiramente ela, Maria Alice, recebida com muitos aplausos e foguetes. Na platéia, estávamos nós, recostados em nosso carro, um pouco afastadosda multidão. Minha irmã apanha o microfone, faz a saudação de praxe e enfia a mão no bolso à procura do discurso, e vem com ela vazia. Procura nos demais bolsos e nada. Aquele suspense. Ela já sem cor, suando, tentando se refazer. Meu pai, preocupado, olha para mim, que falo:”A desgraça vem agora. Aposto que deixou o discurso lá na roça. Será no improviso e lá vem merda”.

Ela, refeita do susto, chega mais pra frente e profetisa, em alto e bom som: “Se eu ganhar a eleição, vou fazer um churrascaço, churrasco com aço. Tenho dito e muito obrigado”. Assunto encerrado, meu pai me diz:”É uma besta. Vamos embora depressa daqui”.

Finalmente chega o dia da votação. Ela estava sem esperança, pois entrou para pagar favor ao Milton Áreas. Resultado: dos quase 3.200 votos apurados, nosso adversário ganhou com, aproximadamente, 1.200 votos de frente.

ELEIÇÕES MUNICIPAIS - 2

Eram as eleições municipais de 2000. Nosso candidatoa prefeito de Bom Jesus do Itabapoana, era Miguel Motta,que contava com apoio do Governador Garotinho, seu amigo de porta de cozinha. Eu participei ativamente da campanha, fazendo corpo a corpo nas casas, indos aos comícios, fazendo discurso etc. A minha participação devia-se não somente ao fato de ser, na ocasião, agente do Gov.Garotinho, respondendo por Bom Jeus, Natividade, Porciúncula e Varre-Sai, mas, também pela amizade com o Miguel. Precisávamos de mudança na administração do minicipio. O fato pitoresco, ocorreu em Rosal.. No sábado,era nosso comício em Rosal. Eu havia alugado um casarão, para fins de semana, na praça da Vila, ao lado da igreja católica. Naquele dia, desde cedo, nosso pessoal foi chegando e indo lá para casa, nosso quartel general, onde eu esperava com bebidas e paneladas. À noite foi o comício. Nunca se viu Rosal com tanta gente. Já tínhamos, pelas pesquisas, certeza da vitória.. Sucesso total.

Terminado o comício o pessoal foi embora, menos eu e Eulina, que ficamos para ver o comício do adversário, no domingo à noite.

Amanhece o dia, o comentário era empolgante com nossa campanha.

Por volta das 5 horas da tarde, chega o pessoal para montagem do caminhão palanque e o som. O comício estava previsto para as 7 horas da noite. Neste mesmo instante, reúnem-se na praça, local oficial dos comícios, caravanas com membros de igreja evangélica, de várias localidades, e começam as pregações e entoam os hinos, por sinal muito bonitos. Tinha até conjunto musical.

O tempo foi passando, os evangélicos sem pressa de terminar o culto, e o pessoal do comício sem poder testar o som, soltar foguetes e convidar o povo para ouvir os discursos. E eu, na janela do casarão, vibrando. Mais ou menos, 6 horas da tarde, chega um ônibus, estaciona ao lado do casarão, trazendo o pessoal de Pirapetinga. Todo mundo com faixas e bandeiras, vai descendo o povo e indo para a praça, mas como não havia ninguém da política, entram todos na igreja.

Às 7 horas, o culto estava terminando, quando, depressa, desci a fui ao Pastor, parabenizar pela belez\a do evento e pedir que ele estendesse o culto por mais 1 hora, já que a aceitação pelo povo estava muito boa. Ele argumentou que não poderia, pois fora avisado do comício naquele horário e, eu contraargumentei que nada era mais importante que a mensagem de fé que eles traziam para nós. Dizendo isto, meti a mão no bolso e dei uma ajuda financeira para ajudar nas despesas. Acordo acertado.

Chegavam os candidatos e ficavam em seus carros, sem saber onde ficar. Nada estava pronto. Um dos candidatos, vendo-me na janela, pediu refúgio e entre um gole e outro da “purinha”, reconheceu a derrota.

Por volta das oito horas, culto encerrado, foram testar o som do palanque. Às oito e meia, começaram as falas. Pouquíssimas pessoas. Após os, mais ou menos, 6 primeiros oradores, não teve tempo para mais nada. Desceu um temporal que encerrou o comício.

Eu, já no bar do Sapinho, me deliciando, falava com os que lá se esconderam:”Voltem ananhã”. Ouvi de volta: “Desde cedo desconfiamos que foi arrumação sua”.

