Era
costume, crianças a partir dos 7 anos, fazerem a primeira
comunhão. Comigo não foi diferente, só
que fiz a minha, aos dez anos.
Iniciado na igreja católlica, minha mãe, logo
entregou-me ao Pe.Francisco. Creio que dispensa muito comentário
sobre o seu jeito de ser: bravo, exigente, intolerante etc.
Basta dizer que seu apelido era “Chico Sarrafo”.,
diz tudo. Eu, com muito jeito, soube cativa-lo e adquiri sua
amizade. Minhas traquinagens, perdoava sempre. Trazia-me, quando
de sua visita anual aos seus familiares em Sobral, estado do
Ceará, sua terra natal, uma lembrança.
Feita esta apresentação, passo às minhas
“artes” que, dentre várias, tais como: bater
o sino fora de hora, usar a batina para brincar de Zorro, comer
o pudim que D.Zilá Brasil fazia especialmente para ele,
soltar bombinhas nas pernas da D,Agostinha, uma velha africana
que morava no sótão da casa paroquial, seleciono
duas.
- De quando em vez,visitavam nossa paróquia uns frades
capuchinhos vindos do Rio Grande do Sul e presenteavam o vigário
com vinhos da melhor qualidade. Eu, juntamente com o Getúlio
Baptista, escondíamos algumas garrafas em nossa adega
clandestina. O local era atrás dp altar mor, muito grande,
e o seu fundo era oco, o que dava certinho para nós nos
escondermos e beber o vinho. Não faltava nada. Nem o
tira gosto. Como bom sacristão que era, eu conhecia tudo
na igreja e tinha acesso a tudo.
Munido de uma chave, ia sorrateiramente, no armário onde
ficavam as hóstias ainda não consagradas e apanhava
algumas. Mas, tinha um problema, elas tinham pouco sal. Problema
apresentado. Problema resolvido. Fui à casa da D.Olga
Cavichini, salvo engano o nome era este mesmo e, disse para
ela que o Pe.Francisco, atendendo aos fieis, pedia para que
ela “pesasse” um pouquinho a mão no sal.
Aí sim, ficou uma beleza.
Quando terminou o estoque das hóstias insossas e foram
usadas as hóstias da última fornada, os fiéis
reclamaram do excesso de sal. Desconfiado de alguma coisa, Pe.Francisco
foi à casa da D.Olga saber do porquê do novo tempero.
Não preciso falar mais nada. Foram 50 Ave Maria e 50
Pai Nosso, ajoelhado.
XXXX
- Eu gostava muito de, sábado à tarde ir para
a torre da igreja e nos 2 vãos na área destinada
ao coro, pegar andorinhas e, à noite, durante ou após
a ladainha, quando não estava escalado para ajudar na
cerimônia, jogar, lá de cima, as andorinhas no
povo.
Determinado sábado, peguei mais de 20 filhotes de andorinhas
nos diversos ninhos e, como não tinha onde guarda-los,
apelei para a capela de Nosso Senhor, lado direito do altar
mor e os guardei no sacrário. Esta capela, muito menos
o sacrário, nunca eram usados, visto que o Pe.Francisco,
assim como eu, era devoto de Nossa Senhora de Fátima,
portanto só usava a capela do lado esquerdo, dedicada
a Ela, para guardar o cálice com as hóstias consagradas
sobradas da ladainha.
Por obra do destino, fui escalado para ajudar na ladainha daquele
sábado.
Terminada a ladainha, Pe.Francisco desce o altar e vira para
a capela de Nosso Senhor. Prevendo o perigo iminente, puxei
sua estola para o outro lado. Ficamos nessa turra – ele
querendo para a direita e eu tentando leva-lo para a esquerda.
Falei para ele que Nossa ora não iria gostar. Não
teve jeito. Fomos andando lentamente. Eu, muito nervoso e suando
frio, zoava a campainha com insistência e na maior altura
e ele mandando para com aquela algazarra.
Chegamos ao altar. Apanhou a chave, eu desesperado, zoava a
campainha, abriu o sacrário, afastou a cortininha e estava
a desgraça descoberta. Andorinha morta, andorinha saindo
cambaleando, tudo cagado. Ele fechou o sacrário, olhou
para mim que fale: “Não foi por falta de avisar”.
Fomos para a outra capela. Tudo terminado, guardei minha paramentáriae,
já ia fugir, quando ele mandou esperar. Pensei, é
agora.
Fui interrogado por 5 vezes se aquilo era “coisa”
minha e, na mesma quantidade de vezes, neguei. Nem São
Pedro negou tanto. Para tornar “oficial” o interrogatório,
colocou a estola. Aí a coisa muda figura, é partida
valendo 3 pontos, não pode falhar. É pecado falar
mentira na confissão. Não foi nem preciso me perguntar,
fui dizendo logo que o autor era eu mesmo. Fui perdoado, mais
uma vez. Rezei quantidade enorme de terços.
Este caso serviu para o Desembargador Dr.Nivaldo Xavier Valinho,
ilustrar, numa palestra em Vitória, com várias
autoridades do judiciário capixaba, de como se conseguir
uma confissão, sem usar de violência.
Muitos anos depois, minha esposa estava fazendo compras de verduras
e lá também estava o Pe.Francisco, que disse para
ela que eu dei muito trabalho a ele na igreja e agora eu ia
pagar: mandou debitar em minha conta, as compras que acabara
de fazer para o seu Abrigo dos Velhos.
ESTRESSES DOS PORCOS
Certa ocasião, Maria Alice resolveu iniciar um comércio
de suínos. Como eu era seu sócio, contratamos
os serviços de pedreiro do Zeca, irmão do João
Canudo, para construir os chiqueiros. Foi feita a base, meia
parede de tijolos, semicobertura , saída da água
etc. Ressalvando o piso, cuja queda ficou ao contrário,
a obra ficou boa.
Faltavam os porcos. Fomos informados que o Joarli Delatorre
possuía uns leitões brancos, muito bons e queria
negocia-los. Marcamos a hora com ele e fomos dar uma olhada.
Leitoada bonita, sadia etc. Enquanto discutíamos a negociação,
D.Eni, que era mestra no assunto, calculava os pesos deles,
no “olhômetro” e nos informou.
Finalmente, chegamos a um acordo. Maria Alice trocou sua Belina
marrom nos animais.Não sei precisar quantos eram, mas,
a carroceria da pick-up, foi lotada.
Chegando com o rebanho, fomos distribuí-los nas várias,
oito, repartições do chiqueiro. Bobeamos e um
fugiu, morrendo afogado na pequena represa nos fundos da fazenda.
Maria Alice ficou entusiasmada. Ela mesma cuidava do manejo.
Com poucos meses, os porcos já estavam bons para o abate.
Freguês não faltava. O primeiro comprador foi o
Castilholi, pai do Dalton. Comprou meia dúzia. Minha
irmã os encarretou na pick-up e foi leva-los para a “rua”,
no horário combinado – 5 horas da manhã.
Porém, o que ela não contava era com a fiscalização
do estado, dando uma blitz.
O fiscal, vindo de Cachoeiro, mandou parar o veículo
e pediu a nota fiscal da mercadoria. Logicamente, não
tinha. Maria Alice perguntou o por quê daquela exigência.
O fiscal explicou que para toda mercadoria negociada, tem que
ser emitida uma nota fiscal correspondente à aquela transação.
Tão logo houve a explicação, ela respondeu:
“E quem foi que disse que estou vendendo estes porcos?
Eu os criei desde novinho, na mamadeira, tenho o maior carinho
com eles. O senhor acha que vou deixar mata-los?” O fiscal
assustado: “Mas o que a senhora está fazendo com
eles na carroceria do carro, neste horário?”. Ouviu
de volta: “Estou aproveitando a fresca da manhã
para dar uma voltinha de carro com eles. Estão estressados
e, com licença, porque daqui a pouco o sol esquenta”.
Guido
Rezende
guidorezende@hotmail.com