MEU ALTO DE SERRA

“Hoje, depois de tanto tempo, eu volto no tempo , e estou aqui. De novo, sentado na varanda, fico meditando, esperando a noite cair”. Assim, dou inicio a uma despretenciosa canção que fiz para reviver momentos antigos e felizes que passamos em nossa propriedade rural no alto da serra, na divisa dos municípios de São José do Calçado e Bom Jesus do Norte.

Hoje, estamos aqui, eu e Eulina, a sós, após muitos anos sem que viéssemos desfrutar de uma noite na zona rural.

Que diferença/ Sou saudosista. Mas não existe qualquer semelhança entre o ontem e o hoje na vida da roça.

Tínhamos uma casa cheia, com, no mínimo, doze pessoas. Hoje, resume-se somente a mim e Eulina. Colonos, nem se fala. Eram dez famílias, além do campeiro. Hoje, apenas duas.

Àquela época, não possuíamos luz elétrica. A iluminação normal, era feita pela sempre fiel lamparina. O motor a óleo era para casos especiais. Sob o clarão da lamparina, reuníamos aos sábados, no inicio da noite, para jogar bisca, escopa e outros jogos pr´prios da roça. Nossos parceiros, alem da D.Eni, moradora da sede, eram o carreiro Chico Hermenegildo, que morava no quarto da cozinha, o campeiro Tião Campos e sua esposa Luizinha. O carteado ia até até tarde – 8 horas da noite. Isto, se, Maria Alice, que estava dormindo desde as 5 horas da tarde, não levantasse e surrupiava uma carta, para acabar com aquela anarquia.

No dia seguinte, às quatro e meia da manhã, começavam as tarefas. Chegavam as vacas para a tiragem do leite. Não gosto da expressão “ordenha”. É muito elitizada. Os colonos se preparando para ir para as lavouras etc.

Nas noites frias e, às vezes chuvosas, sentávamos próximos ao fogão a lenha, fumegante, onde em suas trempes, D.Eni assava bananas dàgua. E, para não perder tempo, “cascávamos” e debulhávamos de três a quatro balaios de milho, para tratar das galinhas, ocasião em que os casos eram contados, um após o outro.
Dia de matar um “capado”, seja na casa de quem fosse, era uma festa. Os demais moradores, recebiam uma vasilha com carne.
A juntada do café no terreirão de pedra, em frente à fazenda, às vezes com a proximidade da chuva, era sempre com muita gente se ajudando, tornando o momento um ponto de encontro. As famílias, quase sempre compadres e comadres, se visitavam. Não havia a televisão para atrapalhar.

E hoje? O êxodo rural é quase completo. As fazendas, em sua maioria, não são mais residências dos proprietários. A legislação trabalhista atemoriza os produtores. Deveria haver uma legislação diferenciada para o produtor rural. Mas, isto deixo para depois. Os trabalhadores, preferem pagar aluguel, energia, água etc. morando na “rua”, do que morar na zona rural, onde a despesa é mínima e, a vida mais tranqüila e simples.
Já é tarde. Desperto de meus devaneios e termino como a minha cançãso – “E, como no teatro, é fim de ato. Nos levantamos e vamos pro quarto”.

FIAT LUX


Fez-se a luz. Eu me senti como se estivesse no palco. A cortina sendo descerrada e lá estava eu, ante os olhares, estava certo disso, de uma platéia estranha e indagativa; Sentia-me nu, sem reação, totalmente apavorado e indefeso. Assim foi o dia 26 de outubro de 1966 quando, saído da casa de meus pais, muito novo, cheguei em Feira de Santana, na Bahia.
Desci do ônibus da empresa Real Bahia, por volta do meio-dia, após quase 24 horas de viagem. Não havia rodoviária. Perguntei a um transeunte onde era o ponto de ônibus para Irará, minha futura cidade, onde tomaria posse como funcionário do Banco do Brasil.
Cheguei à pensão que ficava em frente ao local em que sairia o veículo e, automaticamente, pedi almoço. Não tinha fome e também não tinha sobre o que falar. Almocei, guardei minha bagagem no quarto que alugara – uma mala velha, enorme, de couro ressecado, fechada à chave e, para maior segurança, amarrada com uma surrada correia.
Saí da pensão e fui até ao bar que ficava próximo, para comprar passagem. Para minha sorte, naquele dia teria viagem para Irará – era dia sim e dia não.
Fiquei no bar observando uns senhores que jogavam gamão, na maior felicidade e eu ali tenso, arrependido de ter aceito de ir para tão longe. O tempo tramava contra mim, não passava e eu já pensava em desistir e voltar para Bom Jesus. Por sorte, não passou nenhum ônibus com destino ao Rio de Janeiro. Suava frio. A ansiedade tomava conta de mim. Havia uma briga interna.
Finalmente, às cinco horas da tarde, chegou a condução. Não acreditava no que via e que ainda existisse: um ônibus todo de madeira, com o bagageiro pelo lado de fora, por cima do teto, onde as malas iam sendo arrumadas e amarradas com corda.
Partimos, estrada de chão. Passamos por cidades minúsculas, com nomes estranhos, como Ouriçangas,Santanópolis etc.
Chegamos ao destino por volta das 7 horas da noite. Só me dei conta de estar dentro da cidade, pelo alvoroço das moças querendo descer, uma vez que a energia elétrica, era de horrível para péssima. Desci do ônibus exausto. Dali para frente o que viesse seria lucro. Procurei a república – casa onde moravam os funcionários solteiros do Banco do Brasil. Fui muito bem recebido pelos novos colegas que me deixaram à vontade. Logo me adaptei.
No dia seguinte tomei posse no Banco, garantindo para meus pais e, futuramente, para minha esposa e filhos, dias de tranqüilidade.
Fiat lux, novamente e desta vez já aclimatado, fez-se a luz. Meditei, ponderei e decidi: Se as pessoas eram felizes ali, porque eu seria exceção? Desse momento em diante, mudei minha vida. Assumi o papel de ator principal e não um simples figurante. Passei a participar de todos os acontecimentos – missas, aniversários, candomblé, casamentos, bailes, velórios etc.
Com meu jeito simples e caipira, cativei as pessoas. Sentava nas calçadas para beber cervjea, dreher com martini, ouvir músicas, jogar “pelada” de futebol – lá se chama”baba”. Conheci pessoas interessantes: Joaquim Estrela, dos Correios, o único radical anticomunista que, na revolução de 64, fora detido pelo dops. Pe.Bruno que dizia ter feito o casamento de Lampião com Maria Bonita e, jogava o dinheiro da igreja na loteria federal e, vários outros.
Eu era bem eclético – ia à missa e ao candomblé. Era todo atencioso com famílias tradicionais mas, dificilmente, perdia almoço na casa da Duca, no baixo meretrício. Recordo-me, quando em 1989, reunimos os ex-funcionários da agência e levei-os, com as esposas, para almoçar na casa da Duca. À noite, fomos à missa.
Faço este relato para demonstrar que “longe é um lugar que não existe”. Podemos conseguir o que quisermos. Podemos ser felizes e realizados – basta querer e não desanimar com os primeiros tropeços. As rosa são lindas e perfumadas mas, também tem espinhos.

AULA DE CATECISMO


Havia lá na roça, um colono e às vezes campeiro, chamado Luiz Carlos, mais conhecido por Luizinho Fisguei. Foi morador, onde veio a falecer na Vala em Calçado. Era do tipo engraçado, cor escura, já tinha seus 60 e poucos anos, olhos vermelhos esbugalhados. Ninguém conseguia ficar perto dele sem dar risada, com os causos que contava. Um dia, falou para minha filha: "Milene, tingi meu cabelo de "marelo". Fiquei igual a um "canaro". Bebia muito. Aos sábados, ia a Calçado fazer compra e só voltava terça-feira. Às vezes voltava sem as compras. Morava sózinho, era separado da mulher, mãe de seus filhos. Volta e meia, arranjava uma companheira, sempre a mesma. Não era de parar muito tempo em uma colocação. Conosco, mudou umas dez vezes.

Um dia, resolveu aprender a rezar. Lá na roça mesmo, o pessoal foi ensinando as orações básicas como Ave Maria e Pai Nosso. Não esqueceu também do sinal da cruz e do pelo sinal, para antes e depois das rezas. Foi no pelo sinal que ele se estrepou. Não acertava nunca. D,Eni e Maria Alice ensinavam e, esta já sem paciência, o que era seu forte, gritou: "Fisguei, você é muito burro. Você sabe a oração toda, o que está pegando?" Ao que êle, com olhar paciente e piedoso, olhos arregalados e querendo rir, respondeu: "Maria, as palavras do pelo sinal eu sei todas, eu não consigo é "espaiá" a reza na cara".



Guido Rezende
guidorezende@hotmail.com



 

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